FAZER LOGINA raiva corria nas veias de Nala como um veneno quente. Cada segundo que passava fazia a imagem de Breno invadindo sua sala e a chamando pelo primeiro nome voltar à sua mente, alimentando uma frustração difícil de engolir. Ela sempre foi uma mulher que resolveu seus próprios problemas com frieza e cálculo. Não tolerava desaforo, não aceitava ordens e, acima de tudo, não aceitava perder o controle da própria vida.
No entanto, desde que aquele homem apareceu, ela sentia que o chão sob os seus pés estava começando a ceder.
Já passava da meia-noite quando o carro a deixou na porta da sua cobertura de luxo, no topo de um dos prédios mais caros da cidade. As luzes da metrópole brilhavam lá embaixo, formando um mar de pequenas estrelas artificiais, mas Nala não conseguia apreciar a vista. Sua cabeça estava a mil por hora, latejando de puro estresse. Precisava de alívio. Precisava de uma distração urgente para descarregar toda aquela pressão acumulada antes que fizesse alguma loucura no escritório no dia seguinte.
Fiel à sua regra de ouro para momentos de tensão — sexo rápido, frio, sem compromisso, sem conversas e sem repetição —, ela foi direto para o quarto. Pegou o celular corporativo, aquele que pouquíssimas pessoas conheciam o número, e discou diretamente para uma agência de acompanhantes de alto luxo com a qual já havia negociado em outras ocasiões solitárias.
— Preciso de alguém para esta noite. Quero alguém alto e totalmente discreto. Trinta minutos na minha porta — ela ordenou com a voz fria, direta e sem dar espaço para qualquer tipo de conversa fiada ou perguntas desnecessárias. Do outro lado da linha, o atendente apenas confirmou o pedido, acostumado com a exigência e o poder aquisitivo daquela cliente.
Exatamente vinte e cinco minutos depois, a campainha da cobertura soou suavemente.
Nala abriu a porta usando apenas um roupão de seda preta. O cabelo estava solto, caindo em uma lace longa e ondulada pelos seus ombros. O rapaz que entrou era exatamente o padrão que a agência costumava mandar: alto, jovem, de traços simétricos, dentes brancos e um sorriso ensaiado de quem sabia cumprir bem o seu papel. Ele não fazia perguntas íntimas; estava ali apenas para prestar o serviço pelo qual seria pago generosamente.
— Você demorou um pouco — Nala disse de forma seca, abrindo espaço no hall de entrada para ele passar.
— O trânsito na avenida estava bem complicado a esta hora, Sra. Alencar. Mas cheguei para garantir que a senhora relaxe e esqueça os problemas... — o rapaz começou a falar, dando um passo à frente com uma postura insinuante, pronto para entrar no jogo.
Mas ele não teve tempo de terminar a frase.
Antes mesmo que pudesse encostar um único dedo em Nala, a porta da entrada se abriu de repente com um estrondo metálico assustador. O sistema de tranca eletrônica de alta segurança havia sido simplesmente desarmado por fora.
Nala arregalou os olhos, congelando no lugar. O rapaz deu um passo para trás, completamente assustado com o barulho e a invasão repentina.
Breno cruzou a soleira da porta a passos largos. Ele não estava usando o terno engomado do escritório. Vestia apenas uma camisa preta colada ao corpo largo e forte, com as mangas dobradas até a altura dos cotovelos, revelando os antebraços firmes. O rosto estava fechado, e o olhar parecia cortar vidro de tanta seriedade. Na mão direita, ele segurava um crachá de acesso daquela agência de modelos, que o porteiro da recepção havia tentado barrar antes de ligar desesperado para o chefe de segurança para avisar que algo estranho estava acontecendo.
— O que significa isso?! — Nala gritou, perdendo a compostura em um segundo, a fúria tomando o lugar do choque. Ela apontou o dedo trêmulo para o rapaz parado na sala. — Quem te deu o direito de entrar na minha casa desse jeito? Saia daqui agora!
— Fora — Breno ordenou ao modelo em voz baixa, mas com uma autoridade tão pesada e cortante que ecoou por todo o hall.
O rapaz não pensou duas vezes. Vendo o tamanho de Breno e o clima de tempestade que tomou conta do ambiente, ele deu meia-volta, passou correndo pela porta e praticamente se atirou para dentro do elevador, sumindo em poucos segundos.
A porta bateu com força, trancada pelo próprio Breno, que a fechou calmamente por dentro, girando a tranca.
