LOGINDOIS MESES ATRÁS...
Seguro as lágrimas que insistem em cair enquanto olho para minha mãe deitada na cama, o rosto marcado pela dor e pelo cansaço. O quarto está silencioso, iluminado apenas pela luz fraca que entra pela janela e se espalha pelas paredes, deixando tudo com um aspecto ainda mais triste.
Há um copo de água sobre a mesinha de cabeceira da cama, alguns remédios ao lado e uma pequena caixa de lenços já quase vazia. O cheiro dos medicamentos se mistura ao perfume suave de mamãe, aquele cheiro que conheço desde que nasci e que, de alguma forma, sempre me fez sentir segura. Agora, porém, nem mesmo aquele cheiro consegue afastar o medo que aperta meu peito. Não é fácil ver a pessoa que você ama sofrendo. É ainda pior quando você sabe que não existe nada que possa fazer para simplesmente tirar aquela dor dela. Mamãe é a única que tenho como apoio neste momento, e não quero perdê-la.
Não consigo sequer imaginar minha vida sem ela. Minha irmãzinha e eu precisamos dela. Aurora só tem cinco anos. Ela ainda é pequena demais para entender por que mamãe passa tanto tempo deitada, por que precisa tomar tantos remédios ou por que algumas manhãs ela não consegue sequer sorrir.
Depois que descobri que ela tem câncer nos seis, estágio quatro, tranquei a matrícula na faculdade para poder cuidar dela, da minha irmã e conseguir um emprego. Foi uma das decisões mais difíceis que já tomei, porque eu tinha planos, sonhos e uma vida que estava começando a construir. Mas tudo isso parece pequeno quando comparado à possibilidade de perder minha mãe. Eu não posso me dar ao luxo de estudar, trabalhar e ainda cuidar dela e da minha irmã. A vida me ensinou, da maneira mais dolorosa possível, que existem momentos em que precisamos escolher nossas prioridades. E, neste momento, mamãe é a minha maior prioridade. O resto pode esperar. Minha faculdade pode esperar. Meus sonhos podem esperar. Ela, não.
— Pode ir tranquila, querida. Vou ficar bem. — Mamãe tenta me confortar, como sempre faz, mesmo sendo ela quem precisa de conforto. Sua voz está fraca, quase um sussurro, e percebo o esforço que faz para parecer mais forte do que realmente está. Quero acreditar nela. Deus, como eu queria acreditar. Mas sei que ela não ficará bem.
Ela nunca está bem. Existem dias melhores, é verdade, momentos em que a dor parece dar uma pequena trégua e ela consegue conversar, sorrir ou até brincar com Aurora. Contudo, a maioria dos dias são piores. Dias em que vejo minha mãe se contorcer de dor, fechar os olhos tentando suportar o sofrimento e fingir que está tudo bem apenas para que eu não desmorone junto com ela. E talvez seja isso que mais doa: saber que ela está sofrendo e ainda assim se preocupa comigo.
Eu precisava de alguém com ela hoje, porém, infelizmente não tenho dinheiro para pagar, é por isso que preciso conseguir algo logo.
Não posso simplesmente deixá-la sozinha, principalmente agora. Só de imaginar mamãe precisando de ajuda e não tendo ninguém por perto faz meu estômago se revirar. Deixá-la sozinha hoje para ir a uma entrevista de emprego não será nada confortável. Vou passar cada segundo pensando nela, imaginando se está sentindo dor, se precisa de alguma coisa, se conseguiu alcançar o telefone. Espero, pelo menos, conseguir o emprego. Preciso conseguir.
Essa foi a última opção. A última porta que encontrei aberta.
Tenho que conseguir.
Meu corpo não é ruim. Sei que sou bonita e, pela primeira vez, estou prestes a usar essa beleza para conseguir dinheiro. Não era o que eu estava procurando. Nunca imaginei que precisaria chegar a esse ponto, mas, neste momento, é tudo o que posso fazer: ser garçonete em um dos maiores clubes de strippers de Nova Iorque, o Queen off Hearts. Só o nome já me dá calafrios. Tento não pensar demais sobre o lugar, sobre as pessoas que provavelmente estarão lá ou sobre tudo o que pode acontecer. Espero que seja, ao menos, decente. Uma careta se forma em meus lábios.
Clubes de strippers nunca são decentes.
Merda! O que estou pensando? Realmente vou fazer isso?
Olho novamente para minha mãe deitada na cama. Observo cada detalhe do seu rosto, os olhos cansados, os cabelos espalhados pelo travesseiro e a expressão de quem tenta esconder uma dor que já se tornou parte da rotina. Sinto minha garganta fechar e as lágrimas ameaçarem cair novamente.
