LOGINMelinda
O dia mal começou e eu já me sinto exausta. Ontem precisei ir à minha antiga faculdade para resolver alguns assuntos pendentes. Com as dívidas se acumulando, tive que abdicar dos meus estudos e passei a trabalhar em dois empregos; no entanto, recentemente pedi demissão do segundo. Agora, ainda não sei se conseguirei retomar a faculdade. Caminho quase correndo em direção à cafeteria. Justo hoje, o despertador resolveu não tocar, e o cansaço de uma noite mal dormida só piorava ainda mais a situação. Para completar o meu desespero, hoje é a folga da Isabelle, o que significa que a Karen deve estar uma fera. Quase sem fôlego, entro na cafeteria, e, para o meu azar, a primeira pessoa que vejo é Karen, furiosa no balcão. — Isso é hora, Melinda? Já passa das sete! — Sinto muito… — Ela me interrompe antes que eu possa me justificar. — Não quero saber o que aconteceu. Só quero que esteja aqui na hora. Olhe quantos clientes temos! Hoje você vai sair mais tarde, para compensar o atraso. Suspiro, sem ter o que dizer, e sigo para o pequeno quarto nos fundos, onde guardo minhas coisas e pego meu avental. No instante em que volto para o salão, começo a ajudar a moça que está cobrindo a folga da Isabelle a atender as mesas. Quando me aproximo da mesa cinco, levo um susto ao me deparar com o homem do dia anterior, me encarando. — Bom dia. O que deseja? — Desvio o olhar para o tablet em minhas mãos. — Olá de novo, Melinda. — A voz rouca chega aos meus ouvidos, fazendo um arrepio percorrer meu corpo antes que eu possa evitar. Volto a encará-lo e, então, percebo o sorriso de canto em seus lábios. Tento ser gentil e retribuo com um pequeno sorriso, que logo desaparece quando noto a frieza em seus olhos. — Desculpe, mas… nós nos conhecemos de onde? — pergunto, na defensiva. O simples fato de ele saber meu nome, enquanto eu não sei absolutamente nada sobre ele, me deixa desconfortável. Ontem à noite tentei lembrar se já o havia visto em algum lugar. Cheguei até a cogitar que pudesse ter sido no meu segundo emprego, mas ele não parece ser do tipo que frequenta fast food. — Você ainda não me conhece, mas eu conheço você há algum tempo. Olho ao redor, assustada. Dou um pequeno passo para trás e direciono o olhar para a janela que dá para a cozinha, onde Leoncio colocava um novo pedido no balcão. — Sei que deve estar confusa, mas, se tiver um tempo para um café, poderíamos conversar um pouco. — Sinto muito, mas não tenho tempo. — O sorriso que enfeitava seu rosto se desfaz, dando lugar a uma expressão séria. — Não tem tempo ou não quer? — pergunta, com firmeza. A pergunta me pega desprevenida. O encaro séria, apertando a caneta entre os dedos. Não estou gostando do rumo dessa conversa. — Sinto desapontá-lo, senhor… — William Montenegro — responde, com o tom de voz mais áspero. — Senhor Montenegro, não tenho o que conversar com o senhor. Então, por favor, faça seu pedido. — Minha voz falha, mas mantenho a postura firme. — Tudo bem. Talvez eu tenha me expressado mal, senhorita Melinda. Poderia me trazer um café preto, puro, por favor? Anoto o pedido e me afasto o mais rápido possível de sua vista, mas sinto seu olhar em mim a cada passo. Ele toma o café calmamente e, de tempos em tempos, me encara. Após algum tempo, me chamou para pedir a conta. — Queria pedir desculpas pela forma como me expressei antes. Talvez você não me conheça, mas já faz um tempo que passo por aqui quando vou trabalhar. Pensei em parar e conversar. — Ele passa a mão na nuca, visivelmente desconfortável. — Claro, senhor Montenegro. — Finalizo o atendimento rapidamente, na esperança de que ele vá embora. Após pagar a conta, ele se despede com a promessa de voltar no dia seguinte. Espero, sinceramente, que isso não aconteça tão cedo. Após longas horas de trabalho, finalmente o dia termina, e a única coisa que ainda me mantém