Se connecterTrês anos depois...
Hoje deveria ser um dia feliz.
Afinal, era aniversário do Rafael.
Treze anos.
Não.
Eu fiz as contas novamente.
Dezenove.
Rafael estava completando dezesseis anos, entrando quase na fase adulta.
Eu tinha apenas onze.
E, apesar de parecer absurdo, ainda conseguia me lembrar perfeitamente do menino de treze anos que segurou minha mão antes de entrar naquele avião e prometeu que voltaria depois de três anos.
Três anos.
Essa era a promessa.
Eu tinha contado os dias.
Os meses.
Os aniversários.
Até os finais de semana.
Durante muito tempo, achei que o calendário estava trabalhando a meu favor.
Só que eu estava errada.
Porque três anos passaram.
E Rafael não voltou.
A proposta feita ao pai dele tinha ido muito além do que qualquer um imaginava.
Meu pai descobriu que o tio Ricardo estava se destacando cada vez mais como arquiteto no Canadá. O projeto que o levará para lá tinha aberto portas, e novas oportunidades começaram a surgir.
Quando percebi, a família Muniz já não falava mais em voltar.
Falava em ficar.
Tia Laura também havia conseguido construir uma vida por lá.
Ela se destacou como fisioterapeuta, conseguiu reconhecimento profissional e, depois de muito trabalho, abriu o próprio consultório.
Eu deveria estar feliz por eles.
E estava.
De verdade.
Meus pais estavam felizes.
Vó Tereza dizia que o filho estava prosperando.
Todo mundo parecia ter encontrado um novo lugar no mundo.
Todo mundo, menos eu.
Eu ainda tinha o meu.
Aqui.
No meu quarto.
No meu quintal.
Naquela abertura na cerca.
E, principalmente, no lugar onde enterramos nossa cápsula do tempo.
Às vezes eu ia até lá sozinha.
Sentava-se debaixo da árvore e ficava olhando para a terra.
A caixa ainda estava lá.
Eu sabia.
Nunca havíamos aberto.
Nunca tivemos coragem.
A promessa era esperar até os vinte e cinco anos.
Mas, naquele momento, eu já começava a desconfiar que talvez nem chegássemos juntos aos vinte e cinco.
Peguei o celular.
Olhei para a tela.
O nome dele ainda estava salvo exatamente como sempre.
Rafael
Meu dedo pairou sobre o botão de ligação.
Eu já sabia o que aconteceria.
Mesmo assim, apertei.
Chamando...
Chamando...
Chamando...
Nada.
A ligação caiu na caixa postal.
Fechei os olhos.
— Feliz aniversário, idiota — murmurei.
Minha voz saiu baixa.
Eu não sabia mais se estava falando com ele ou comigo mesma.
Olhei para a fotografia que estava sobre minha escrivaninha.
Era a mesma que ele havia recebido dentro daquele envelope.
Só que eu tinha outra cópia.
Nós dois aparecíamos nela, sujos de terra, sorrindo para a câmera.
Éramos crianças.
Éramos melhores amigos.
Éramos inseparáveis.
Ou, pelo menos, eu acreditava que seríamos para sempre.
A primeira vez que Rafael deixou de ligar, eu achei normal.
Ele estava ocupado.
Escola nova.
Amigos novos.
Fuso horário.
A vida no Canadá.
Eu entendia.
Na segunda vez, fiquei preocupada.
Na terceira, comecei a mandar mensagens.
"Oi, você está bem?"
"Quando puder, me liga."
"Hoje foi meu aniversário."
"Você esqueceu?"
Ele respondeu algumas vezes.
Poucas.
Mensagens curtas.
Desculpa, Camila. Estava ocupado.
Depois te ligo.
Estou com saudade.
A última frase foi a que mais doeu.
Porque, depois dela, ele parou de ligar.
E eu continuei esperando.
No começo, todos os dias.
Depois, a cada dois ou três dias.
Até que percebi que eu era sempre quem procurava.
Seis meses.
Fazia seis meses desde a última vez que ouvi a voz dele.