Sim.
Por ela, eu vou fazer.
É disso que preciso agora. Não importa o quanto eu tenha medo, o quanto aquilo me deixe desconfortável ou o quanto eu queira simplesmente fugir de tudo. Se for preciso engolir meu orgulho para colocar comida dentro de casa, pagar os remédios de mamãe e garantir que Aurora continue tendo um teto sobre a cabeça, então eu vou engolir. Se for preciso fazer algo que nunca imaginei fazer, eu farei.
Porque não estou fazendo isso por mim.
Estou fazendo por elas.
— Eu sei, mamãe, mas, mesmo assim, fico preocupada com a senhora — digo a ela, tentando manter a voz firme, embora meu coração esteja apertado.
Abaixo-me para ficar na sua altura e beijo sua testa. Minha boca toca sua pele quente, e sinto seu cheiro, aquele cheiro familiar que imediatamente me transporta para quando eu era criança e corria para os braços dela sempre que alguma coisa me assustava. Por um momento, fecho os olhos e apenas fico ali, respirando profundamente, tentando guardar aquela sensação dentro de mim. Como se pudesse congelar aquele instante e protegê-la para sempre. Como se, ao abraçá-la com força suficiente, pudesse impedir que o câncer a levasse de mim.
Quando abro os olhos, tento sorrir.
— Qualquer coisa, me liga, tá bom?
— Vai, garota. Boa sorte com a entrevista. E, pode deixar, que, se eu me sentir mal, eu ligo. — Ela diz, enxotando-me do quarto com um pequeno gesto da mão, como se quisesse deixar claro que não pretende me dar espaço para discutir ou ficar ali preocupada com ela.
Mamãe pode estar doente, porém, como ela mesma sempre diz: não está morta e sabe se impor quando precisa.
E, sinceramente, talvez seja exatamente isso que mais admiro nela. Mesmo com a doença roubando suas forças aos poucos, ela ainda encontra maneiras de erguer o queixo, manter a postura e me lembrar de que não precisa que eu a trate como alguém incapaz. É o jeito dela de dizer que ainda está aqui, que ainda é a minha mãe e que, apesar de tudo, continua sendo forte.
É claro que ela não faz a menor ideia do que realmente estou me candidatando. Para ela, estou indo a uma entrevista para trabalhar como administradora de um restaurante, já que consegui fazer um curso de Administração antes da faculdade. É uma explicação simples, aceitável e, principalmente, muito mais tranquila do que a verdade.
Se ela souber que vou ser garçonete em um clube de strippers?
CHARLOTTE MORETTIDamian não diz nada, apenas dá um passo para dentro da sala, e sua presença parece tornar tudo mais intenso de repente. Meu coração bate forte contra o peito, tão rápido que consigo sentir cada pulsação. Tento me levantar, mas ele está tão perto que continuo sentada, olhando para cima, sem entender o motivo de ele estar ali, muito menos por que aquela expressão séria no rosto dele está me deixando ainda mais nervosa.— Uma das exigências de Zane é não usar o celular enquanto trabalha, e isso serve para todos. Por isso, pedimos para que dê nosso contato para parentes e amigos próximos, caso alguma coisa aconteça. — Olho para ele sem entender onde ele quer chegar. Por alguns segundos, fico apenas encarando seu rosto, tentando acompanhar o raciocínio.Não uso o celular no serviço... Ah, não... Ah, não. Aperto minha bolsa com força, sentindo o aparelho dentro dela. Dei o número do clube para a enfermeira que cuida da minha mãe e para a vizinha. O pensamento atravessa min
DAMIAN BELLADONNAAssisto Charlotte sair do escritório. Seus passos são rápidos e um pouco desajeitados, como se ela estivesse ansiosa para se afastar dali o mais depressa possível. Um pequeno sorriso cruza meus lábios ao observá-la desaparecer pelo corredor. Ela realmente parece uma coelhinha assustada. A porta do escritório se fecha.— Você tem certeza de que quer trazê-la para o nosso mundo? — Zane pergunta, seu olhar firme preso em mim.Ele encosta as costas no encosto da cadeira e cruza os braços sobre o peito, mantendo aquela expressão séria que parece nunca abandonar.Suspendo uma sobrancelha para ele.— Você a trouxe para o nosso mundo no momento em que a contratou. Eu só vou mantê-la — digo, e ele meneia a cabeça de um lado para o outro, como se já esperasse essa resposta.Ele aponta para mim.— Você sabe que ela vai fugir, não sabe? — indaga, e eu simplesmente dou de ombros, sem me importar nem um pouco.Se Charlotte quiser correr, pode correr. No fim, eu sempre encontro o q
