MasukVaelaEzra parou de respirar quando a seda caiu dos meus ombros. O olhar dele não me devorou como objeto. Reconheceu. Isso me atingiu mais fundo. Eu disse que ele olhava como se fosse perigoso. Era. Para quem? Para tudo que tentara enterrar. Estendi a mão e o convidei a desenterrar direito. Ezra baixou a boca até meu ombro. O primeiro beijo foi lento. Quase casto. O segundo já trouxe dentes. O terceiro, fome. Arqueei sob ele, sentindo calor masculino contra minha pele, peso contido, cheiro de sangue e noite. As mãos dele percorreram meu corpo sem pressa, firmes e atentas, como se cada reação minha escrevesse nova lei.Respondi sem timidez. Dedos nas costas dele. Unhas pressionando onde sabia que não quebraria. Boca procurando a dele quando prazer e memória tentavam confundir-se. Ezra era selvagem na contenção. Era isso que me incendiava. O fato de o lobo nele querer avançar e o homem perguntar a cada respiração. O fato de sua força não diminuir por esperar. Pelo contrário. Crescia. To
VaelaA tensão no rosto de Ezra rachou, e ele avançou. Não me esmagou. Não tomou. Mas quando sua boca encontrou a minha, o mundo inteiro perdeu polidez. O beijo veio pesado de culpa, exílio, sangue e onze tipos de silêncio. Abri a boca contra a dele e senti o rosnado nascer em seu peito antes de chegar aos lábios. As mãos dele pararam em minha cintura, firmes, grandes, esperando meu corpo dizer sim outra vez. Eu disse puxando-o pela camisa rasgada, deixando os dedos fecharem no tecido como se arrastar aquele homem para perto fosse sentença contra Morvan, contra o luto usado como prisão, contra todos os anos em que sobreviver parecera mais honroso que desejar.Ezra me ergueu pela cintura. Envolvi as pernas nele antes que o orgulho pudesse fingir surpresa. Minhas costas tocaram a parede fria entre dois espelhos. O impacto foi controlado. O cuidado dele era violento de tão presente. Mesmo ardendo, mesmo tremendo, Ezra ainda calculava onde não me machucar. Disse contra a boca dele que se
VaelaOs espelhos da ala Lycan batiam contra as paredes como mortos querendo entrar. Fiquei parada no centro do quarto, os pés descalços sobre cacos frios, a respiração firme por orgulho e instinto, enquanto a voz de Rhonan se multiplicava no corredor. Ezra… devolva minha esposa. O chamado vinha de todos os lados. Do espelho quebrado na penteadeira. Do metal polido da bacia. Do vidro escuro da janela. De qualquer superfície capaz de refletir a mentira que Morvan tentava vestir com rosto de morto. Ezra estava à minha frente, a camisa rasgada pelos estilhaços, sangue descendo em linhas finas pelas costas e pelo ombro. O corpo dele, largo, marcado pelo exílio e por guerras que nenhum Conselho quis registrar, parecia feito para bloquear o mundo.Mas eu conhecia a diferença entre proteção e fuga. E vi a fuga nele. Não nos pés. Nos olhos. Disse não. Ezra não se virou. Ainda não fiz nada, respondeu. Pensou. A mandíbula dele endureceu. Morvan usaria aquilo contra mim. Morvan usava ar, luto, á
VaelaColoquei a mão de Ezra em minha cintura e ele congelou. Disse meu nome, baixo, perigoso, quase dor. Mandei que ficasse. Ele lembrou que Rhonan estava olhando. Não era Rhonan. A magia podia usar aquilo. Que usasse a verdade, então. Senti a respiração de Ezra contra minha têmpora quando ele ficou atrás de mim, não como dono, não como substituto, mas como presença viva. A mão dele na minha cintura era quente, grande, contida. O polegar, sem querer ou querendo demais, roçou a seda sobre minha pele. Meu corpo respondeu com uma onda baixa de calor. O espelho brilhou de azul. Você me traiu. Inclinei a cabeça. Não. Eu sobrevivi.A mão de Ezra tremeu. Cobri seus dedos com os meus e acrescentei que agora eu escolhera. O rosto de Rhonan no espelho abriu a boca. Por um instante, a voz que saiu não era dele. Era Morvan. Escolhas são correntes quando sabemos onde prender. Ezra puxou-me para trás antes que o espelho explodisse. Vidro estilhaçou para fora. Ele girou o corpo e me cobriu com o pr
VaelaRhonan apareceu no vidro como uma lembrança envenenada. Alto, ombros largos, cabelos claros caindo sobre a testa, belo e pálido, como se a morte tivesse aprendido a imitar nobreza. Os olhos dele, antes calorosos em minha memória, agora brilhavam com azul doentio. Minha esposa, disse. Permaneci imóvel. Rhonan nunca usaria aquele tom. A imagem sorriu e acusou que eu o esquecera rápido. Ezra rosnou. O som foi baixo o bastante para ser controlado e fundo o bastante para fazer a chama da vela inclinar. Cuidado, ele disse. O espelho virou os olhos para ele. Ezra Varlock. O exilado. O amigo que deixei viver. A mão de Ezra fechou ao lado do corpo.Ele disse que aquilo não era Rhonan. A imagem inclinou a cabeça. Não? Lembrava-se do túnel, do sangue no pulmão, do peso de Ezra no ombro enquanto o tirava da cela. Lembrava-se de mim chorando sem som quando percebi que ele não voltaria. Senti minha respiração falhar. O detalhe era real. Odiei que fosse. Ezra olhou para mim. Não para o espelho
VaelaO espelho começou a respirar antes de chamar meu nome. Eu estava sentada na beirada da cama, ainda vestida de preto, os cabelos presos frouxamente na nuca, a pele marcada pelo cansaço de uma noite em que os mortos haviam falado demais e os vivos fingido coragem por tempo suficiente. A lua entrava pela janela alta em lâminas frias, cortando o quarto em partes: a cama intocada, a bacia de água escura sobre a mesa, minhas luvas abandonadas sobre uma cadeira, a camisa de Ezra jogada no encosto como uma confissão indecente. Ele estava junto à porta. Não por distância. Por hábito.Ezra Varlock sempre se posicionava onde pudesse ver a saída, a janela e a mulher ao mesmo tempo. Mesmo sem armadura formal, mesmo com a gola aberta, mesmo com a pele ainda guardando o calor da última vez que minhas mãos haviam descido por seu peito, ele parecia preparado para matar o mundo se o mundo entrasse sem permissão. Eu deveria achar isso primitivo. Achava. Também achava perigosamente belo. Perguntei







