LOGIN
Desde que me entendo por gente, minha vida é unida à do Rafael Muniz. Quando nasci, ele já estava lá para me proteger.
Essa era a história que nossos pais nos contavam sempre que podiam.
Nossas mães eram amigas desde o colegial, e nossos pais se tornaram amigos assim que seus respectivos relacionamentos começaram a ficar mais fortes.
Rafael e eu somos inseparáveis, mesmo sendo cinco anos mais nova que ele.
Nossas casas eram lado a lado, e no meu quintal havia uma abertura na cerca que dava diretamente para o quintal da casa dele.
Era a nossa passagem secreta.
Pelo menos, era assim que chamávamos.
Eu tinha sete anos quando decidimos que precisávamos fazer algo importante.
Algo que durasse para sempre.
Naquela tarde, eu estava sentada no gramado do meu quintal, tentando desenhar uma casa que parecia muito mais um quadrado torto, quando ouvi três batidas na madeira da cerca.
Olhei para o outro lado.
Rafael estava ali.
— Mila!
— O quê?
— Vem aqui.
— Por quê?
Ele colocou o dedo sobre os lábios.
— É segredo.
Revirei os olhos.
Rafael sempre dizia que era segredo quando queria me fazer obedecer.
Levantei e atravessei a pequena abertura na cerca.
— Pronto. Agora fala.
Ele estava segurando uma caixa de sapatos.
Meu interesse aumentou imediatamente.
— O que tem aí?
— Coisas importantes.
— Tipo?
— Coisas que ninguém pode mexer.
Apontei para a caixa.
— Posso ver?
— Você é muito curiosa.
— E você é muito chato.
Ele riu.
— Por isso a gente se dá bem.
Sentei ao lado dele.
Rafael abriu a caixa e tirou alguns objetos.
Um carrinho vermelho.
Uma fotografia nossa.
Uma pulseirinha de miçangas que eu havia feito para ele.
Um papel dobrado.
E duas canetas.
Franzi a testa.
— Para que isso?
— Vamos fazer uma cápsula do tempo.
— O que é isso?
Ele me encarou como se eu tivesse acabado de perguntar o que era o céu.
— Você não sabe?
Balancei a cabeça.
— Não.
— É uma coisa que a gente guarda hoje para abrir quando for grande.
Meus olhos brilharam.
— Quando formos adultos?
— Isso.
— E vamos lembrar de tudo?
— Se a gente colocar coisas importantes, sim.
Peguei a fotografia.
Era uma foto antiga. Eu estava com dois dentes faltando e Rafael tinha uma expressão séria que não combinava nem um pouco com ele.
— Eu estou feia.
— Você sempre foi feia.
Abri a boca, indignada.
— Rafael!
Ele gargalhou.
— Estou brincando!
Dei um tapa no braço dele.
— Você é um idiota.
— E você é baixinha.
— Eu vou crescer.
— Não vai.
— Vou sim!
— Não vai alcançar nem a maçaneta.
Cruzei os braços.
— Quando eu crescer, vou ficar mais alta que você.
Ele ficou pensativo por alguns segundos.
— Impossível.
— Por quê?
— Porque eu vou continuar crescendo também.
— Então eu vou casar com um homem mais alto que você.
Rafael fez uma careta.
— Não.
— Não, o quê?
— Você não vai casar.
— Vou sim.
— Não vai.
— Quem decide sou eu.
Ele puxou a caixa para perto.
— Então eu vou colocar uma regra na cápsula.
— Que regra?
— Que você nunca pode casar.
Fiquei olhando para ele.
— Você não manda em mim.
— Mando sim.
— Não manda!
— Mando porque sou mais velho e ponto.
— Só cinco anos!
— Cinco anos é muita coisa.
— Não é!
Ele sorriu.
— É sim.
Peguei uma das canetas.
— Então eu também vou colocar uma regra.
— Qual?
Escrevi no papel com a letra torta de uma criança de oito anos.
