Se connecterSelene A voz de Aureliane atravessou a mina como seda embebida em veneno, e todas as correntes invisíveis pareceram prender a respiração junto comigo. Finalmente a filha entendeu qual homem precisa cair primeiro. Kaian. O nome não foi dito por mim, mas ocupou o corredor inteiro. A coroa de lua negra pulsava ao fundo, lenta, viva, como um coração arrancado e mantido batendo por pura ambição. Senti Darius se mover atrás de mim, teimoso o bastante para tentar ficar de pé mesmo com o sangue ainda manchando as costelas. Virei apenas o rosto, e ele parou antes que eu precisasse falar. A obediência dele me irritava menos quando vinha misturada a dor. Isso me irritava mais. — Não levante — eu disse. — Kaian está solto. — E você está furado. Os olhos dele queimaram com febre e lobo. — Já lutei pior. — Não comigo decidindo se merece sobreviver ao próximo minuto. A boca dele quase sorriu, mas a ferida puxou a expressão para dor. Ainda assim, havia calor naquele olhar. O tipo
Selene Minha mãe disse que não podia sair enquanto Morvan vivesse, e alguma coisa dentro de mim ficou antiga demais para caber no meu corpo. A lâmina de Liora aqueceu na minha mão como se quisesse atravessar a projeção e alcançar o homem que a mantinha presa em algum lugar abaixo da mina. A água negra ao redor dos meus tornozelos refletia minha mãe inteira e quebrada, bela e translúcida, viva e inalcançável. Eu tinha imaginado reencontros mil vezes quando era jovem o bastante para acreditar em justiça. Em nenhum deles eu estava coberta de sangue de Darius, com a boca ainda lembrando o quase beijo que não dei, diante da mulher que me gerou e de uma prisão que nos estudava como se amor fosse mecanismo. — Então eu mato Morvan — eu disse. A frase saiu simples. Darius respirou atrás de mim, difícil, controlado. Mesmo ferido, o corpo dele reagiu ao tom da minha voz. Não avançou. Não interrompeu. Mas senti o lobo dele erguer a cabeça no vínculo, não para me impedir, e sim para ficar
Selene A mina ficou muda depois que Darius disse que esperaria até eu querer sem dor, e aquele silêncio me assustou mais do que todos os gritos. Não porque eu acreditasse nele com facilidade. Não acreditava. Confiança, para mim, ainda tinha o gosto metálico da noite em que ele disse rejeito diante de todos, e nenhuma frase bonita, nenhuma lança atravessando seu corpo, nenhum quase beijo roubado pela minha própria fraqueza apagaria isso. Mas havia algo de terrível em ouvir um homem como Darius Varek prometer espera sem tentar transformar a promessa em conquista. Ele estava encostado à parede azul, pálido, sangrando menos, respirando com dificuldade, e ainda assim seus olhos continuavam presos em mim como se cada batida do coração dele pedisse autorização para existir. Afastei a mão do rosto dele antes que meu corpo confundisse cuidado com rendição. A ausência do toque deixou minha pele fria. Odiei. Odiei a mina, o vínculo, o sangue dele em meus dedos, o modo como sua boca quase be
Selene A mina mandou Darius pedir o que eu ainda não sabia se queria dar, e por um instante cruel eu odiei mais o fato de ela estar certa do que a insolência de ouvi-la. A mão dele continuava no meu rosto. Quente. Fraca. Cuidadosa demais para um homem que um dia destruiu minha vida com uma palavra. O polegar manchado de sangue repousava na minha bochecha, exatamente sobre o rastro vermelho que ele mesmo deixara antes de quase morrer. A testa dele tocava a minha. A respiração dele entrava e saía com dificuldade, roçando meus lábios sem tocá-los. Darius estava pálido, ferido, sentado contra a parede azul como um rei arrancado do trono e devolvido ao chão. Ainda assim, havia nele uma força perigosa: não a de quem mandava, mas a de quem conseguia esperar quando tudo no próprio corpo queria avançar. Eu não sabia o que fazer com isso. Era mais fácil odiar o Alfa que tomava. Mais difícil respirar diante do homem que pedia. — Não escute a mina — ele murmurou. A voz rouca raspou na
SeleneO sangue de Darius secava em minhas mãos como se a mina quisesse me obrigar a lembrar o formato exato do medo.Ele respirava.Mal.Mas respirava.Cada subida irregular do peito dele era uma ofensa ao terror que quase me vencera. Cada expiração rouca me lembrava que eu o trouxera de volta com a autoridade da noite em que ele me destruiu. A rejeição não era mais só lâmina enterrada em mim; agora era também fio preso entre nós, raiz aberta, comando vivo. Eu podia sentir o lobo dele do outro lado do vínculo, ferido, enorme, quieto demais. Não submisso. Atento. Como se esperasse minha próxima palavra para decidir se existia.Eu odiei isso.Odiei mais ainda o alívio.Darius estava sentado contra a parede azul, a armadura aberta, a camisa rasgada sob minhas mãos. A ferida abaixo das costelas já não jorrava, mas ainda sangrava em pulsos lentos, escuros. A prata ritual deixara veios vermelhos ao redor da pele, como se a lança tivesse tentado escrever nele a palavra morte e eu a tivesse
SeleneO silêncio depois da respiração de Darius parar foi a coisa mais cruel que a mina já me entregou.Não houve grito naquele primeiro segundo. Não houve comando. Não houve heroísmo. Apenas o peso dele contra mim, quente ainda, pesado ainda, absurdamente homem ainda, enquanto o peito que eu odiava por ainda reconhecer deixava de subir. O sangue dele cobria minhas mãos, meus pulsos, o tecido do meu vestido. A lança caída no chão ainda fumegava com a palavra rejeito arrancada da carne dele como raiz apodrecida. Ao redor, a batalha parecia distante, abafada por uma água invisível. Caçadores morriam. Lobos rosnaram. Alguém chamou meu nome.Eu não ouvi.Ouvi apenas a ausência de Darius.Aquilo me partiu de um jeito tão violento que meu corpo recusou mostrar. Minha coluna ficou reta. Meu rosto, frio. Minhas mãos, firmes demais sobre a ferida aberta. Dentro de mim, porém, algo uivava. Não minha loba. Não minha Voz. Algo mais antigo que orgulho e mais vergonhoso que desejo.Medo.— Não — e