Nala deu dois passos firmes em direção a ele, tremendo de ódio da cabeça aos pés. O peito arfava forte sob o tecido fino do roupão preto.
— Você perdeu completamente o juízo?! Quem te deu autoridade para entrar na minha casa sem ser convidado? Como ousa espantar o meu... — ela berrava, fora de si.
— O seu passatempo? — Breno cortou a frase dela no meio, avançando com tudo.
Ele se moveu rápido demais. O espaço entre os dois desapareceu em segundos, obrigando Nala a recuar até bater as costas contra a parede fria de mármore da entrada. Breno colou o corpo no dela e bateu a mão espalmada na parede, bem ao lado da cabeça de Nala, prendendo-a ali sem a menor chance de fuga. Os olhos dele faiscavam de pura irritação, tão perto que ela conseguia sentir a respiração quente dele batendo em seu rosto.
— Você acha mesmo que eu vou ficar de braços cruzados deixando qualquer desconhecido entrar na sua cobertura enquanto a minha equipe faz a segurança do prédio inteiro? — Breno rosnou, o tom de voz grave mostrando que ele estava no limite da paciência.
— A minha vida particular não é da sua conta! — Nala sibilou de volta, furiosa, tentando empurrar o peito dele com as duas mãos com toda a força que tinha. Mas Breno era uma rocha; nem sequer moveu um centímetro para trás. — Eu faço o que eu quiser, com quem eu quiser, na hora que eu bem entender! Eu sou a dona dessa porra toda!
— Dane-se a sua empresa e dane-se o seu dinheiro, Nala! — Breno rugiu baixinho, perdendo o controle por um instante.
Os olhos dele caíram rapidamente para os lábios entreabertos de Nala, demorando-se ali por um segundo antes de subirem de novo para encarar os olhos dela, carregados de uma tensão absurda.
— Na próxima vez que for receber visitas a essa hora, basta avisar a central para o meu pessoal não precisar me ligar achando que é uma invasão.
O silêncio despencou de repente sobre a cobertura, pesado e sufocante. As palavras de Breno atingiram Nala como um balde de água fria misturado com brasas acesas. Ela percebeu, pelo tom dele, que ele não estava ali para julgá-la moralmente sobre quem ela trazia para a cama; ele estava ali pelo trabalho, cumprindo o dever de protegê-la. Mas a proximidade física, o cheiro dele, o calor do corpo colado ao seu e a intensidade daquele olhar diziam exatamente o oposto. Havia muito mais do que segurança profissional ali, e os dois sabiam disso.
Antes que Nala pudesse formular qualquer resposta ácida ou mandá-lo embora de vez, Breno se afastou devagar, soltando o fôlego pesadamente. Ele ajustou as mangas da camisa com movimentos mecânicos, virou as costas sem dizer mais nenhuma palavra e caminhou em direção à saída, deixando Nala sozinha no meio da sala, lutando para entender o próprio coração disparado e o caos que ele havia instalado na sua vida.
O sol da manhã de São Paulo brilhava implacável entre os arranha-céus de concreto e vidro, filtrando-se pelas cortinas da cobertura com uma claridade ofuscante que contrastava fortemente com a densa nuvem de tensão e perigo que pairava no ar. Nala respirou fundo, sentindo o peso da realidade corporativa desabar sobre seus ombros novamente. Ela calçou um par de tênis de corrida para facilitar a mobilidade, vestiu um vestido de malha leve, prático e neutro, e jogou algumas peças básicas de roupa e itens de higiene em uma mochila preta, junto com seu notebook de alta performance e os HDs criptografados de segurança da Alencar Tech. — Isso é um exagero completamente desproporcional, Breno, e você sabe disso — ela reclamou com firmeza, enquanto caminhavam a passos rápidos pelos corredores de serviço da cobertura em direção ao elevador privativo de carga que os levaria direto à garagem subterrânea. — É apenas um ataque de ransomware comum disparado por sindicatos virtuais de extorsão. Minha
Na manhã seguinte, a imensa cobertura de luxo estava mergulhada em um silêncio denso, pesado e quase palpável, que parecia guardar os ecos de tudo o que havia explodido entre eles nas últimas horas. Nala acordou sentindo cada músculo do corpo dolorido, pesado de uma exaustão que misturava a ressaca física daquela paixão avassaladora com a ressaca emocional de ter derrubado todas as muralhas que levara a vida inteira para construir. No entanto, pela primeira vez em meses de insônia crônica e noites dedicadas exclusivamente ao trabalho, a sua mente não estava ocupada com relatórios financeiros de última hora, projeções de mercado ou estratégias frias de expansão corporativa. Estava completamente ocupada pela imagem imponente de Breno, pelo jeito bruto e ao mesmo tempo protetor com que ele a segurava na penumbra, como se ela fosse a única coisa que realmente importava naquele mundo cão. Ela se espreguiçou lentamente sob os lençóis de algodão egípcio, sentindo o calor residual da presença