Rafael se inclinou para olhar.
— O que você escreveu?
— Que você nunca pode se esquecer de mim.
O sorriso dele desapareceu por um instante.
Ele pegou a caneta da minha mão.
— Eu nunca vou esquecer você.
— Promete?
— Prometo.
— Mesmo quando crescer?
— Mesmo quando crescer.
— Mesmo quando tiver namorada?
Ele fez uma careta.
— Não vou ter namorada.
— Todo homem tem namorada.
— Eu não.
— Por quê?
Ele deu de ombros.
— Porque você já me dá trabalho suficiente.
Ri.
Depois, ele pegou outro pedaço de papel.
— Agora escreve outra coisa.
— O quê?
— O que você quer ser quando crescer?
Pensei por alguns segundos.
— Quero ser feliz.
Rafael ficou quieto.
— Só isso?
— É.
— Não quer ser rica?
— Não.
— Famosa?
— Também não.
— Ter uma casa enorme?
— Talvez.
Ele sorriu.
— Então eu vou escrever que quero construir uma casa enorme.
— Para quê?
— Para você morar perto de mim.
Meu coração infantil bateu mais forte, embora eu não soubesse explicar por quê.
— E se eu quiser morar longe?
Rafael pensou.
— Então eu vou construir duas casas.
— Uma para você e uma para mim?
— Não.
— Então?
Ele apontou para mim.
— Uma para nós dois.
Fiquei vermelha.
— Isso não pode.
— Por quê?
— Porque meninos e meninas não moram juntos.
Ele riu.
— Você inventa cada coisa.
— Minha mãe falou!
— Então sua mãe está errada.
— Não está!
Começamos a discutir, como fazíamos quase todos os dias.
Até que ouvimos nossas mães chamando nossos nomes.
— CAMILA!
— RAFAEL!
Nós nos entreolhamos.
— Vamos esconder.
— A cápsula?
— É.
Corremos para o meu quintal.
Rafael pegou uma pequena pá que havia trazido escondida.
— Onde?
Olhei ao redor.
— Aqui.
Apontei para perto da árvore que meu pai havia plantado quando eu nasci.
Rafael começou a cavar.
Eu me ajoelhei ao lado dele, tirando a terra com as mãos.
Quando o buraco ficou fundo o suficiente, colocamos a caixa dentro.
Antes de cobri-la, Rafael segurou meu pulso.
— Espera.
— O quê?
Ele tirou a pulseirinha de miçangas que estava dentro da caixa.
— Essa não.
— Por quê?
— Porque essa você fez para mim.
— E daí?
Ele colocou a pulseira de volta na caixa.
— Quero guardar.
Sorri.
— Então coloca uma coisa sua também.
Ele tirou uma pequena moeda do bolso.
— Essa é do meu pai.
— Você tem certeza?
— Tenho.
Ele colocou a moeda dentro.
Depois olhou para mim.
— Agora você.
Pensei e tirei do cabelo uma presilha rosa.
— Isso.
— Você gosta dela.
— Gosto.
— Então não coloca.
— Quero colocar.
— Por quê?
Apertei a presilha entre os dedos.
— Porque, quando eu for adulta, quero abrir essa caixa e lembrar da menina que eu era.
Rafael sorriu.
— Então eu vou lembrar você.
Fechamos a caixa.
Antes de cobri-la completamente, Rafael segurou minha mão.
— Camila?
— O quê?
— Se um dia você esquecer de mim…
— Eu não vou.
— Mas se esquecer…
Ele respirou fundo.
— Eu vou lembrar por nós dois.
Meu sorriso desapareceu.
— Eu nunca vou esquecer você, Rafael.
Ele apertou minha mão.
— Promete?
— Prometo.
Cobrimos a caixa com terra.
Depois pisamos em cima para esconder qualquer sinal.
Rafael bateu as mãos para tirar a sujeira.
— Pronto.
