INICIAR SESIÓNLUCAS
Dormi pouco naquela noite. Na verdade, fazia muito tempo que eu não sabia o que era ter uma noite de sono tranquila. Dividir a mesma cobertura com Helena era como viver em um campo de batalha silencioso. Não brigávamos todos os dias, mas a tensão entre nós era constante. Bastava estarmos no mesmo ambiente para o ar ficar pesado. Levantei antes do despertador tocar. Vesti um terno azul-marinho, ajustei a gravata diante do espelho e desci para a cozinha. A mesa do café já estava posta pelos funcionários da casa, mas meu apetite havia desaparecido fazia tempo. Peguei apenas uma xícara de café preto. Meu celular vibrava sem parar com mensagens relacionadas à empresa. Aquilo, pelo menos, me distraía. Antes de sair, passei rapidamente pela sala. Helena ainda dormia. Ela achou mesmo que dormir no sofá, apenas de camisola ia me fazer ceder? Eu não ia pegar ela no colo e carregar como se fosse minha noiva e como se estivéssemos em lua de mel. Saí da cobertura indo em direção a garagem. Entrei no carro e segui para o Grupo Almeida. --- Cheguei antes das oito da manhã. Gostava de encontrar a empresa silenciosa. Sem reuniões. Sem telefonemas. Sem problemas. Assim que entrei na minha sala, encontrei sobre a mesa uma pasta enviada pelo Recursos Humanos. As candidatas para a vaga de minha secretária. Sentei-me. Abri a pasta. Uma por uma, comecei a analisar as fichas. Experiência. Cursos. Idiomas. Referências. Tudo parecia impecável. Até perfeito demais. Algumas possuíam anos de experiência, mas durante a entrevista só falavam sobre como seria uma honra trabalhar ao meu lado. Outras sequer escondiam o interesse pelo cargo por causa do salário. Suspirei. Fechei mais uma pasta. Então encontrei um currículo que já conhecia. Natália Monteiro. Peguei a ficha e me recostei na cadeira. Involuntariamente, lembrei da entrevista. Ela não tentou me bajular. Não sorriu o tempo inteiro para parecer simpática. Não concordou com tudo o que eu dizia. Respondeu às perguntas olhando diretamente nos meus olhos. Quando perguntei como reagiria à pressão, ela respondeu sem hesitar. Sorri discretamente. Ela tinha coragem. Muito mais coragem do que eu tive. Meus pensamentos voltaram oito anos no passado. Desde aquele dia vivo preso em um casamento que nunca quis. Olhei novamente para o currículo de Natália. Ela tinha feito justamente o que eu nunca consegui. Enfrentava a vida de cabeça erguida. Fechei a pasta. Ela merecia aquela oportunidade. (...) Passei a manhã mergulhado em contratos. Depois participei de uma reunião com Alex para discutir o orçamento de uma nova obra. Logo em seguida Pedro apareceu trazendo alterações estruturais em um empreendimento. Ser presidente significava resolver um problema atrás do outro. Não havia descanso. Quando finalmente consegui alguns minutos livres, resolvi procurar Gabriel. Precisávamos discutir o projeto de um novo condomínio. Caminhei pelo corredor. Sem bater, abri a porta da sala dele. Parei imediatamente. Gabriel segurava Marina pela cintura. Os dois estavam completamente distraídos, se beijando. Pigarreiei. Eles se afastaram no mesmo instante. Marina ficou completamente vermelha. Gabriel, ao contrário, apenas sorriu. — Bom dia para você também. Cruzei os braços. — Pelo visto interrompi uma reunião importante. Gabriel deu risada. — Muito importante. Marina abaixou a cabeça, claramente envergonhada. — Desculpa, senhor Lucas. Balancei a cabeça. — Relaxa. Só espero que vocês trabalhem metade do que namoram. Gabriel riu ainda mais. — Estamos no horário do café. — Ah, claro. Olhei para Marina. — Se esse arquiteto começar a atrapalhar seu serviço, me avise. Gabriel fingiu indignação. — Que injustiça! — Você é quem está beijando funcionárias durante o expediente. — Minha funcionária. — Continua sendo expediente. Saí da sala balançando a cabeça. Ao voltar para minha sala, apertei o botão do interfone. — Sandra. — Sim, senhor? — Diga para providenciarem imediatamente a contratação de Natália