A luz implacável e fria da manhã invadiu o quarto espaçoso através das frestas das cortinas automatizadas, revelando o lado esquerdo da cama completamente vazio, amarrotado e frio. Breno já havia saído dali há horas, deixando para trás apenas o rastro inconfundível de seu perfume amadeirado misturado ao calor de sua presença recente. Para Nala, aquele vazio repentino funcionou como um alívio imediato — ou pelo menos foi exatamente isso que ela tentou repetir dezenas de vezes para si mesma enquanto organizava os pensamentos caóticos e tentava colocar a cabeça no lugar após uma noite de total perda de controle. O que tinha acontecido nas últimas horas naquelas quatro paredes não passou de uma descarga absurda de tensão, adrenalina e estresse corporativo acumulado, um ponto fora da curva, um acidente de percurso puramente físico que não mudaria absolutamente em nada a estrutura de sua vida blindada, sua independência inegociável ou suas prioridades de bilionária. Decidida a retomar o con
O silêncio do quarto fechado e blindado era sufocante, denso o suficiente para cortar com uma faca, mas nada no mundo se comparava ao calor insuportável e febril que consumia o corpo de Nala por dentro. Deitada sozinha na cama grande e espaçosa, vestindo apenas aquele baby-doll de seda preta que agora parecia pesar toneladas sobre a sua pele queimando, ela tinha a imagem de Breno gravada a ferro e fogo na memória recente. Os ombros largos e imponentes cobertos de cicatrizes de guerra, os pingos de água gelada escorrendo lentamente pelo abdômen trancado em gomos, a toalha branca frouxa na cintura e o volume descarado e marcante sob o tecido úmido formavam um filme mental repetitivo que fazia sua cabeça girar em um turbilhão de loucura. Sem os modelos de aluguel frios, superficiais e descartáveis que costumava usar no passado apenas para apagar o fogo físico e manter as aparências de uma vida controlada, ela percebeu de repente, com um pavor sutil, que estava completamente nua, vulneráv
Nas semanas seguintes, a rotina dentro e fora da empresa entrou em um ritmo de calmaria aparente, uma trégua frágil que mais parecia a calmaria que antecede tempestades devastadoras. Nala, decidida a provar para si mesma e para qualquer vestígio de fraqueza que ainda habitasse sua mente que tinha o controle absoluto de suas próprias emoções, cortou totalmente o contato com a agência de modelos de alto luxo e parou de procurar qualquer tipo de distração noturna efêmera. Ela queria provar que conseguia viver perfeitamente bem sem aquele alívio físico rápido e, acima de tudo, queria testar a paciência de ferro de Breno, impondo uma convivência que fosse estritamente profissional, mecânica e fria. Aos poucos, conforme as auditorias de segurança avançavam com sucesso absoluto sob a liderança firme da Titan Security e as ameaças anônimas direcionadas aos servidores da Alencar Tech diminuíam drasticamente — fruto de uma varredura rigorosa que eliminou brechas de rede —, a escolta implacável
A luz da manhã que cortava as frestas das persianas automatizadas da cobertura não trazia calor, mas sim a sensação fria de uma lâmina raspando na consciência de Nala. Sentada à mesa de vidro temperado da sala de jantar, ela empurrava distraidamente um pedaço de fruta de um lado para o outro no prato de porcelana importada, incapaz de engolir qualquer bocado. A dor de cabeça latejante não vinha de excesso de álcool ou de uma noite mal dormida comum, mas sim do peso esmagador de sua própria hipocrisia recém-descoberta. Ela repassava mentalmente cada segundo da noite anterior, lembrando-se do som abafado, dos gemidos que escaparam sem permissão, da porta do quarto que estava propositalmente — ou talvez subconscientemente — apenas encostada. E, embora não houvesse provas materiais definitivas de que Breno estivesse ouvindo cada suspiro na hora exata do seu clímax, a lembrança do olhar pesado, da postura rígida e do sorriso cínico que ele ostentava na entrada da empresa fazia o estômago d