Olhei para o lugar.
— Quando vamos abrir?
— Quando formos adultos.
— Quantos anos?
Ele pensou.
— Vinte e cinco.
— Nossa! Isso é muito velho!
Ele gargalhou.
— É.
— Quando eu tiver vinte e cinco — parei, contando nos dedos, e concluí — você vai ter trinta.
— Exatamente.
— Você vai estar muito velho.
— E você vai continuar baixinha.
— Eu vou crescer!
— Vamos descobrir.
Fiz uma careta para ele.
— Quando abrirmos, vou estar mais alta que você.
Rafael estendeu a mão.
— Fechado.
Apertei a mão dele.
— Fechado.
Depois ele me puxou pela mão e atravessamos a abertura da cerca.
Naquele dia, enterramos uma caixa cheia de pequenas coisas.
Uma fotografia.
Uma pulseira.
Uma moeda.
Uma presilha.
Nossos sonhos escritos em pedaços de papel.
E duas promessas infantis que pareciam impossíveis de quebrar.
Eu só não sabia que algumas promessas feitas na infância não desaparecem quando crescemos.
Algumas esperam.
Escondidas debaixo da terra.
Esperando o momento certo para voltar à superfície.
E, muitos anos depois, quando aquela caixa fosse finalmente aberta, eu descobriria se Rafael Muniz jamais havia esquecido a promessa que fizemos naquele dia.
Nem a mim.
Rafael JuanTenho que provar para Camila que ela é e sempre foi a mulher da minha vida. Não quero perder mais nenhum segundo longe da minha família.Vou para a faculdade, pois tenho algumas aulas para ministrar, mas minha cabeça insiste em permanecer em casa, com minha esposa e nossa pequena princesa.Durante a aula, tento me concentrar nos projetos dos alunos, mas é impossível não me lembrar da maneira como Camila sorriu quando nossa filha se mexeu em sua barriga. Aquele sorriso espontâneo, tão bonito, tão genuíno, fez meu coração apertar.Por muito tempo, acreditei que poderia separar as coisas. Minha vida profissional de um lado, meus relacionamentos de outro, como se eu pudesse organizar meus sentimentos em compartimentos e escolher quando cada um deles merecia minha atenção.Que idiota eu fui!Camila nunca foi apenas uma obrigação contratual. Mesmo quando eu ainda não sabia que Mariah era minha esposa, alguma coisa nela me atraía de uma maneira que eu não conseguia explicar. Eu p
Camila MariahSinto meu estômago se contorcer ao encarar Sophie na mesma loja em que estamos. Rafael vai até ela, e os dois trocam algumas palavras que não consigo ouvir.Desvio o olhar, mas não consigo impedir que as lembranças invadam minha mente.É impressionante como a presença daquela mulher consegue despertar sentimentos que eu gostaria de deixar para trás. Sei que meus hormônios estão uma bagunça, mas não é apenas isso. É a lembrança de que, enquanto eu me guardava para Rafael, acreditando que um dia voltaríamos a ser aquelas duas crianças que prometiam nunca se abandonar, era na cama dela que ele estava.Mesmo casado comigo.Mesmo sabendo que existia uma mulher do outro lado do mundo que ainda guardava pedaços dele no coração.Respiro fundo, tentando afastar a tristeza, mas sinto meus olhos arderem.Então, duas mãos delicadas seguram meus braços.— Amiga, você não precisa passar por isso. Vem, vamos falar com os decoradores e dar nosso toque no design do quarto do meu afilhado
