Teilen

Capítulo.01

last update Veröffentlichungsdatum: 20.09.2025 05:39:33

Helena Duarte 

Naquela noite ainda estava na casa da minha amiga, ainda sem acreditar que fui expulsa de casa, depois de conseguir uma promoção maravilhosa. Há males que vem para o bem, e talvez tenha sido um livramento de Deus.

— Eu sei o que você está pensando, Helena. E com certeza foi Deus dizendo " filha eu tô aqui". Vai menina, aproveita todas as oportunidades que seu chefe puder te dar, e viva sua vida, curta muito, e prospere. Só volte para o meu casamento. — Ela diz me entregando uma xícara de chá.

— Óbvio que irei vir para seu casamento. Você me ajudou quando mais precisei, e em todos os momentos da vida, você é mais minha irmã que minha própria irmã.

— Eu sinto muito por você ter nascido nessa família tão horrível.

— Agora já foi.

Lua sempre foi, uma amigona, uma irmã de alma, sempre me ajudou em muitos momentos, teve época em que minha mãe trancava os armários e a geladeira para que eu não comecesse nada, água eu tinha que beber da torneira, e Lua sempre me ajudou, nunca me negou um prato de comida.

É difícil falar isso, mas minha mãe é uma narcisista, em todos os detalhes, não é só um pouco, e sim ela inteira.

Eu cresci achando que o problema era comigo. Que eu era ingrata, dramática ou exagerada. Mas com o tempo e terapia — sim, graças à Lua, que praticamente me arrastou — eu entendi que o buraco era muito mais embaixo. Minha mãe sempre me controlou de forma cruel, fazia chantagem emocional, diminuía minhas conquistas, me colocava contra mim mesma.

— Lembra quando você passou naquele concurso e ela disse que só idiota escolhia essa carreira? — Lua resmungou, sentando-se ao meu lado.

— Lembro. Ela disse que eu só estava tentando aparecer... Como se eu não pudesse querer crescer.

Lua balançou a cabeça e bufou, indignada como sempre.

— Ela teve medo. Medo de você sair do controle dela. Narcisistas não suportam quando a vítima cria asas.

Sorri fraco. Era estranho ter que lidar com tudo isso depois de adulta. Quando se é criança, a gente só quer agradar. Quando cresce, percebe que agradar certos tipos de pessoas é o mesmo que apagar a própria luz pra não incomodar.

— Mas agora chega, né? — disse, tomando um gole do chá quente. — Eu consegui uma promoção, estou morando com uma amiga incrível, e tenho um futuro inteiro pela frente.

— Isso mesmo! — Lua levantou a xícara como se brindasse. — Ao novo começo de Helena Duarte.

Sorri mais sincera agora. Pela primeira vez em muito tempo, senti que estava exatamente onde precisava estar. Longe do caos, perto do afeto. E mais importante: comigo mesma.

— E você acha que seu chefe vai viajar mesmo? — Lua perguntou, com aquele olhar curioso de quem já estava montando mil teorias na cabeça.

— Vai. E adivinha quem vai com ele?

— Você? — Ela arregalou os olhos.

Assenti.

— Ele disse que confia no meu trabalho, e que precisa de mim nessa viagem pra representar a empresa.

— Menina, isso é tudo! Você vai viajar, vai mostrar serviço, vai fazer contatos... Quem sabe o que pode acontecer?

— Pois é... quem sabe? — respondi, deixando o pensamento flutuar.

Naquele instante, me dei conta de que, apesar da dor, do abandono e da humilhação, eu tinha recebido algo que não se compra: liberdade. E talvez, só talvez... essa viagem fosse o ponto de virada da minha história.

— Eu tenho medo — confessei, num sussurro.

Lua apertou minha mão.

— Ter medo é normal. Mas sabe o que não é? Ficar parada por causa disso. Você vai dar a volta por cima, Helena. Vai se erguer tão alto que nem vão conseguir te olhar nos olhos.

Sorri. Um sorriso pequeno, frágil… mas sincero.

— Obrigada, Lua. Por tudo. Se eu conseguir algum dia retribuir metade do que você fez por mim…

— Retribui sim, sendo feliz. — Ela me interrompeu com firmeza. — Isso já vai valer por tudo.

Naquela noite, dormi no quarto de hóspedes da Lua, abraçada a uma almofada e à esperança de um recomeço. Sabia que o mundo lá fora não seria fácil, mas, pela primeira vez em muito tempo, me sentia livre.

