MasukOs dias seguintes na Alencar Tech transformaram-se em um teste diário de paciência para Nala. Ela construiu seu império à base de independência e esforço próprio. Nunca precisou prestar contas de cada movimento a ninguém, muito menos ter uma sombra vigiando seus passos. Contudo, Breno parecia ter assumido a missão de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, como se quisesse provar que a qualquer momento o mundo dela poderia desmoronar sem a vigilância dele.
A rotina de perseguição velada irritava profundamente. Se Nala decidia esticar o expediente até tarde para checar pessoalmente um servidor crítico no subsolo, lá estava Breno. Ele surgia recostado na parede fria de concreto, com os braços cruzados sobre o peito largo, esperando em silêncio absoluto. Se ela pedia para o motorista particular levá-la a uma reunião externa de última hora com investidores, Breno aparecia no banco da frente, ao lado do motorista, analisando a rota pelo GPS e checando os retrovisores como se estivessem escoltando uma autoridade em meio a uma zona de guerra. Ele levava o trabalho a um nível de paranoia que deixava Nala com os nervos à flor da pele.
Naquela quinta-feira, a tensão acumulada ao longo da semana finalmente atingiu o limite crítico. O escritório estava silencioso, banhado pela luz fria dos monitores e pela penumbra do fim de tarde. Nala estava sentada em sua cadeira ergonômica, revisando linhas complexas de códigos de segurança que vinham apresentando uma oscilação estranha nas últimas horas. Ela trocara a antiga lace por um corte cacheado volumoso que caía livremente sobre os ombros, emoldurando o rosto e dando a ela um ar ainda mais feroz e indomável.
De repente, a porta da sala se abriu com um estalo seco, sem nenhum aviso prévio ou sinal de cortesia. Breno entrou a passos largos, carregando um tablet onde piscava um relatório em tempo real de ameaças à rede.
— Você perdeu o costume de bater na porta? — Nala perguntou, sem sequer erguer os olhos da tela do computador, destilando uma frieza cortante na voz.
— O protocolo de segurança diz que, em caso de alerta vermelho, a formalidade é o de menos — respondeu Breno de imediato, parando na beirada exata da mesa de vidro dela. O tom dele era firme, sem espaço para discussões. — Tentaram burlar o sistema de acesso da garagem há exatos vinte minutos. Alguém usou credenciais falsas clonadas para tentar infiltrar um veículo não autorizado.
Nala finalmente ergueu o rosto. Seus olhos castanhos faiscavam de pura raiva diante da ousadia.
— Essa rede é minha obra. Eu mesma criei cada linha de firewall e criptografia. Ninguém entra nesta empresa sem que o meu sistema saiba, Breno — disse ela, levantando-se de repente com pressa e irritação.
Com o metro e setenta de altura aliado ao salto alto fino, ela tentou encurtar a distância psicológica, ficando próxima dele. Mas Breno era consideravelmente mais alto e largo, possuindo uma presença física imponente que forçava Nala a inclinar ligeiramente o queixo para cima para encará-lo olho no olho.
— A sua rede é brilhante, Nala, eu reconheço isso. Mas os melhores hackers do mundo não usam apenas computadores para derrubar sistemas. Eles usam pessoas — Breno rebateu no mesmo segundo, chamando-a de propósito pelo primeiro nome, testando deliberadamente os limites da autoridade dela. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal e diminuindo drasticamente a distância entre os dois corpos. — E você está focada demais nas telas brilhantes e completamente de costas para a porta. Qualquer um com uma arma poderia ter entrado aqui.
O clima na sala ficou pesado e sufocante de repente. Nala sentiu o cheiro amadeirado e marcante do perfume dele invadir violentamente seus sentidos, misturando-se ao calor da discussão. Ela odiava ser contrariada em sua própria empresa, mas odiava ainda mais a traição silenciosa do próprio corpo, que reagia àquela proximidade de forma descontrolada e intensa. Seu peito subia e descia em um ritmo acelerado, denunciando a confusão interna.
— Não ouse me chamar pelo nome — ela sussurrou entredentes, com a voz trêmula dividindo-se entre o ódio genuíno e uma atração que ela tentava esconder a todo custo. — Você é apenas meu funcionário contratado. É bom lembrar disso.
Breno abaixou o olhar por uma fração de segundo, fixando os olhos na boca dela antes de erguer o rosto novamente e cravar os olhos nos dela. Um sorriso cínico, perigoso e quase imperceptível cruzou os lábios marcados.
— No papel, Sra. Alencar. Só no papel.
Ele virou as costas e saiu da sala, sem dar chance para ela responder, deixando Nala sozinha no escritório. Ela desabou com as mãos trêmulas apoiadas na superfície fria da mesa, respirando fundo na tentativa inútil de recuperar o ar e a compostura. Aquela convivência forçada com Breno estava virando a sua vida de cabeça para baixo, e ela precisava encontrar um jeito de manter o controle antes que ele percebesse o efeito que causava nela.
