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Capítulo 1

last update publish date: 2026-08-21 05:37:24

Rafael Juan Muniz

Eu ainda estava com terra nas mãos quando atravessei a abertura da cerca e entrei no meu quintal.

Camila vinha logo atrás de mim, pulando de um lado para o outro como se tivesse acabado de descobrir o maior segredo do mundo.

— Rafael! — ela chamou.

— O quê?

— Você acha que a gente vai lembrar da cápsula quando tiver vinte e cinco anos?

Olhei para ela.

— Claro.

— E se esquecer?

— Eu já falei que vou lembrar por nós dois.

Ela sorriu.

Aquele sorriso era uma das coisas que eu mais gostava nela.

Camila sorria com o rosto inteiro. Os olhos pequenos quase desapareciam e duas covinhas apareciam em suas bochechas.

— Então você não pode se esquecer de mim — ela disse.

— Não vou.

— Promete?

— Já prometi.

— Promete de novo.

Revirei os olhos.

— Você é muito insistente.

— Promete!

Suspirei.

— Prometo, Camila.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Agora sim.

Eu tinha doze anos e ela, sete.

Naquele momento, cinco anos pareciam uma eternidade.

Eu já sabia andar de bicicleta sem rodinhas, jogar futebol com os garotos da rua e subir na árvore do quintal sem precisar que meu pai ficasse gritando para eu tomar cuidado.

Camila ainda tinha medo de dormir sozinha quando faltava luz.

E, mesmo assim, era ela quem sempre conseguia me convencer a fazer as coisas mais absurdas.

Como enterrar uma caixa no quintal.

Como fugir pela abertura da cerca para tomar sorvete antes do jantar.

Como subir no telhado da garagem para procurar uma bola.

Ela era pequena.

Mas tinha coragem suficiente para nós dois.

— Minha mãe vai brigar porque estou toda suja — ela comentou, olhando para o próprio vestido.

— Diz que caiu.

— Ela vai perguntar onde.

— Fala que caiu no quintal.

— E se perguntar fazendo o quê?

Parei.

— Pensando.

Camila começou a rir.

— Ninguém cai pensando.

— Você pode cair.

— Eu não sou idiota.

— Às vezes é.

Ela me empurrou.

— Chato!

— Baixinha!

— Velho!

Parei de andar.

— Velho?

— Doze anos é velho.

— Você tem sete.

— E?

— Então eu sou quase um adulto.

Ela colocou as mãos na cintura.

— Você não é adulto.

— Sou quase.

— Não é.

— Sou.

— Então compra seu próprio sorvete.

Fiquei quieto.

Ela sabia exatamente onde me atingir.

— Isso foi golpe baixo.

Camila riu.

— Eu sei.

Entramos em nossas respectivas casas pouco depois.

Minha mãe estava na cozinha.

— Rafael!

Parei imediatamente.

Pela maneira como ela falou meu nome, sabia que tinha alguma coisa errada.

— Oi, mãe.

Ela olhou para minhas mãos.

Depois, para meu rosto.

Depois para minhas roupas sujas.

— O que você estava fazendo?

Olhei para minhas mãos.

— Jogando bola.

Minha mãe estreitou os olhos.

— Com terra?

— A bola caiu.

— Onde?

— No chão.

Ela suspirou.

— Vá tomar banho.

— Tá.

Eu estava quase subindo as escadas quando meu pai apareceu na porta da sala.

— Rafael, venha aqui um instante.

Olhei para ele.

Meu pai estava sério.

Não era uma expressão comum nele.

Meu pai era daqueles homens que chegavam em casa sorrindo, bagunçavam meu cabelo e perguntavam se eu tinha feito alguma coisa que minha mãe não queria saber.

Mas, naquele dia, ele não sorriu.

— Fiz alguma coisa de errado?

— Não.

— Então, o quê?

Ele olhou para minha mãe.

Ela também parecia preocupada.

Meu estômago apertou.

— Senta aqui.

Sentei no sofá.

Meu pai se sentou à minha frente.

— Recebi uma proposta de trabalho.

— E daí?

Ele respirou fundo.

— É uma proposta importante.

— Vai ganhar mais dinheiro?

Minha mãe soltou uma risada nervosa.

— Talvez.

— Então é bom.

Meu pai não respondeu.

Foi aí que percebi.

Alguma coisa estava errada.

— Onde é?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Vancouver.

Franzi a testa.

— Onde fica isso?

— No Canadá.

Fiquei olhando para ele.

— Canadá?

— Sim.

— É longe?

Minha mãe respondeu baixinho:

— Muito.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Você vai viajar?

Meu pai passou a mão pelo rosto.

— Ainda não sabemos.

— Como assim?

— A empresa quer que eu me mude para lá.

Senti um frio no estômago.

— Mudar?

Meu pai assentiu.

— Por alguns anos.

Fiquei de pé.

— Mas...

Minha voz falhou.

— E a gente?

— Nós iremos juntos.

Aquelas palavras deveriam ter me tranquilizado.

Não tranquilizaram.

Porque minha primeira preocupação não era a casa.

Não era a escola.

Não era o futebol.

Era a cerca.

A abertura.

O quintal.

Camila.

— Não.

Meu pai franziu a testa.

— Não, o quê?

— Eu não posso ir.

— Rafael...

— Eu não posso ir para o Canadá. Pai, meus amigos estão aqui, a Mila está aqui.

— Filho, escuta...