CHARLOTTE MORETTIHoras depois, tiro os saltos, colocando os pés para cima e mexendo os dedos, soltando um suspiro aliviado assim que sinto meus pés finalmente livres daquela tortura. Meus calcanhares doem e sinto uma ardência incômoda na sola dos pés depois de passar tantas horas em pé. Estou prestes a descansar a cabeça no encosto do sofá e finalmente fechar os olhos quando a porta se abre e Bella aparece.Ela olha em volta da sala até seus olhos se encontrarem com os meus. Um pequeno sorriso tenso cruza seus lábios, e imediatamente sinto algo estranho no ar.— Charlotte. — murmura meu nome.Meu corpo logo fica em alerta e me ergo do sofá, cambaleando um pouco com a sensação de tontura que me toma. Talvez seja pelo cansaço, talvez pelo susto, mas meu coração começa a bater mais rápido.— Aconteceu algo? — pergunto a ela, sentindo meu coração bater tão rápido que a sensação que tenho é de que ele vai sair pela boca.Penso imediatamente no que eu possa ter feito de errado mais cedo. E
CHARLOTTE MORETTI— “Should I Stay Or Should I Go?” — canto baixinho, saindo do quarto que divido com algumas meninas, pronta para passar o resto da minha noite servindo mesas.Movo meu corpo de um lado para o outro enquanto caminho até a área principal do clube, onde toda a mágica acontece. As luzes, a música alta e o movimento constante das pessoas já fazem parte da minha rotina. Cumprimento, dando um aceno, alguns colegas de trabalho e também o segurança que está designado para mim esta noite.Não vejo Damian desde o dia em que nos esbarramos no supermercado. Contudo, eu o sinto. Seu olhar em mim, me observando das sombras, como se estivesse sempre por perto, mesmo quando não consigo encontrá-lo. Não há como não sentir sua presença. É intensa, devastadora e, por mais que eu negue, a tensão entre nós dois só cresce ainda mais. E o pior é que ela é perceptível.Algumas meninas acham o máximo ele estar obcecado por mim, sempre por perto, me observando em silêncio. Já outras, como Gene
VIOLET BELLADONNAAssim que Damian sai do quarto, ergo meu corpo da cama. Uma careta de dor se forma em meus lábios no mesmo instante em que sinto cada músculo do meu corpo protestar contra o simples movimento. Meu corpo inteiro parece pesado, dolorido, como se cada parte dele lembrasse exatamente tudo o que aconteceu.Em meio à dor, ainda consigo sorrir um pouco ao olhar para a bagunça que tomou conta do quarto. Há algo estranhamente satisfatório em ver tudo daquele jeito, como se, de alguma forma, eu tivesse conseguido colocar para fora uma pequena parte de tudo o que estava preso dentro de mim. Todos aqueles sentimentos embolados na garganta, apertados como uma bola de pelo, finalmente encontraram uma saída. Não resolveu tudo, é claro. Mas ajudou.Em meio a todo o caos que me cerca, caminho devagar até o espelho do outro lado do quarto e paro diante dele, encarando meu próprio reflexo.Mordo o lábio ao me olhar. Sou eu. Ainda sou eu. Contudo, existe algo diferente naquela mulher di
DAMIAN BELLADONNAViolet fica ao meu lado. Ela pega um vaso de vidro leve e o joga no chão. O objeto se despedaça com um estrondo, os cacos se espalhando pelo quarto, e um grito escapa de seus lábios. Um grito horrível, carregado de dor, tristeza e, ao mesmo tempo, de uma espécie de libertação. É como se tudo aquilo que ela vinha segurando dentro de si há tanto tempo finalmente encontrasse uma saída.Juntos, destruímos o quarto. Minha irmã coloca tudo para fora, exatamente como precisava fazer naquele momento. Mesmo que mal consiga ficar de pé, mesmo que, às vezes, suas pernas fraquejem e eu veja a careta de dor surgir em seu rosto, ela não para. Um pico de adrenalina toma conta de seu corpo, fazendo com que ignore, por alguns instantes, os próprios limites. Então, ela destrói tudo o que encontra pela frente.Rasga os travesseiros com as próprias mãos, espalhando penas pelo chão, chuta a mesinha que está em um canto e derruba tudo o que encontra sobre ela. Os porta-retratos ela joga n