Monteiro. Houve alguns segundos de silêncio. — Apenas ela? — Apenas ela. — Repeti — Certo. Desliguei. Olhei novamente pela enorme janela da minha sala. Não costumava contratar pessoas por impulso. Esperava não estar cometendo um erro. (...) Quando percebi, já passava das oito da noite. A empresa estava praticamente vazia. Peguei meu paletó. Desci até a garagem. Durante o caminho de volta, a única coisa em que consegui pensar foi que preferia continuar no escritório. Infelizmente, precisava voltar para casa. Estacionei na garagem da cobertura. Assim que entrei, encontrei Helena sentada no sofá. Usava uma camisola de seda vermelha que deixava pouco para a imaginação. Na mão, segurava uma taça de vinho. Ela sorriu. — Boa noite, amor. Passei por ela sem responder. Continuei caminhando em direção ao quarto. Ouvi seus passos logo atrás dos meus. — Lucas... Ignorei. Entrei no quarto. Comecei a tirar a gravata. Ela entrou logo em seguida. — Podemos conversar? Continuei em silêncio. Abri o guarda-roupa e peguei uma camiseta. — Estou falando com você. Respirei fundo. — O que foi agora, Helena? Ela caminhou lentamente até mim. — Estou com saudades. Não respondi. Ela passou a mão sobre meu peito. — Faz semanas que você nem olha para mim. Segurei delicadamente seu pulso e afastei sua mão. — Não faça isso. Ela sorriu. — Eu sou sua esposa. Encarei seus olhos. — Apenas no papel. Seu sorriso desapareceu. — Até quando você vai insistir nessa história de divórcio? — Até conseguir minha liberdade. Ela deu uma pequena risada. — Você sabe que isso nunca vai acontecer. Fechei os olhos por um instante. Estava cansado daquela conversa. — Helena, vá dormir. Ela cruzou os braços. — Você nunca vai conseguir se livrar de mim, Lucas. Olhei para ela pela última vez naquela noite. — Veremos. Caminhei até o banheiro e fechei a porta. E, pela primeira vez em muito tempo, a imagem de uma mulher de cabelos castanhos e olhar determinado atravessou meus pensamentos. Natália Monteiro.POV NATÁLIAA manhã estava tranquila no andar da presidência. Eu estava sentada à minha mesa revisando alguns documentos e respondendo aos e-mails que haviam chegado logo cedo. Ao meu lado, Pedro e Gabriel conversavam sobre um projeto enquanto esperavam por uma reunião.Eu tentava me concentrar no trabalho, mas os dois não pareciam dispostos a manter o silêncio.— Se você continuar alterando esses números, o orçamento nunca vai fechar — Alex comentou, olhando para a planilha.— O problema não são os números. O problema é que você está cortando justamente onde não deveria — Gabriel respondeu.Pedro soltou uma risada.— Vocês dois estão discutindo por causa disso desde cedo?— Porque ele não entende que algumas mudanças são necessárias — Gabriel rebateu.— E você não entende que precisamos respeitar o orçamento — Alex respondeu.Pedro balançou a cabeça, divertido.Revirei os olhos, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.— Vocês dois deveriam discutir isso em outro lugar — falei, se
POV LUCASA noite estava agradável e, pela primeira vez naquela semana, eu não precisava pensar em contratos, reuniões ou problemas da empresa.Estava sentado em uma mesa no canto do bar com Gabriel, Pedro e Alex. Os três discutiam sobre alguma partida de futebol enquanto eu apenas observava, tomando minha bebida.— Eu ainda não entendo como vocês conseguem discutir tanto por causa de futebol — Alex comentou.— Porque você não entende nada de futebol — Pedro respondeu.— E você entende?— Muito mais que você.Gabriel soltou uma risada.— Vocês dois são ridículos.— Ridículo é você torcer para aquele time — Pedro rebateu.— Vamos mudar de assunto — falei, já cansado daquela discussão.Pedro apontou para mim.— Está vendo? É por isso que ele é o único sensato dessa mesa.— Não. Ele só quer que vocês parem de falar — Alex corrigiu.— Também. — Ri baixo.Era exatamente por isso que gostava de estar com eles. Apesar das provocações, eram os poucos momentos em que eu conseguia esquecer um p