Seis meses desde a última vez que Rafael disse meu nome.
Seis meses desde a última vez que ouvi aquele riso que eu conhecia melhor do que qualquer outro.
Eu poderia simplesmente desistir.
Mas não conseguia.
Porque abandonar Rafael seria como abandonar uma parte da minha infância.
E eu ainda não estava pronta para fazer isso.
Meu celular vibrou.
Meu coração disparou.
Olhei para a tela.
Não era ele.
Era Vó Tereza.
Atendi imediatamente.
— Oi, vó Tereza.
— Oi, minha querida.
A voz dela sempre conseguia me acalmar.
— Tudo bem?
— Tudo.
Mentira.
Ela sabia.
Dona Tereza sempre sabia.
— Você ligou para ele hoje?
Olhei para a tela.
— Liguei.
— Não atendeu?
— Não.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ele está muito ocupado.
— Eu sei.
— Está estudando bastante.
— Eu sei.
— E seu tio está cheio de projetos.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Camila...
— Ele está bem?
A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
— Está.
Fechei os olhos.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Ele perguntou por mim?
Houve silêncio.
Um silêncio pequeno.
Mas eu conhecia Dona Tereza.
— perguntou.
Meu coração apertou.
— Quando?
— Há algumas semanas.
— E o que ele disse?
Ela hesitou.
— Perguntou se você ainda morava na mesma casa.
Sorri.
Era pouco.
Mas era alguma coisa.
— E você disse que sim?
— Claro.
— Ele perguntou mais alguma coisa?
Dona Tereza demorou.
— Perguntou se você ainda guardava aquela pulseira que fez para ele.
Meu sorriso desapareceu.
Levei a mão ao pulso.
Eu ainda tinha uma igual.
— Eu guardo.
— Eu sei.
— Ele lembra?
— Acho que sim.
Acho.
Aquela palavra me machucou mais do que deveria.
— Vó?
— Sim?
— Ele mudou?
Ela ficou quieta.
— Todo mundo muda, Camila.
— Não foi isso que perguntei.
— Eu sei.
Olhei pela janela.
— Ele ainda é meu melhor amigo?
Dona Tereza soltou um suspiro.
— Algumas pessoas continuam sendo importantes mesmo quando ficam longe.
Não era uma resposta.
Eu sabia.
Ela sabia.
Mas ninguém queria dizer em voz alta o que estava acontecendo.
Rafael estava se afastando.
Devagar.
Quase sem perceber.
Uma ligação de cada vez.
Uma mensagem de cada vez.
Uma promessa esquecida de cada vez.
— Ele está feliz? — perguntei.
— Está crescendo, minha querida.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Fiquei em silêncio.
Então ela perguntou:
— Você quer que eu peça para ele ligar?
Meu coração acelerou.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Por quê?
Engoli o nó na garganta.
— Porque eu não quero que ele ligue porque você pediu.
Dona Tereza ficou quieta.
— Quero que ele ligue porque quer falar comigo.
Ela demorou alguns segundos antes de responder.
— Você está ficando muito parecida com sua mãe.
— Isso é bom?
— Muito.
Sorri fracamente.
— Vó?
— Sim?
— Obrigada por me contar dele.
— Sempre vou contar.
— Mesmo se ele esquecer de mim?
A voz dela ficou mais baixa.
— Enquanto eu estiver aqui, você nunca vai ficar sem notícias dele.
Fechei os olhos.
— Promete?
— Prometo.
Desliguei.
Fiquei olhando para o celular.
Depois, para a fotografia.
Passei o dedo sobre o rosto de Rafael.
— Você prometeu voltar. Porque você teve que crescer?
Minha voz saiu quebrada.
Eu ainda tinha onze anos.
Mas já começava a entender uma coisa que ninguém havia me ensinado.
Às vezes, as pessoas não precisam dizer adeus para ir embora.
Elas simplesmente começam a aparecer menos.
Ligam menos.
Respondem menos.
E, quando você percebe...
Já não sabe mais se ainda existe um lugar para você na vida delas.