Aos meus leitores,Chegar até o final desta jornada é uma sensação inexplicável, daquelas que a gente guarda para sempre no peito. Quando comecei a escrever esta história, eu não sabia exatamente onde ela iria me levar ou como as coisas terminariam. Nala e Breno nasceram na minha mente como figuras distantes, cheias de armaduras, regras, segredos e uma necessidade profunda de controle. Mas, capítulo após capítulo, eles ganharam vida própria e se tornaram reais para mim. Eu vivi cada emoção bem pertinho deles: a intensidade das discussões na presidência, o silêncio pesado da cobertura nos Jardins, o peso das escolhas difíceis, a dor dos fantasmas do passado e, claro, a força de um amor que não cabe em moldes tradicionais e que venceu todas as barreiras.Quero agradecer de coração a cada um de vocês que tirou um tempinho do seu dia para mergulhar neste universo. Mesmo que, muitas vezes, vocês tenham ficado em silêncio — sem deixar comentários, sem mandar teorias mirabolantes ou aquela d
Dois anos depois. O heliponto privativo localizado no topo do prédio principal da Alencar Tech, bem no coração da Avenida Paulista, tremia com o vento forte gerado pelas pás de um helicóptero executivo de última geração. A aeronave acabara de pousar, vinda diretamente do aeroporto de Congonhas, trazendo passageiros muito especiais. As portas pesadas da cabine se abriram com um estalo seco, e a equipe de segurança da empresa, formada por profissionais de terno escuro e fones de ouvido discretos, formou um círculo de proteção em volta da área de desembarque para garantir que tudo ocorresse de maneira impecável. Mariana foi a primeira a sair do helicóptero, segurando firmemente a mão do pequeno Arthur, que agora tinha pouco mais de dois anos. O menino vestia roupas infantis de marca, simples e confortáveis, e olhava para os lados com os olhos brilhando de curiosidade, sem entender nada sobre o complexo esquema de inteligência que acompanhava cada um de seus movimentos. Toda aquela viage
A noite de São Paulo se estendia como um mar de diamantes elétricos sob a cobertura da zona sul, projetando fachadas de vidro e torres corporativas em um mosaico de luzes frias e calculadas. Através das imensas vidraças panorâmicas do trigésimo andar, as luzes dos arranha-céus desenhavam a silhueta da metrópole que Nala Alencar havia conquistado com a ponta de seus saltos agulha, a rigidez de suas decisões societárias e a frieza inabalável de seus códigos de cibersegurança. No entanto, dentro da suíte master, o ruído do mundo exterior — o trânsito da Avenida Paulista, as negociações de Zurique e as flutuações das bolsas internacionais — era completamente inexistente. O silêncio ali dentro era absoluto, denso e sofisticado, preenchido apenas pelo som discreto do ar-condicionado de alta precisão e pelo ritmo profundo e controlado da respiração de Breno, que observava a sua mulher do centro da imensa cama king-size. Nala estava de pé diante do vidro inteligente, vestindo apenas um robe d
O final da tarde de sexta-feira traz o ar abafado e característico da zona sul do Rio de Janeiro. Dentro do quarto de seu apartamento de classe média alta em Botafogo, Letícia mantém as cortinas semi-fechadas para bloquear a claridade intensa que reflete nas fachadas dos edifícios vizinhos. O ambiente está imerso em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo resmungo baixo do pequeno Arthur, que dorme enrolado em uma manta macia dentro do berço acrílico ao lado da cama de casal.Letícia está sentada na borda do colchão, o tablet corporativo que recebera do setor jurídico preso entre os seus dedos trêmulos. A tela brilha com a página principal do maior portal de economia e negócios do país. A manchete, que já circula há horas nas redes sociais e nos grupos de alta sociedade do Rio e de São Paulo, exibe uma fotografia de alta resolução tirada na Avenida Paulista: Nala Alencar, vestindo um terno marfim impecável, caminha ao lado de Breno, cuja silhueta massiva e olhar protetor completam a
Na manhã da quinta-feira subsequente, o ar no trigésimo andar da Alencar Tech operava sob uma pressão atmosférica que parecia prestes a estourar os vidros duplos da fachada. Os membros do conselho de administração, um grupo seleto de homens e mulheres cujas assinaturas movimentavam bilhões de dólares nos mercados de defesa, criptografia e inteligência artificial entre a América Latina e a Europa, já ocupavam as suas respectivas cadeiras de couro na imensa mesa de vidro temperado da sala de conferências principal. Rostos tensos, tablets corporativos exibindo flutuações nas bolsas de Nova York e Frankfurt, e murmúrios contidos desenhavam o cenário. Havia um rumor de que a Alencar Tech passaria por uma auditoria de risco severa devido aos últimos eventos pessoais envolvendo a segurança principal, e o mercado exigia respostas rápidas.A porta dupla de carvalho maciço abriu-se com um baque seco e imponente.Nala Alencar cruzou a soleira da sala com a altivez geométrica de uma monarca que n
O silêncio que se instalou no escritório da presidência da Alencar Tech após as palavras de Nala não era um vazio; era uma substância densa, quase palpável, que preenchia cada centímetro cúbico do mármore, do vidro e do couro que decoravam o topo da Avenida Paulista. A mão de Breno permaneceu congelada sobre o ventre de Nala. A musculatura de seu braço, visível sob o tecido tenso da camisa preta, contraiu-se até que as veias sob a pele calejada ficassem saltadas. Ele, o homem treinado para reagir a emboscadas em frações de segundo, o ex-militar cujo instinto de sobrevivência fora lapidado em cenários de guerra e alta inteligência corporativa, parecia ter esquecido como respirar.Os olhos escuros e profundos de Breno dilataram-se de forma avassaladora. Ele não desviou o olhar do rosto de Nala. Buscou em cada linha da expressão dela, na simetria impecável de suas feições e no brilho gélido, porém intensamente úmido, de suas pupilas, a confirmação de que aquilo não era um teste de segura