SophieEstou no shopping com Melina, comprando o enxoval do bebê dela, e começo a me perguntar em que momento da minha vida me tornei responsável por financiar uma criança que nem é minha.Inferno!Já gastei uma pequena fortuna.E Melina parece não ter a menor intenção de parar.— Sophie, olha esse bercinho! — ela exclama, apontando para um modelo branco com detalhes delicados. — Não é perfeito?Olho para o preço.Meu estômago se contrai.— Melina, você realmente precisa desse?Ela me encara, indignada.— Sophie, é o berço do meu filho!Respiro fundo.Claro que é.O filho dela.O menino que estou usando para sustentar a maior mentira da minha vida.— Tudo bem — respondo, pegando o cartão da bolsa. — Vamos levar.Melina sorri e chama a vendedora.Enquanto ela conversa sobre medidas, tecidos e prazos de entrega, observo as sacolas acumuladas ao lado do balcão.Cada uma representa uma pequena fortuna.Cada uma me lembra o quanto estou investindo para manter Juan ao meu lado.E, ainda ass
Rafael JuanSinto algo diferente em mim desde que descobri o sexo da minha filha.É uma sensação que não consigo explicar.Uma menina.Minha princesa.Minha filha.Tenho certeza de que será uma mini Camila.Tão linda quanto Camila era quando pequena.E, talvez por isso, depois que todos foram dormir, eu tenha ficado algum tempo sentado na beira da cama, olhando para o vazio.Levanto e caminho até a mesinha de cabeceira.Abro a gaveta.Entre alguns documentos antigos e coisas que quase nunca uso, encontro aquilo que procurava sem admitir que estava procurando.Uma fotografia.Pego o retrato.Somos nós dois.Crianças.Camila está abraçada a mim como se a vida dela dependesse disso.E talvez dependesse.Por muito tempo, eu fui o porto seguro daquela menina.O garoto que ela procurava quando tinha medo.O menino que prometia que nunca iria embora.E eu fui exatamente o contrário daquilo que prometi.Fugi.Cresci.Mudei de nome.Fingi esquecer.Fingi que Camila era apenas uma lembrança dis
Camila MariahSinto uma paz dentro de mim quando finalmente conto ao Rafa que estamos esperando uma menina.Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não veja apenas culpa nos olhos dele.Vejo felicidade.Vejo emoção.Vejo sinceridade.E isso me assusta um pouco.Porque uma parte do meu coração ainda quer acreditar nele.Naquela noite, durmo melhor do que dormi nos últimos meses.Acordo no dia seguinte com o coração mais leve.Não completamente tranquilo.Mas leve.Visto uma roupa confortável e desço para a sala de jantar.Quando entro, encontro meus sogros e Vó Tereza à mesa.Menos Rafael.Meu coração dá uma pequena apertada.É ridículo.Depois de tudo, ainda espero por ele.— Bom dia — cumprimento.— Bom dia, querida — tia Laura responde, sorrindo.Dou um beijo no rosto dela e depois cumprimento Vó Tereza e tio Álvaro.Sento no meu lugar e começo meu café da manhã.Tento não olhar para a cadeira vazia à minha frente.Tento.Mas é impossível não perceber.Será que ele saiu?
Camila MariahMinha sogra é meio louca.Não tenho outra definição.Estou rindo há horas desde que ela entrou no quarto e começou a fazer um verdadeiro interrogatório sobre a minha consulta.Quando finalmente contei que seria uma menina, Laura chorou tanto que Vó Tereza precisou entregar um lenço para ela.Depois chorou junto.Claire, claro, começou a chorar porque as duas estavam chorando.E eu?Chorei de emoção no início, mas depois simplesmente comecei a rir.Talvez porque, depois de tantos meses de lágrimas, finalmente tivéssemos um motivo para derramar lágrimas de felicidade.Pouco depois, Clara chegou carregando uma garrafa de vinho rosé e uma jarra de suco de uva.Eu olhei para ela sem entender.— Quem pediu isso?Ela sorriu.— Sua sogra.Laura levantou a mão.— Eu!— Para quê?— Para comemorarmos.Ela fez uma pausa dramática.— Afinal, temos uma princesa chegando.Foi assim que começamos nossa pequena comemoração.Sem Rafael.Sem preocupações.Sem Sophie.Apenas nós quatro.Eu,