Rafael não havia dito que me esquecera.
Nunca disse que não queria mais falar comigo.
Mas também não ligava.
Não escrevia.
Não perguntava como eu estava.
Eu só sabia dele por meio da Vó Tereza.
E isso doía.
Porque eu não queria notícias de Rafael.
Eu queria Rafael.
Queria ouvir sua voz.
Queria contar sobre a escola.
Queria reclamar das minhas notas.
Queria dizer que finalmente tinha conseguido andar de bicicleta sem cair.
Queria saber se ele ainda jogava futebol.
Queria perguntar se Vancouver continuava fria.
Queria contar que eu estava crescendo.
Queria que ele percebesse.
Mas talvez ele já tivesse percebido.
Talvez apenas não se importasse mais.
Levantei da cama e caminhei até o quintal.
A árvore continuava ali.
A mesma.
O lugar onde enterramos nossa cápsula do tempo continuava intacto.
Ajoelhei-me sobre a terra.
Passei a mão devagar pelo chão.
— Feliz aniversário, Rafael.
Sorri triste.
— Eu ainda estou esperando.
Levantei-me.
Antes de voltar para dentro, olhei para a abertura na cerca.
A passagem que, durante toda a minha infância, significou que, não importava o que acontecesse, Rafael estava a poucos passos de distância.
Agora parecia apenas uma abertura velha em uma cerca.
E, pela primeira vez, tive medo de que um dia eu não sentisse mais vontade de atravessá-la.
Talvez fosse assim que algumas promessas morriam.
Não de uma vez.
Mas aos poucos.
Até que ninguém mais se lembrasse de quando exatamente elas começaram a desaparecer.
Rafael JuanTenho que provar para Camila que ela é e sempre foi a mulher da minha vida. Não quero perder mais nenhum segundo longe da minha família.Vou para a faculdade, pois tenho algumas aulas para ministrar, mas minha cabeça insiste em permanecer em casa, com minha esposa e nossa pequena princesa.Durante a aula, tento me concentrar nos projetos dos alunos, mas é impossível não me lembrar da maneira como Camila sorriu quando nossa filha se mexeu em sua barriga. Aquele sorriso espontâneo, tão bonito, tão genuíno, fez meu coração apertar.Por muito tempo, acreditei que poderia separar as coisas. Minha vida profissional de um lado, meus relacionamentos de outro, como se eu pudesse organizar meus sentimentos em compartimentos e escolher quando cada um deles merecia minha atenção.Que idiota eu fui!Camila nunca foi apenas uma obrigação contratual. Mesmo quando eu ainda não sabia que Mariah era minha esposa, alguma coisa nela me atraía de uma maneira que eu não conseguia explicar. Eu p
Camila MariahSinto meu estômago se contorcer ao encarar Sophie na mesma loja em que estamos. Rafael vai até ela, e os dois trocam algumas palavras que não consigo ouvir.Desvio o olhar, mas não consigo impedir que as lembranças invadam minha mente.É impressionante como a presença daquela mulher consegue despertar sentimentos que eu gostaria de deixar para trás. Sei que meus hormônios estão uma bagunça, mas não é apenas isso. É a lembrança de que, enquanto eu me guardava para Rafael, acreditando que um dia voltaríamos a ser aquelas duas crianças que prometiam nunca se abandonar, era na cama dela que ele estava.Mesmo casado comigo.Mesmo sabendo que existia uma mulher do outro lado do mundo que ainda guardava pedaços dele no coração.Respiro fundo, tentando afastar a tristeza, mas sinto meus olhos arderem.Então, duas mãos delicadas seguram meus braços.— Amiga, você não precisa passar por isso. Vem, vamos falar com os decoradores e dar nosso toque no design do quarto do meu afilhado