de pé é a enorme vontade de tomar um bom banho. Sinto um vento frio bater no rosto e enlaço os braços ao redor do corpo, tentando me aquecer. A noite já caiu, e estou a poucos metros de casa quando percebo que o carro que vi duas quadras atrás ainda me acompanha. Talvez seja só paranoia. Mas, mesmo assim, apresso o passo assim que avisto meu prédio. Quando entro, o carro acelera e desaparece ao dobrar a próxima esquina. Ainda assustada, subo as escadas com pressa e, assim que entro em casa, tranco a porta. — Aconteceu alguma coisa? — pergunta Isabelle, sentada no sofá, me encarando com expressão confusa. — Não foi nada — respondo, seguindo direto para a cozinha, tentando evitar o assunto. O dia foi cansativo, talvez eu esteja vendo coisas onde não há. — Não me pareceu “nada” — Isabelle entra na cozinha e se encosta no batente da porta, braços cruzados. — Só foi um dia muito agitado — dou de ombros. Não quero preocupá-la por algo que pode ser só impressão. Conversamos sobre coisas leves e, depois, fui para o quarto descansar um pouco até a hora do jantar. ***** Quatro meses depois… Quando William Montenegro realmente apareceu no dia seguinte, como havia prometido, fiquei surpresa. Ainda mais quando as visitas se tornaram frequentes, e isso se estendeu por quatro meses. No início foi estranho. Não havia muito o que conversar. Ele parecia um homem reservado; na maioria das vezes, era ele quem puxava assunto. Não sei exatamente quando aconteceu, mas, com o passar dos dias, comecei a ansiar pelas visitas. Passei a contar as horas até ele chegar. E, inevitavelmente, me apaixonei por William Montenegro. Pensei em guardar meus sentimentos para mim mesma, não podia contar o que estava sentindo. Mas, numa noite chuvosa, enquanto ele me dava uma carona, declarou seu amor por mim e, naquele mesmo momento, me pediu em namoro. O tempo ao lado dele parece mágico. É como se já o conhecesse há muito tempo. O jeito como fala, como demonstra carinho. Até mesmo as flores que traz quase todos os dias me fazem sentir as famosas borboletas no estômago. — Estou tão feliz por você, amiga. Parece que finalmente encontrou o que tanto procurava. Sorrio para Isabelle, que está deitada na minha cama. Ela me ajuda a me arrumar para sair com William. Já perdi a conta de quantas vezes saímos nesses meses. — Acho engraçado como as coisas entre a gente aconteceram. Será que desta vez o meu cupido acertou? — brinco. — Se isso for considerado um erro, quero que o meu cupido erre bastante. — Rimos juntas. — Mas estou bem do jeito que estou. Agora é sua vez de viver o conto de fadas. Essa é a sua história. — Não seja exagerada, Elle. Antes que ela possa responder, meu celular vibra com uma nova mensagem. Era William, avisando que já havia chegado. — Will chegou. Qualquer coisa, me manda mensagem. — Se algo acontecer, não vou cometer o crime de te atrapalhar. Aproveita a noite, amiga. E não esquece de se prevenir. Sinto meu rosto esquentar com o comentário malicioso, é claro que ela não perderia a chance de me deixar envergonhada. — Você só fala besteira — digo, rindo e indo em direção à sala. — Não é besteira nenhuma! — ela grita, ainda rindo. — Divirta-se! Desço os curtos lances de escada com um sorriso no rosto. Isabelle sempre tem um comentário. Antes mesmo de chegar à portaria, o vejo encostado no seu BMW preto. Mesmo não sendo nosso primeiro encontro, ainda fico sem fôlego com a beleza de William. Ele está impecável, como se tivesse sido moldado sob medida para roubar suspiros: calça social cinza que realça suas pernas longas, colete de corte perfeito ajustado ao tronco forte e a clássica camisa branca, cujas mangas dobradas revelam parte dos antebraços, um detalhe simples, mas inexplicavelmente sedutor. — Estava com saudades — digo, me aproximando e roubando-lhe um selinho. Seus olhos estão sérios, mas seus