E liberdade, mesmo dolorida, era muito melhor do que viver acorrentada à sombra de uma mãe que nunca me amou.

~~~

Na manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar. O céu ainda estava cinzento e silencioso, como se o mundo também estivesse se preparando para começar de novo.

Coloquei meus pés no chão com determinação. Lua já estava de pé, preparando um café reforçado como só ela sabia fazer.

— Bom dia, assistente do chefe! — disse ela com um sorriso largo, enquanto me entregava uma caneca de café quente.

— Bom dia — respondi, tentando disfarçar o nervosismo. — Parece que acordei num mundo novo.

— E acordou mesmo. Agora vai lá, mostra que você merece estar exatamente onde está.

Depois do café, coloquei minha roupa mais elegante — um blazer vinho que comprei assim que soube da promoção. Passei um batom discreto, mas que me dava segurança, peguei minha mala. Respirei fundo três vezes antes de sair pela porta.

Cheguei ao hotel e Davi já estava me esperando no saguão, dali já iríamos para nosso próximo destino.

— Obrigada, senhor Montez. É uma honra.

— Por favor, me chame de Davi. Vamos ter muito trabalho pela frente e, se depender de mim, você vai crescer ainda mais.

Aquela frase me atingiu como um raio. Pela primeira vez, alguém poderoso olhava para mim e dizia: Você tem potencial.

Segui Davi até o carro e fomos direto para o aeroporto, iriamos em seu jarinho particular, ali eu dava adeus a minha mãe, até mesmo a minha irmã, que eu sabia que não era má, apenas teve uma mãe ruim.

Ali, naquela poltrona do jatinho, com esse homem que acredita no meu potencial, eu fiz uma promessa silenciosa a mim mesma:

Nunca mais vou me encolher para caber nos limites que os outros tentaram impor sobre mim.

{...}

Lies dieses Buch weiterhin kostenlos
Code scannen, um die App herunterzuladen

Aktuellstes Kapitel

  • A que ficou   Capítulo.45

    Ruan DuarteO relógio marcava três e vinte da manhã quando o telefone de Ravi começou a vibrar sobre a mesa da sala. Nenhum de nós dormia de verdade. Milena estava internada desde o começo da noite, e a espera tinha se transformado em um silêncio pesado, quase sufocante.Ravi atendeu no segundo toque.— Alô?Ele não disse mais nada. Apenas ouviu. Seus olhos se encheram de lágrimas antes mesmo de desligar.— É agora. — disse, com a voz falhando. — Ela entrou em trabalho de parto.Saímos de casa quase correndo. O caminho até o hospital pareceu mais longo do que nunca. Ravi dirigia com cuidado exagerado, como se cada semáforo fosse um teste de paciência impossível.— Eu não sei se tô pronto. — ele murmurou, sem tirar os olhos da estrada.— Ninguém nunca está. — respondi. — Mas isso não te impede de ser.No hospital, o cheiro de antisséptico misturado ao ar gelado me trouxe lembranças que eu nem sabia que guardava. Jéssica já estava lá, andando de um lado para o outro, com o rosto tenso e

  • A que ficou   Capítulo.44

    Ruan DuarteAlgumas escolhas não pedem coragem.Elas exigem renúncia, maturidade… e a disposição de perder algo para ganhar o que realmente importa.A nossa semana começou com uma conversa que eu sabia que viria, mas nunca imaginei que ouviria tão cedo.Ravi bateu na porta do meu quarto ainda antes das oito da manhã. O cabelo bagunçado, o rosto sério demais para alguém da idade dele. Milena vinha logo atrás, mãos cruzadas sobre o ventre ainda discreto, mas já carregado de um peso que não era só físico.— A gente precisa conversar. — Ravi disse.Sentei na cama e fiz sinal para entrarem.Ele respirou fundo.— Eu falei com minha mãe ontem à noite. De verdade. Sem gritos. Sem fugir. — engoliu seco. — Disse que o bebê é meu. Que eu vou assumir. Que não importa se ela concorda ou não.Milena segurou a mão dele com força.— E ela disse o quê? — perguntei.— Que eu estou jogando minha vida fora. — ele respondeu. — Mas também disse que… prefere um filho responsável do que um covarde.Não era u

  • A que ficou   Capítulo.43