SophieEstou no shopping com Melina, comprando o enxoval do bebê dela, e começo a me perguntar em que momento da minha vida me tornei responsável por financiar uma criança que nem é minha.Inferno!Já gastei uma pequena fortuna.E Melina parece não ter a menor intenção de parar.— Sophie, olha esse bercinho! — ela exclama, apontando para um modelo branco com detalhes delicados. — Não é perfeito?Olho para o preço.Meu estômago se contrai.— Melina, você realmente precisa desse?Ela me encara, indignada.— Sophie, é o berço do meu filho!Respiro fundo.Claro que é.O filho dela.O menino que estou usando para sustentar a maior mentira da minha vida.— Tudo bem — respondo, pegando o cartão da bolsa. — Vamos levar.Melina sorri e chama a vendedora.Enquanto ela conversa sobre medidas, tecidos e prazos de entrega, observo as sacolas acumuladas ao lado do balcão.Cada uma representa uma pequena fortuna.Cada uma me lembra o quanto estou investindo para manter Juan ao meu lado.E, ainda ass
Rafael JuanSinto algo diferente em mim desde que descobri o sexo da minha filha.É uma sensação que não consigo explicar.Uma menina.Minha princesa.Minha filha.Tenho certeza de que será uma mini Camila.Tão linda quanto Camila era quando pequena.E, talvez por isso, depois que todos foram dormir, eu tenha ficado algum tempo sentado na beira da cama, olhando para o vazio.Levanto e caminho até a mesinha de cabeceira.Abro a gaveta.Entre alguns documentos antigos e coisas que quase nunca uso, encontro aquilo que procurava sem admitir que estava procurando.Uma fotografia.Pego o retrato.Somos nós dois.Crianças.Camila está abraçada a mim como se a vida dela dependesse disso.E talvez dependesse.Por muito tempo, eu fui o porto seguro daquela menina.O garoto que ela procurava quando tinha medo.O menino que prometia que nunca iria embora.E eu fui exatamente o contrário daquilo que prometi.Fugi.Cresci.Mudei de nome.Fingi esquecer.Fingi que Camila era apenas uma lembrança dis
Camila MariahSinto uma paz dentro de mim quando finalmente conto ao Rafa que estamos esperando uma menina.Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não veja apenas culpa nos olhos dele.Vejo felicidade.Vejo emoção.Vejo sinceridade.E isso me assusta um pouco.Porque uma parte do meu coração ainda quer acreditar nele.Naquela noite, durmo melhor do que dormi nos últimos meses.Acordo no dia seguinte com o coração mais leve.Não completamente tranquilo.Mas leve.Visto uma roupa confortável e desço para a sala de jantar.Quando entro, encontro meus sogros e Vó Tereza à mesa.Menos Rafael.Meu coração dá uma pequena apertada.É ridículo.Depois de tudo, ainda espero por ele.— Bom dia — cumprimento.— Bom dia, querida — tia Laura responde, sorrindo.Dou um beijo no rosto dela e depois cumprimento Vó Tereza e tio Álvaro.Sento no meu lugar e começo meu café da manhã.Tento não olhar para a cadeira vazia à minha frente.Tento.Mas é impossível não perceber.Será que ele saiu?
Camila MariahMinha sogra é meio louca.Não tenho outra definição.Estou rindo há horas desde que ela entrou no quarto e começou a fazer um verdadeiro interrogatório sobre a minha consulta.Quando finalmente contei que seria uma menina, Laura chorou tanto que Vó Tereza precisou entregar um lenço para ela.Depois chorou junto.Claire, claro, começou a chorar porque as duas estavam chorando.E eu?Chorei de emoção no início, mas depois simplesmente comecei a rir.Talvez porque, depois de tantos meses de lágrimas, finalmente tivéssemos um motivo para derramar lágrimas de felicidade.Pouco depois, Clara chegou carregando uma garrafa de vinho rosé e uma jarra de suco de uva.Eu olhei para ela sem entender.— Quem pediu isso?Ela sorriu.— Sua sogra.Laura levantou a mão.— Eu!— Para quê?— Para comemorarmos.Ela fez uma pausa dramática.— Afinal, temos uma princesa chegando.Foi assim que começamos nossa pequena comemoração.Sem Rafael.Sem preocupações.Sem Sophie.Apenas nós quatro.Eu,