lábios esboçam um pequeno sorriso. — Eu também — responde, abrindo a porta do carro para mim. O trajeto até o restaurante foi tranquilo, embalado por uma música suave que tocava no som do carro. Trocamos poucas palavras, mas nem o silêncio entre nós pareceu desconfortável, havia algo reconfortante na presença dele, mesmo calado. A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes, até que o carro desacelerou em frente a um restaurante luxuoso, com fachada envidraçada e letreiro dourado iluminado por discretos refletores. A recepcionista já nos aguardava e nos conduziu até a mesa. No caminho, sinto olhares sobre mim. A princípio penso ser coisa da minha cabeça… mas estou errada. O julgamento nos olhos das mulheres me incomoda. Elas me olham de cima a baixo com certo desprezo. O garçom nos entrega os cardápios e se retira. Ao analisar os pratos, os preços exorbitantes me fazem querer desistir e ir direto para a lanchonete da esquina. — Você já veio aqui antes? — tento quebrar o silêncio. — Sim — responde, fechando o cardápio e me olhando. — O cardápio não está do seu agrado? — Está sim — sorrio. — Só queria conversar um pouco. O garçom retorna para anotar os pedidos. — Vamos querer dois pastramis com pimenta. E o melhor vinho da casa. Pimenta? Sou alérgica à pimenta! Faz tempo que não tenho uma crise, mas a última foi grave. — Will, prefiro que o meu venha sem pimenta. — Se quiser, pode escolher outro prato. Pedi esse por ser um dos melhores. — Não precisa. Só não pode ter pimenta… sou alérgica. — Oh, sinto muito. — Sorrio, tentando amenizar. O garçom se retira. — O motivo de eu ter te trazido aqui esta noite, é que preciso te dizer algo. Isso foi o bastante para me deixar apreensiva.Melinda A nostalgia que sinto ao entrar no restaurante me aquece por dentro. Faz exatamente um ano que não venho aqui, pois todas as lembranças que guardo deste lugar são com a minha mãe. Costumávamos vir toda sexta-feira para saborear a famosa lasanha à bolonhesa, especialidade da casa. A boca retorcida de William demonstra sua insatisfação com o restaurante; seus dedos vagueiam sem muito interesse pelo cardápio pela terceira vez. Após um longo suspiro, ele o fecha, visivelmente aborrecido. — Acho que não vou comer nada — resmunga após um tempo, colocando o cardápio sob a mesa. Ergo meus olhos do cardápio e o observo em completo silêncio. Tento lembrar em que momento me apaixonei por ele, o que me fez ter tanta certeza de que era a pessoa certa para me casar e construir uma família. Os olhos azuis que um dia tanto me encantaram agora me parecem apenas um rio profundo e frio; quanto mais tento encontrar a margem, mais sou arrastada para o fundo. Talvez as feridas que ele me causo
William Frustrado, jogo as pastas com os arquivos sobre a mesa. Já são quase meio-dia e continuo atolado de trabalho. Mesmo que eu tente não pensar na grande bagunça em que minha vida pessoal se tornou, não consigo. Esse assunto tem se tornado um martírio para mim, o que me deixa ainda mais irritado, já que o meu plano era transformar a vida dela em um inferno, não a minha. De início, pensei em limitar o dinheiro, então deixei o cartão com um limite baixo. Mas ela pareceu não se importar, o que realmente a afetou foi ter perdido o emprego. Claro que passou pela minha cabeça que isso poderia fazer parte de alguma armação. Como uma boa atriz, ela jamais deixaria as coisas tão fáceis. Apesar de meu plano ainda não ter dado resultados, tento ser cauteloso. Mas, toda vez que a vejo interagindo com qualquer homem, a imagino me traindo. Então, perco a cabeça, e arrisco acabar com meus próprios planos. Mas não consigo evitar. Tudo o que eu menos queria agora era ver isso ganhar repe