    Ruan DuarteExistem rupturas que fazem barulho — gritos, portas batendo, palavras ditas no calor da raiva.E existem aquelas que doem mais: as silenciosas.A semana seguinte à confirmação da gravidez de Milena foi assim. Cheia de silêncios que gritavam.O almoço de domingo, que sempre foi barulhento e caótico na casa das nossas mães, aconteceu em um clima estranho demais. As vozes estavam baixas, os risos forçados, os talheres pareciam altos demais batendo nos pratos.Minha mãe mal olhava para Jéssica.A mãe de Ravi evitava olhar para Milena.E ninguém, absolutamente ninguém, tinha coragem de olhar diretamente para mim.— Então… — minha mãe começou, quebrando o silêncio — como anda a faculdade?A pergunta veio tarde demais. E rasa demais.— Indo. — respondi, seco.Jéssica permanecia sentada ao meu lado, postura ereta, mas o corpo tenso. Eu sentia isso só de encostar nela. A mão dela repousava sobre o colo, os dedos entrelaçados com força demais.— E você, Jéssica? — perguntou minha mã

  • A que ficou   Capítulo.42

    Ruan DuarteExistem dias em que a vida não pede licença. Ela simplesmente chega, bate à porta com força e, quando você abre, nada mais é igual. Aquele foi um desses dias.Eu estava na sala do apartamento, o silêncio quebrado apenas pelo som distante da cidade, quando ouvi a porta se abrir devagar demais. Milena entrou primeiro. O rosto pálido, os olhos marejados. Ravi vinha logo atrás, passando as mãos pelos cabelos, andando de um lado para o outro como um leão enjaulado.Jéssica veio por último. Calma demais. E isso me assustou mais do que qualquer desespero.— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, levantando.Milena não conseguiu responder. As lágrimas começaram a cair antes das palavras.Foi Jéssica quem falou.— Aconteceu.O coração começou a bater descompassado.— Sentem-se. — ela disse, apontando o sofá.Ravi sentou primeiro, as pernas tremendo. Milena se sentou ao lado dele, segurando sua mão como se fosse a única coisa que a mantinha de pé. Eu permaneci em pé, sentindo que algo

  • A que ficou   Capítulo.41

    Ruan DuarteExistem verdades que não pedem permissão para existir. Elas apenas crescem, pesam, ocupam espaço dentro do peito até não caber mais silêncio. E quando finalmente são ditas em voz alta, não importa o quanto doa — elas libertam.Eu sabia que aquele dia chegaria. Só não imaginei que seria tão cedo… nem que faria tanto barulho.Tudo começou numa terça-feira aparentemente comum. Eu estava no apartamento, tentando me concentrar em um trabalho da faculdade, quando Jéssica chegou mais cedo do que o normal. O rosto pálido, os olhos vermelhos, a bolsa quase caindo da mão.— O que aconteceu? — perguntei, levantando num pulo.Ela largou tudo no sofá e se sentou, passando as mãos pelo rosto.— Fui chamada na coordenação.Meu estômago revirou.— Eles sabem?— Não… ainda não. — Ela respirou fundo. — Mas alguém desconfia. Comentários, olhares, perguntas atravessadas. Não dá mais pra fingir que nada está acontecendo.Sentei ao lado dela, segurando sua mão.— Então a gente para de fingir.E

  • A que ficou   Capítulo.40

    Ruan DuarteExiste um tipo de medo que não grita. Ele se senta à mesa com você, segura os talheres com educação e sorri para quem ama, enquanto por dentro tudo treme. Foi assim naquele domingo.O almoço em família tinha sido ideia das nossas mães. “Para celebrar a nova fase de vocês”, disseram, animadas demais para quem não fazia ideia do que realmente estava em jogo. Ravi e eu trocamos um olhar silencioso quando recebemos a mensagem no grupo da família. Milena confirmou presença quase ao mesmo tempo. Jéssica demorou mais. Quando respondeu, veio apenas um “ok” seco. Conhecia aquele tom. Era pânico disfarçado de controle.Chegamos cedo à casa da tia Helena — mãe do Ravi — porque ela insistiu em ajudar com a sobremesa. A casa estava cheia de cheiros bons: alho dourando, carne assando, ervas frescas. Um cenário comum. Familiar demais para o turbilhão que eu carregava.— Meu Deus, vocês estão magros! — minha mãe disse assim que nos viu, puxando-me para um abraço apertado. — Faculdade suga

Weitere Kapitel
Entdecke und lies gute Romane kostenlos
Kostenloser Zugriff auf zahlreiche Romane in der GoodNovel-App. Lade deine Lieblingsbücher herunter und lies jederzeit und überall.
Bücher in der App kostenlos lesen
CODE SCANNEN, UM IN DER APP ZU LESEN
DMCA.com Protection Status