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Capítulo 2

last update Data de publicação: 2026-08-21 05:38:29

Rafael Juan Muniz

Rafael Muniz

Os dias seguintes passaram como um borrão.

Eu acordava e encontrava caixas espalhadas pela casa.

Caixas na sala.

Caixas no corredor.

Caixas no meu quarto.

Caixas até onde eu não sabia que existia espaço para colocar caixas.

Meus pais encaixotavam roupas, livros, brinquedos, documentos e tudo aquilo que acreditavam ser necessário para começar uma vida nova do outro lado do continente.

Eu, sinceramente, não queria começar vida nenhuma.

Queria continuar com a minha.

Aquela em que eu acordava de manhã, atravessava a abertura da cerca e encontrava Camila no quintal.

Aquela em que nossas mães gritavam nossos nomes porque estávamos demorando para almoçar.

Aquela em que meu pai me levava para jogar bola e o pai de Camila aparecia depois, dizendo que nós dois precisávamos aprender a perder.

Eu não queria Vancouver.

Não queria neve.

Não queria uma escola nova.

Não queria uma casa nova.

Não queria amigos novos.

Eu queria Camila.

E, quanto mais o dia da partida se aproximava, mais difícil ficava fingir que estava tudo bem.

Minha avó, Dona Tereza, veio nos ajudar alguns dias antes da viagem.

Ela apareceu logo cedo, carregando uma bolsa enorme e usando aquele vestido florido que parecia ser o uniforme oficial dela para qualquer situação.

— Saiam da frente! — anunciou ao entrar. — Dona Tereza chegou para salvar essa família da desorganização.

Meu pai riu.

— Mãe, estamos organizados.

Ela olhou ao redor.

Havia uma pilha de caixas no meio da sala.

— Claro. E eu sou uma bailarina profissional.

Minha mãe começou a rir.

Eu também teria rido se não estivesse sentado no chão olhando para uma fotografia.

Era uma foto minha com Camila.

Nós dois estávamos cobertos de lama.

Eu segurava uma bola e ela fazia uma careta.

Minha avó percebeu.

Ela não disse nada.

Apenas sentou ao meu lado.

— Saudade?

Dei de ombros.

— Ainda nem fui embora.

Ela passou a mão pelo meu cabelo.

— Às vezes a saudade começa antes da distância.

Olhei para ela.

— Eu não quero ir.

Minha avó ficou em silêncio.

Ela era assim.

Nunca tentava diminuir o que eu sentia.

Nunca dizia que eu precisava ser forte.

Apenas escutava.

— Eu sei.

— Então por que todo mundo está feliz?

— Porque seus pais acreditam que isso será bom para vocês.

— Mas não é bom para mim.

Ela suspirou.

— Talvez não seja agora.

— Nunca vai ser.

Minha avó me olhou com aqueles olhos atentos.

— É da Camila que você está falando?

Baixei a cabeça.

— Ela é minha melhor amiga.

— Eu sei.

— Eu prometi que não esqueceria dela.

— E não vai.

— Mas e se ela me esquecer?

Minha avó sorriu.

— Uma menina que cresceu praticamente dentro da sua casa não vai esquecer você porque atravessou algumas milhares de quilômetros.

— Você não sabe.

— Sei mais do que você imagina.

Fiquei olhando para ela.

— Vovó...

— Hum?

— Eu posso ficar?

Ela respirou fundo.

— Se dependesse de mim, você ficaria.

Meu coração se encheu de esperança.

— Então...

— Mas não depende de mim, meu amor.

A esperança morreu tão rápido quanto apareceu.

Ela segurou meu rosto.

— Você precisa ir com seus pais.

— Eu não quero.

— Eu sei.

— E se eu fugir?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Para onde você iria?

— Para a casa da Camila.

— E depois?

Não respondi.

— Rafael, você ainda é uma criança.

— Não sou.

— É sim.

Fiz uma careta.

— Tenho treze anos.

— Exatamente.

Ela beijou minha testa.

— Você não precisa gostar dessa mudança. Só precisa atravessá-la.

Eu queria acreditar nela.

Mas não conseguia.

Naquela noite, atravessei a abertura da cerca.

Camila estava sentada no balanço.

Ela me viu e abriu um sorriso triste.

— Você veio.

— Sempre venho.

Sentei no balanço ao lado dela.

Durante alguns minutos, nenhum de nós falou.

Até que ela perguntou:

— Quantos dias faltam?

— Dois.

Ela apertou os lábios.

— Eu odeio essa palavra.

— Qual?

— Dois.

— Por quê?

— Porque significa que você vai embora.

Olhei para ela.

— Eu vou voltar.

— Você sempre fala isso.

— Porque é verdade.

— E se você fizer amigos lá?

— Vou fazer.

Ela abaixou os olhos.

— E se gostar mais deles?

Meu peito apertou.

— Camila, ninguém vai substituir você.

