เข้าสู่ระบบO problema da Alessandra não era só ela estar ficando com Mauro. Quer dizer, era também. Eu não era santa. Tinha visto os dois naquela situação ridícula, dentro da sala dele, e alguma coisa em mim tinha queimado de um jeito que eu não queria admitir nem sob ameaça. Mas a parte que doía de verdade era outra: ela era minha amiga e tinha escondido aquilo por quase um ano.
— Amiga, precisamos conversar sobre isso — ela disse, toda desajeitada, enquanto eu pegava minha bolsa. — Eu vim só buscar minhas coisas. Com licença. Não quis atrapalhar. Saí o mais rápido que consegui. Alessandra veio atrás de mim pelo corredor, tentando acompanhar meu passo. — Eu devia ter te contado. Parei e virei para ela. — Ter contado? Então essa não foi a primeira vez? Ela mordeu o lábio, culpada demais para conseguir mentir direito. — Não. — Ótimo. — A gente está tendo um caso. Fiquei olhando para ela, tentando decidir se ria, se xingava ou se fingia que aquela frase não tinha batido em mim. — Há quanto tempo? — Onze meses. — Onze? — Esse mês fez onze. Eu respirei fundo. Onze meses. Quase um ano. Quase um ano dela me ouvindo reclamar do Mauro, do efeito que ele causava na empresa, da arrogância dele, das mulheres babando em volta, e em nenhum momento achou importante dizer que também era uma delas. — Mas é só ficando, né? — perguntei. — Por enquanto, sim — ela respondeu, e os olhos dela brilharam de um jeito triste. — Mas eu sinto que ele me quer de verdade. Acho que quando fizer um ano ele vai assumir alguma coisa. Na hora, eu não soube dizer se aquela esperança era dela ou do Relux falando por ela. Talvez os dois. Talvez Mauro tivesse criado um perfume para despertar desejo e, junto com isso, um monte de ilusão de brinde. — Alessandra, ele te disse isso? — Não exatamente. — Então cuidado. Ela fechou a cara. — Agora você vai me dar conselho? — Alguém precisa. Nos despedimos com aquela promessa falsa de continuar a conversa depois. Falsa porque nenhuma das duas queria continuar. Ela queria acreditar no romance dela. Eu queria fingir que não me importava. No dia seguinte, preparei-me para ouvir algum comentário de Mauro. Uma explicação, uma desculpa, qualquer coisa minimamente adulta. Mas ele não falou nada. Pior: parecia mais confiante, como se eu ter visto aquela cena tivesse aumentado a autoestima dele. Ridículo. Homem cafajeste ainda acha que flagrante é currículo. No meio da manhã, ele apareceu na minha mesa com um tom quase casual. — Você janta comigo hoje? Levantei os olhos devagar. — Como é? — Um jantar. Sem Relux, sem teste, sem laboratório. Como pessoas normais. — Pessoas normais não convidam a assistente para jantar depois de serem flagradas com a amiga dela em cima da mesa. Ele respirou fundo. — Eu não tenho compromisso com a Alessandra. — Mas ela acha que tem futuro com você. — Eu sempre deixei claro que era casual. — Claro. Porque homem adora achar que “eu avisei” absolve qualquer merda. Ele ficou sério. — Com você é diferente. Eu ri. Não uma risada bonita. Uma risada de deboche mesmo. — Diferente porque eu disse não? — Diferente porque eu sinto coisas que não senti antes. — Isso se chama rejeição. Só é novo para você. Mauro me encarou, e por um segundo achei que ele fosse mandar eu baixar o tom de novo. Mas não mandou. Só ficou ali, me olhando como se eu tivesse acertado alguma coisa no centro dele. — Aceita. Um jantar. Sem compromisso. — Não quero. A decepção passou pelo rosto dele rápido. Depois ele voltou ao modo chefe. Sério, formal, quase frio. Sinceramente, eu preferia assim. Ao menos dava para trabalhar de verdade e aprender alguma coisa naquele cargo, em vez de viver dentro da crise existencial aromática do herdeiro da Noir. O dia foi quase normal. Mexi em planilhas, organizei agenda, respondi e-mails, acompanhei reunião. Mauro não falou do perfume, não falou de jantar, não falou da Alessandra. Só havia um problema: de vez em quando, a imagem dele daquele dia voltava à minha cabeça. Não a cena inteira. Só ele, desalinhado, pele quente, cabelo bagunçado, aquela presença absurda que parecia ocupar mais espaço do que deveria. Eu expulsava a lembrança, ela voltava. Expulsava de novo, voltava pior. Não era tesão. Não podia