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Capítulo 4

last update publish date: 2026-09-12 09:09:35

Luna Smith

Lembro que, quando fiz doze anos, pedi ao meu pai um celular de presente de aniversário.

O que recebi como resposta foi uma surra que me deixou vários dias de cama, com duas costelas quebradas.

Tia Agnes aproveitou a viagem do meu pai para a igreja sede, em Nova York, para me levar a um hospital fora da cidade, pois eu estava machucada demais para ser tratada em casa.

Ela precisou inventar uma história mirabolante sobre eu ter caído da escada para que os médicos não chamassem a polícia e, é claro, eu confirmei tudo.

A justificativa do meu pai para me espancar daquele jeito?

Eu estava sucumbindo às tentações mundanas e ele precisava me salvar de mim mesma.

Desde então, aprendi a não manifestar os meus desejos, mesmo quando era meu aniversário e meu pai perguntava o que eu queria.

Sabia que aquilo era um teste, então eu apenas dizia que já tinha tudo o que precisava.

De qualquer maneira, passei a detestar aniversários.

Acho que foi por conta do trauma.

Então, é de imaginar que nunca nem ao menos toquei em um telefone. Não que fizesse diferença. Eu não tinha com quem conversar mesmo.

Só tinha tia Agnes, e ela morava na mesma casa que eu.

Agora, no entanto, sentada há mais de duas horas na rodoviária de Chicago, nunca desejei tanto ter um celular.

Foi difícil fugir de casa.

Tentem pular uma janela com o corpo todo dolorido depois de ser surrada pelo próprio pai e vão me entender.

Agora imaginem fazer isso com uma mochila pesada nas costas, as mãos tremendo e em completo pânico.

Só conseguia pensar no que aconteceria se meu pai me flagrasse tentando fugir no meio da noite.

Quando finalmente cheguei à rua, veio a segunda parte do meu desespero.

Eu nunca, em momento algum da minha vida, saí de casa sozinha.

Sempre estive acompanhada do meu pai ou de tia Agnes e, pela primeira vez, teria que me virar sem a companhia de ninguém.

Ao menos eu sabia onde ficava a rodoviária.

Essa era a vantagem de morar em uma cidade pequena: todo mundo sabia onde ficava tudo, e tudo era perto.

Mas aí veio o próximo desafio.

Tia Agnes me deu algum dinheiro para a viagem. Eu deveria ir até o guichê e comprar uma passagem para o primeiro ônibus saindo para Chicago.

A rodoviária estava vazia, mas o atendente me conhecia.

Era o senhor Morysson, membro fiel da nossa igreja.

Ele avisaria ao meu pai que eu estava na rodoviária assim que me visse.

Escondi-me atrás de uma pilastra sem saber o que fazer.

Será que conseguiria embarcar pagando a passagem em dinheiro?

Mas, para a minha sorte, o turno do senhor Morysson acabou e ele foi substituído por uma garota que eu não conhecia e que parecia ser poucos anos mais velha do que eu.

Ela não era da minha igreja, e isso me deu confiança para comprar a passagem.

Graças a Deus, deu tudo certo e, dez minutos depois, eu estava dentro do ônibus a caminho de Chicago.

Com medo?

Muito.

Estava apavorada.

Não conhecia nada fora da bolha em que fui criada, não sabia o que poderia acontecer comigo dali para frente, mas a certeza de que tinha feito a coisa certa não me abandonava.

Eu tinha que sair do domínio do meu pai.

E sairia do domínio dele para cair nos braços de um velho que poderia ser o meu avô e que, a julgar pelos olhares que lançara em minha direção naquele jantar, era pior do que o pastor Caleb, a quem eu chamava de pai, mas que nunca foi um pai de verdade para mim.

Mas aí você pensa: acabou, Luna. Você conseguiu.

Só que não.

Quando desembarquei em Chicago, não tinha ninguém me esperando.

E é aí que entra a minha lembrança do celular no meu aniversário de doze anos.

Se eu tivesse um celular agora, poderia ligar para tia Agnes ou até mesmo para o meu irmão.

Mas eu não tenho e nem sei o número deles para ligar de um telefone público.

Depois de duas horas de espera, estou começando a cogitar pegar o dinheiro que me resta e comprar uma passagem de volta para Richmond.

Não quero voltar.

Sei que, se isso acontecer, meu pai vai me bater tanto que eu provavelmente vou precisar de atendimento médico e, por incrível que pareça, ainda prefiro isso a me casar com o reverendo Maverick.

Luna — Vou esperar mais um pouco. Talvez tia Agnes ainda esteja tentando falar com o Brandon.

Digo em voz alta e continuo sentada, ignorando os olhares das pessoas que passam por mim, provavelmente assustadas com os machucados em meu rosto.

Devo estar cheia de hematomas e com o olho esquerdo inchado, sem contar o corte na minha boca.

Nem quis olhar meu reflexo no vidro do ônibus quando estava vindo para cá.

Não porque me preocupasse com a minha aparência — fui ensinada desde sempre que a vaidade é pecado —, mas porque doía saber que todas aquelas marcas foram feitas pelo homem que deveria me amar e me proteger, não me espancar.

Mas meia hora se passou, e eu estava lutando para não fechar os olhos, pois estava cansada demais.

Sabia que, se dormisse ali, poderiam roubar o pouco que eu tinha ou coisa pior.

Foi quando ouvi o barulho de passos vindo em minha direção e ergui o rosto.

Os sapatos bonitos pararam na minha frente.

— Você é a Luna?

Diante de mim estava um homem alto, forte e extremamente bonito.

Por um momento, me perguntei se aquela era uma aparição do próprio Lúcifer diante de mim.

Lembro de ter lido na Bíblia que ele era o anjo mais bonito entre todos.

Quase comecei a orar ali mesmo, implorando a Deus que me protegesse.

Fechei os olhos por alguns segundos, pensando que talvez fosse a minha mente me pregando uma peça.

Mas, quando os abri novamente, ele ainda estava lá, me encarando com aqueles olhos verdes profundos e os cabelos castanho-claros levemente bagunçados.

Então, seu olhar desceu lentamente pelo meu rosto.

Parou no meu olho inchado.

Depois, no corte em minha boca.

Por fim, voltou para os meus olhos.

E, pela primeira vez desde que ele chegou, aquele homem deixou de parecer uma aparição divina.

Havia alguma coisa diferente em seu olhar agora.

Como se estivesse tentando entender quem tinha feito aquilo comigo.

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