Ela não respondeu.

— Ei.

Ela olhou para mim.

— Você é minha melhor amiga.

— Para sempre?

— Para sempre.

Ela estendeu o dedo mínimo.

— Promete?

Enganchei meu dedo no dela.

— Prometo.

— Então eu também prometo.

Ficamos ali até nossas mães nos chamarem.

Naquela noite, antes de voltar para casa, Camila me abraçou.

Foi um abraço apertado.

Longo.

Diferente de todos os outros.

— Não esquece de mim — ela sussurrou.

Fechei os olhos.

— Nunca.

O dia chegou.

Rápido demais.

Eu queria que o relógio parasse.

Mas ele continuou.

A casa estava quase vazia.

As caixas haviam desaparecido.

As paredes pareciam maiores sem nossos móveis.

Minha mãe conferia documentos pela décima vez.

Meu pai verificava as malas.

Minha avó chorava escondido.

Eu sabia.

Ela achava que eu não percebia, mas percebia.

Então ouvimos uma batida na porta.

Meu coração acelerou.

Eu sabia quem era.

Corri.

Camila estava do outro lado.

Ela usava um casaco rosa e segurava alguma coisa nas mãos.

— Oi — ela disse.

— Oi.

Ela me entregou um pequeno envelope.

— É para você abrir quando estiver no Canadá.

Peguei.

— O que tem aqui?

— Você só pode abrir quando estiver no avião.

— Por quê?

— Porque eu mandei.

Sorri.

— Você é mandona.

— Aprendi com você.

Minha mãe chamou:

— Rafael, precisamos ir!

Meu coração afundou.

Olhei para Camila.

Ela também estava chorando.

— Eu não quero ir.

Ela balançou a cabeça.

— Eu também não quero que você vá.

Não pensei.

Apenas a abracei.

Meus braços envolveram seu pequeno corpo e eu a apertei como se pudesse impedir o tempo de passar.

Como se, segurando-a com força suficiente, meus pais fossem desistir.

Como se o avião fosse esquecer de partir.

Como se o mundo pudesse parar só porque duas crianças não queriam se separar.

— Não vai — ela chorou.

— Eu queria ficar.

— Então fica.

— Eu não posso.

— Por quê?

— Porque eu prometi para minha mãe.

Ela soluçou.

— Eu queria que você prometesse para mim.

Fechei os olhos.

— Eu prometo que vou voltar.

Ela apertou minha camisa.

— Quando?

— Não sei.

— Então eu vou esperar.

— Espera.

Ela levantou o rosto.

— Eu vou.

Toquei minha testa na dela.

— E não esquece de mim.

— Nunca.

Meu pai apareceu na porta.

— Rafael...

Não queria soltá-la.

Minha mãe chamou novamente.

Eu finalmente me afastei.

Camila segurou minha mão até o último segundo.

Quando precisei ir, ela soltou meus dedos devagar.

Entrei no carro.

Ela ficou parada na calçada.

Pequena.

Sozinha.

Acenando.

Eu coloquei a mão no vidro.

Ela fez o mesmo.

O carro começou a andar.

Eu continuei olhando para trás.

Até que a casa desapareceu.

Até que o quintal desapareceu.

Até que Camila desapareceu.

E foi naquele momento que percebi que estava indo embora com uma parte de mim.

Poucas horas depois, eu estava sentado dentro de um avião.

Um avião de verdade.

Rumo ao Canadá.

Rumo a Vancouver.

Rumo a uma vida que eu não havia escolhido.

Minha mãe dormia ao meu lado.

Meu pai lia alguma coisa.

Eu fiquei olhando pela janela.

As nuvens pareciam enormes.

Peguei o envelope que Camila havia me dado.

Abri.

Dentro havia uma fotografia.

Era uma foto nossa.

No verso, ela havia escrito com sua letra infantil:

"Rafael, quando você sentir saudade, olha para essa foto. Eu vou estar esperando você voltar."

Senti meus olhos arderem.

Passei o dedo pelas palavras.

Então encostei a cabeça no banco.

— Eu vou voltar, Camila.

Sussurrei tão baixo que ninguém ouviu.

Mas eu ouvi.

E, naquele momento, fiz uma promessa para mim mesmo.

Eu poderia conhecer outro país.

Outra escola.

Outras pessoas.

Poderia crescer.

Poderia mudar.

Mas jamais esqueceria aquela menina.

Porque antes mesmo de saber o que era amor, eu já sabia que não queria viver em um mundo onde Camila não estivesse.

Fechei os olhos.

O avião continuou avançando pelo céu.

E, enquanto o Brasil ficava cada vez mais distante, eu não fazia ideia de que aquele adeus seria apenas o começo.

Porque algumas pessoas entram na nossa vida tão cedo que acabam se tornando parte daquilo que somos.

E Camila Souza já era parte de mim.

Mesmo a milhares de quilômetros de distância.

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