— Eu tenho que ficar aqui.

Minha mãe levantou.

— Por quê?

Olhei para ela como se fosse óbvio.

— A Camila, ela não sabe se cuidar sozinha.

O silêncio que veio depois foi estranho.

Meu pai trocou um olhar com minha mãe.

— Rafael, a Camila vai continuar aqui.

— Eu sei.

— Então?

— Eu não posso deixá-la.

Minha mãe se aproximou.

— Você não está deixando ninguém.

— Estou!

Minha voz saiu mais alta.

— Acabei de prometer uma coisa para ela.

Meu pai se abaixou na minha frente.

— Que coisa?

Não respondi.

Não podia contar.

Era nosso segredo.

— É importante.

Ele respirou fundo.

— Filho, ainda não decidimos nada.

— Então não decide.

Meu pai ficou em silêncio.

— Por favor.

Foi a primeira vez que pedi algo daquele jeito.

Sem birra.

Sem discussão.

Só medo.

Minha mãe se sentou ao meu lado e segurou minha mão.

— Rafael, nós vamos conversar com os pais da Camila.

— Eles não podem deixá-la ir.

— Ninguém está falando em levar a Camila.

— Então eu também não vou.

Meu pai me encarou.

— Você não entende o tamanho dessa oportunidade.

— Eu entendo. Não sou mais tão criança.

— É um trabalho que pode mudar nossa vida.

— E se mudar a minha vida para pior?

Ele ficou sem resposta.

Eu olhei para o chão.

Ainda havia um pouco de terra presa na sola do meu tênis.

A mesma terra que escondia a nossa cápsula do tempo.

Nossa promessa estava enterrada ali.

E, pela primeira vez, tive medo de que a distância fosse capaz de desenterrá-la.

— Pai...

— O quê?

— Quanto tempo?

Ele hesitou.

— Talvez três anos. Talvez, mas não sei ao certo.

Três anos.

Para um adulto, talvez fosse pouco.

Para mim, três anos pareciam uma vida inteira.

— Eu não quero ir.

Minha mãe apertou minha mão.

— Nós sabemos.

— Eu quero ficar aqui.

Meu pai suspirou.

— Eu sei.

Olhei para ele.

— Então diga não.

Ele abaixou os olhos.

E, naquele instante, entendi que talvez aquela não fosse uma decisão que ele pudesse simplesmente recusar.

Levantei do sofá.

— Preciso falar com a Camila.

— Agora?

— Agora.

— Rafael, está ficando tarde.

— Eu preciso falar com ela.

Subi correndo as escadas.

Troquei de camiseta e desci antes que meus pais pudessem me impedir.

Quando cheguei à porta, minha mãe segurou meu braço.

— Não conte nada para ela ainda.

— Por quê?

— Porque ainda não está decidido.

— Mas...

— Promete?

Olhei para minha mãe.

Depois, para meu pai.

— Prometo.

Saí.

Atravessei o pequeno caminho até a cerca.

A abertura entre nossas casas estava exatamente como sempre.

Passei por ela.

O quintal de Camila estava vazio.

Olhei para a janela do quarto dela.

A luz estava acesa.

Bati três vezes na janela.

Ela apareceu segundos depois.

— Rafael?

Abriu a janela.

— O que você está fazendo aqui?

Eu não consegui responder.

Camila percebeu que havia alguma coisa errada.

— O que aconteceu?

Olhei para ela.

Minha melhor amiga.

A menina para quem eu tinha acabado de prometer que nunca esqueceria.

E, pela primeira vez na vida, não sabia como protegê-la.

— Camila...

— O quê?

Engoli em seco.

— Meu pai recebeu uma proposta de trabalho.

Ela sorriu.

— Legal.

— No Canadá.

O sorriso desapareceu.

— Canadá, onde fica isso?

Assenti.

— Longe, bem longe. Num lugar chamado Vancouver.

Ela ficou me olhando.

— E vocês vão?

Não consegui mentir.

— Talvez.

Camila fechou a janela devagar.

Depois abriu novamente.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Mas você prometeu.

Senti meu peito apertar.

— Eu sei.

— Você prometeu que não ia me esquecer.

— E não vou.

— Então não vai embora.

Eu me aproximei da janela.

— Eu vou tentar.

Ela balançou a cabeça.

— Não quero que tente.

— Camila...

— Quero que fique.

Eu não tinha uma resposta.

Então fiz a única coisa que sabia fazer.

Estendi minha mão pela janela.

Ela segurou.

— Eu vou voltar — prometi.

Camila apertou meus dedos.

— Quando?

— Não sei.

— Então promete.

— O quê?

Ela respirou fundo.

— Promete que, não importa quanto tempo passe, você vai voltar para mim.

Olhei para ela.

E, naquele momento, fiz uma promessa muito maior do que a que havíamos enterrado naquela tarde.

— Eu prometo.

Ela apertou minha mão.

— Então eu vou esperar.

Eu não sabia naquela época que Vancouver ficaria do outro lado do mundo.

Não sabia quantas coisas poderiam mudar em três anos.

Não sabia que crescer significava deixar algumas pessoas para trás.

Mas uma coisa eu sabia.

Eu tinha enterrado uma cápsula do tempo naquele quintal.

E dentro dela estava uma promessa.

Eu voltaria para Camila.

Custasse o que custasse. Pelo menos era isso que pensava naquele momento, só não imaginava o tanto que minha vida iria mudar em outro país.

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