Melinda Um calor confortável envolvia meu corpo, uma sensação que há muito não me visitava, despertando lembranças doces e esquecidas da minha infância. Meus olhos pesavam, lentamente cedendo ao cansaço, e cada músculo do meu corpo parecia preguiçoso, dificultando qualquer movimento. Mas não era só o sono que me paralisava, eram os braços fortes e firmes que me envolviam pela cintura, segurando-me com uma segurança quase implacável, como se quisessem me proteger e, ao mesmo tempo, não me deixar escapar. Dentro daquele abraço, havia algo de reconfortante e, ao mesmo tempo, inquietante, uma mistura delicada entre aconchego e submissão que me deixava suspensa entre o desejo de me entregar e a dúvida sobre o que viria depois. O ritmo do meu coração parecia se sincronizar ao calor que irradiava da pele dele contra a minha e, por um instante, o mundo inteiro fora daquele abraço era apenas silêncio. Ainda atordoada pelos acontecimentos da noite anterior, encarei William, que dormia ao meu
WilliamConferi o registro de chamadas uma, duas, três vezes. Cada deslizar de dedo era um apelo silencioso por alguma evidência, um detalhe escondido que me provasse certo. Mas não havia nada disso, só repetidas ligações para Isabelle.Tentei outra abordagem. Abri a lista de contatos. Era curta, quase vazia. Estranhamente limpa. Aquilo não significava muito. Não com tantas formas de se esconder hoje em dia. Ela podia ter outro número. Outro aparelho.— Isso provavelmente não está certo — murmurei, jogando o aparelho sobre a mesa, ainda sentindo o olhar acusatório de Nicolas cravado em mim. — Deve haver alguma explicação…— Você só diz isso porque não encontrou o que queria. Agora me diga: o que fez para que Melinda saísse daqui daquele jeito?— Apenas disse a verdade — dei de ombros. — Que ela não passa de uma interesseira.— Inacreditável que você tenha tido coragem de dizer algo assim — ele riu, carregado de sarcasmo. — Mas o que se pode esperar de alguém que se casou por vingança,
MelindaOs olhos de William brilhavam intensamente, não de ternura, mas de raiva. Seus passos firmes e confiantes ecoavam pelo ambiente enquanto se aproximava de mim com a mesma presença imponente de sempre. Mas aquilo já não me assustava. Eu estava me acostumando com esses rompantes, infelizmente, já era quase uma constante entre nós sempre que algo saía do controle.Levanto a cabeça e encaro seus olhos, tentando encontrar qualquer vestígio do homem que eu conhecia. Mas tudo o que vejo é a raiva, firme e inabalável. A desconfiança circula entre nós, silenciosa, como se tivesse sido convidada.— Não o conheço — respondo, dando de ombros, com total indiferença.Dessa vez, não posso culpar completamente William pela desconfiança. Os homens que estavam aqui realmente agiram de forma estranha. Ainda assim, essa constante desconfiança está se tornando cansativa. A maioria das nossas brigas nasce das inseguranças dele e isso começou a passar dos limites.— Quando você vai parar de mentir? —
MelindaQuando o táxi parou em frente ao imponente prédio da empresa Montenegro, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a beleza impressionante daquele arranha-céu gigantesco. Embora soubesse que se tratava de uma empresa renomada, jamais imaginei que sua estrutura fosse tão deslumbrante, com suas fachadas de vidro reluzente refletindo o céu e as luzes da cidade, o prédio parecia quase uma obra de arte erguida em meio ao concreto.Ao passar pela porta giratória, senti um desconforto imediato ao perceber que minhas roupas estavam completamente fora do padrão elegante da empresa. Aquilo poderia muito bem ter me feito dar meia-volta, mas a curiosidade sobre o que Nicolas queria me dizer era maior.Apertei com mais força a alça da minha bolsa e avancei pelo meio da multidão apressada que se movia de um lado para o outro. Ao longe, avistei uma moça que supus ser a secretária.— Bom dia — disse, assim que me aproximei do balcão. — Poderia me informar onde fica a sala do Nicolas? Ele es







