LOGINLucanElara estava ali, mais magra, mais pálida, os cabelos que antes brilhavam como noite de inverno caindo em fios longos sobre os ombros. As marcas das correntes desenhavam círculos em seus pulsos, tornozelos e garganta. Mas quando ergueu o rosto, os olhos dela ainda eram os mesmos. Azuis. Impossíveis. Irritados. Ela disse que eu demorei. Quase caí. A emoção veio antes do passo, antes da palavra, antes da vergonha. Onze anos de ausência esmagaram meu peito com a violência de uma porta arrombada. Tentei me aproximar, mas as correntes vibraram. Elara rosnou que eu não tocasse nelas. Respondi que a tiraria dali. Ela sabia. Depois que eu parasse de parecer um viúvo bonito demais para raciocinar.Minha risada saiu quebrada. Ela estava presa havia onze anos e ainda reclamava do meu rosto. Elara perguntou se meu rosto fora útil demais para outras mulheres durante sua ausência. Ciúme. Real. Absurdo. Vivo. Fechei os olhos por meio segundo, saboreando a crueldade dela como água depois de gu
LucanHoje eles estavam educados, segundo Selene, e do outro lado Nara murmurou que infelizmente era verdade, pois normalmente havia mais ameaça sexual e dano emocional explícito. Cassian soltou um suspiro baixo e disse seu nome. Ela respondeu que estava em crise e que ele devia deixar sua boca trabalhar. Fechei os olhos outra vez. O humor dela, ácido e inoportuno, cortou a tensão por um segundo. Apenas um. Depois o nome de Elara voltou a pesar sobre meu peito. Perguntei o que precisava fazer. Vaela respondeu que eu deveria dormir sem entregar a mente ao selo. Simples, murmurei. Ela continuou: chamar Elara pelo vínculo, não pela culpa.A frase acertou. Abri os olhos. Vaela sustentou meu olhar e disse que culpa era porta falsa; o selo gostava dela. Amor era mais difícil de falsificar. Engoli. Perguntei e se eu não soubesse a diferença depois de onze anos. Selene respondeu, baixa, que eu sabia. A culpa queria ser punida. O amor queria encontrar. Olhei para ela. Darius também. O silêncio
LucanDeitei-me dentro do círculo como um homem que se oferecia a uma sepultura. A pedra sob minhas costas era fria demais para pertencer à fortaleza, fria demais para pertencer ao mundo dos vivos. O círculo de proteção desenhado por Vaela brilhava ao meu redor em linhas de sal lunar, sangue de Alpha e cinzas de mirra antiga. Cada símbolo pulsava em azul pálido, como se respirasse com dificuldade. Fora dele, a sala inferior ainda carregava o cheiro da prova: sangue de Liora, orgulho quebrado, medo de Mirella, fúria de Selene, culpa de Darius e o veneno silencioso da Coroa Partida. Mas, para mim, tudo aquilo havia se tornado ruído.Elara. O nome dela estava atrás dos meus dentes havia onze anos. Eu o pronunciara dormindo, bêbado, ferido, furioso, ajoelhado, enterrado em guerras que não me importavam. Chamara por ela em noites de neve até a voz falhar. Farejara florestas inteiras. Executara traidores. Comprara mapas. Ameaçara anciãos. Derrubara fronteiras. E, ainda assim, encontrara-a p
SeleneAgora Darius queria que eu parasse. Não ao custo da minha voz, ele disse, com dificuldade dentro da memória. Minha voz era minha para gastar, respondi. Sim, ele concordou, e então pediu que eu não a gastasse por ele. A frase deveria me acalmar. Não acalmou. Perguntei se ele achava que aquilo era por ele. Darius ficou em silêncio. Avancei contra a pressão do círculo e disse que queria que parasse porque minha dor não pertencia à prova, nem a Morvan, nem a ele, nem ao desejo dele de sofrer direito. A memória tremeu. A jovem Selene na projeção levantou o rosto, como se ouvisse a mulher que se tornaria.Por um instante, nós duas nos olhamos. Passado e presente. A Ômega abandonada e a Dominante Lunar. A ferida e a lâmina. Senti uma vontade absurda de entrar na cena e abraçar a mim mesma, dizer que sobreviveria, que um dia voltaria com prata nos olhos, que Darius choraria de joelhos, que nada curaria tudo, mas provaria que a noite não vencera. Mas também não queria que aquela menina
Selene Darius chorava na neve de uma lembrança que não era dele, e eu odiei sentir vontade de tocá-lo. A imagem se projetava no centro do círculo como uma ferida aberta no ar: o Alfa da Lua Sangrenta ajoelhado no rastro de sangue que eu deixara anos antes, as mãos cravadas no gelo, os ombros largos curvados sob uma dor que finalmente aprendera o próprio nome. As lágrimas dele caíam sobre pegadas antigas, sobre a trilha onde ninguém havia chorado por mim quando o frio comeu meus dedos e a fome torceu meu corpo. Era justo. Era cruel. Era tarde. O pior era que não bastava. Eu estava de pé, a garganta ainda ardendo onde Morvan me calara, a lâmina de Liora pesada na mão. Cada respiração arranhava por dentro. Minha Voz voltara, mas em fios, como seda rasgada. Ainda assim, eu me mantinha reta, porque havia homens demais naquela sala esperando que a dor me dobrasse em espetáculo. Darius ergueu o rosto dentro da memória. Os olhos dele encontraram os meus através da projeção. Vermelhos. Doura
SelenePela primeira vez, a prova pareceu escutar, e no recuo do círculo havia um som parecido com dentes rangendo. Nara sussurrou atrás de mim: isso, lua mal-humorada. Cassian respirou fundo, quase como se segurasse uma risada impossível. Morvan ergueu o anel negro e declarou que a prova tinha direito de revelar a extensão do dano. Virei o rosto para ele e disse que a prova não tinha direito de me transformar em cadáver exibido para educar culpado. Vaela sorriu de leve, frio e orgulhoso, e disse que, pela lei Lycan, eu tinha fundamento. Morvan lançou-lhe um olhar cortante, afirmando que aquele não era seu tribunal. Ainda, respondeu Vaela.Ezra moveu-se ao lado dela, e o ar mudou com aquele tipo de intimidade que vinha de corpos que já haviam parado de fingir indiferença. A mão dele roçou a de Vaela. Ela permitiu. Vi aquilo e pensei, por uma fração absurda, que talvez adultos quebrados também pudessem se escolher no meio de guerras antigas. Então Darius falou de novo. Disse que não q