NATÁLIASábado à noite.Depois de uma semana intensa de trabalho, eu só queria esquecer um pouco da rotina. Precisava rir, conversar e passar algumas horas longe de planilhas, reuniões e, principalmente, dos pensamentos que vinham me acompanhando nos últimos dias.Pensamentos sobre Lucas. Balancei a cabeça diante do espelho.— Para com isso, Natália — murmurei para mim mesma.Peguei minha bolsa e saí de casa. Quando cheguei ao apartamento de Marina, toquei a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abriu.— Finalmente! — Marina falou, abrindo um sorriso. — Achei que você tinha desistido de vir.— Claro que não. Eu só demorei um pouco para me arrumar — respondi, entrando.— Um pouco? — Luísa apareceu atrás dela. — Você demorou quase uma hora.— Vocês estavam contando?— É claro — Camila respondeu, sentada no sofá com uma taça de vinho nas mãos. — Não temos nada melhor para fazer.Ri e deixei minha bolsa sobre uma cadeira.— Vocês são impossíveis.Marina fechou a porta e me entrego
Acordei lentamente, o corpo ainda preso numa espécie de névoa quente e confusa. Por alguns segundos, o cérebro teimou em acreditar que eu estava no meu próprio quarto, na cama larga e fria que compartilhava com Helena. Mas o cheiro era diferente. O colchão, não. Era o sofá. O tecido macio contra a minha pele, o apoio um pouco baixo demais para as costas, a posição torta em que eu tinha desmaiado horas antes.O apartamento estava silencioso. Silencioso demais.Abri os olhos de verdade. A luz da manhã filtrava pelas cortinas finas, pintando o chão de um dourado pálido. Levantei o tronco, sentindo cada músculo reclamar. Passei a mão pelo rosto, pelo cabelo bagunçado, e olhei ao redor como se o ambiente pudesse me dar alguma resposta.— Natália?A voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Rouca. Estranha até para mim.Nenhuma resposta.O silêncio me incomodou de imediato. Ontem ela parecia forte, firme, resolvida a não se deixar abalar. Mas eu tinha visto o tremor nas mãos dela quando falo
NatáliaA segunda-feira parecia não ter fim. Desde que cheguei ao Grupo Almeida naquela manhã, minha mesa não ficou vazia nem por cinco minutos. Eram contratos para conferir, reuniões para remarcar, ligações de clientes importantes e uma sequência interminável de e-mails que pareciam se multiplicar sempre que eu respondia um.Quando olhei para o relógio do computador, já passava das dezoito horas.Finalmente.Alonguei discretamente os ombros e comecei a organizar minha mesa. Gostava de deixar tudo impecável antes de ir embora. Era uma mania antiga, daquelas que minha mãe dizia que eu herdara dela.O último andar já estava praticamente vazio. Marina apareceu ao lado da minha mesa segurando a bolsa.— Até amanhã, Nat.Sorri.— Até amanhã. Vai descansar.— Você também. Não fica trabalhando até tarde.Ela lançou um olhar divertido para a porta da presidência antes de entrar no elevador.— E tenta convencer o chefe a fazer o mesmo.Balancei a cabeça, rindo.— Boa noite.Assim que ela foi e
LUCASO ronco do motor ecoou pelo autódromo no instante em que pisei mais fundo no acelerador. O carro respondeu imediatamente. A curva surgiu à minha frente e reduzi apenas o suficiente para manter o controle. Alguns metros atrás, Gabriel tentava diminuir a distância, enquanto Pedro e Alex disputavam posição logo depois.Sorri de lado. Fazia semanas que não dirigia daquele jeito. Ali, dentro do carro, eu não era presidente do Grupo Almeida. Não existiam contratos, reuniões, investidores ou funcionários esperando respostas. Muito menos um casamento fracassado me esperando em casa. Ali, existia apenas velocidade. Cruzei a linha de chegada alguns segundos antes dos outros.Diminuí a velocidade e conduzi o carro até os boxes. Assim que desliguei o motor, Gabriel estacionou ao meu lado.— Você continua insuportável.Abri a porta e saí do carro. — Perdeu de novo. — Porque você roubou.Ri.— Essa desculpa já tem uns dez anos.Pedro estacionou logo atrás.— Eu falei que ele ia levar isso c