ser. Tesão pelo Mauro? Aquele babaca inseguro com complexo de deus perfumado? Eu só precisava beijar alguém normal. Era isso. Meus hormônios estavam fazendo protesto. Alguns dias se passaram nesse quase equilíbrio. Mauro trabalhando como chefe. Eu fingindo que não reparava nele. Alessandra fingindo que estava tudo bem. A empresa fingindo que não comentava cada respiração nossa. Até que, numa manhã, cheguei ao meu novo posto e encontrei um “presente” em cima da mesa. Não era bilhete elegante, flor ou caixa de chocolate. Era um cartaz colado no vidro, com letras grossas e tortas: “VADIA VIGARISTA.” Fiquei parada, sem entender. O sangue subiu para o rosto, depois desapareceu. Olhei em volta. Ninguém parecia saber de nada, ou todo mundo fingia bem demais. Fui até Larissa, na recepção. — Você viu quem deixou isso na minha mesa? Ela arregalou os olhos ao ler. — Meu Deus. Não. Eu juro que não vi. Parecia sincera. Ou assustada. Talvez os dois. Voltei para a mesa tentando entender quem, naquela empresa, me odiava o suficiente para fazer aquilo. Eu não tinha inimigos. Pelo menos não declarados. Foi quando Mauro apareceu, segurando uma pasta preta e com aquela expressão de quem vinha anunciar mais uma loucura. — Tenho uma proposta irrecusável para você. Olhei para o cartaz, depois para ele. — Se envolver perfume, eu jogo essa pasta na sua cara.A antiga torre da Noir estava quase vazia.Não abandonada, não destruída, não cinematográfica o bastante para satisfazer quem gosta de ruína bonita. Apenas esvaziada. O letreiro luminoso tinha sido retirado, as vitrines estavam cobertas por tapumes discretos, e o hall principal, onde antes o cheiro da marca tentava convencer todo mundo de que luxo era destino, agora cheirava a pano úmido e tinta fresca.O lugar onde tudo começou errado. Eu sabia exatamente qual era. Não fui ao laboratório, nem à presidência, nem à sala de conselho. Fui à antessala do andar executivo, aquela em que Mauro me observou pela primeira vez tentando entender por que eu não reagia ao perfume dele. Na época, eu era funcionária comum demais para aquele andar, e ele era arrogante demais para admitir que não saber me controlar tinha virado curiosidade antes de virar desejo.A porta estava aberta. Mauro estava lá dentro. Sem terno. Sem gravata. Sem perfume perceptível. Usava camisa escura simples, mangas dobradas,
Os flashes explodiram antes que eu conseguisse decidir se voltava para dentro.Do lado de fora da Noir, havia repórteres, curiosos, funcionários fingindo que não eram curiosos, seguranças tentando parecer úteis e celulares levantados em todos os ângulos. Meu nome vinha de bocas diferentes ao mesmo tempo, cada uma tentando me puxar para uma versão mais vendável de mim.— Nathalia, você era amante de Mauro Ventura?— Você sabia do perfume?— É verdade que você é imune?— Você derrubou a Noir por vingança?A última pergunta quase me fez rir. Vingança. Como se eu tivesse acordado um dia, colocado uma roupa qualquer e decidido destruir um império entre o almoço e o expediente. Como se não tivesse sido o império a me escolher primeiro, me cercar, me cheirar, me catalogar e depois se ofender porque eu ainda respirava sem pedir autorização.Parei no primeiro degrau da entrada. Um segurança tentou abrir caminho, mas levantei a mão. Não para dar entrevista bonita. Só para não sair correndo como
“A amante que derrubou o império Ventura.”A legenda ficou na tela do celular de Larissa como uma cusparada elegante. Eu li uma vez, depois outra, esperando sentir raiva do tamanho certo, mas o que veio primeiro foi cansaço. Um cansaço antigo, quase sem surpresa. Depois de tudo que eu tinha dito, depois de maleta com meu nome, crachá falso, mulheres dopadas, Helena viva, Mauro criança usado como parâmetro e Marisa tentando transformar trauma em método, o mundo lá fora tinha encontrado a palavra mais fácil.Amante.Claro.Era mais simples do que imune. Mais vendável do que vítima. Mais picante do que testemunha. Mais confortável do que admitir que uma empresa inteira tinha tratado mulheres como matéria-prima.Larissa percebeu minha cara e abaixou o celular.— Eu não devia ter mostrado.— Devia. Melhor ver a facada vindo do que fingir que é brisa.Mauro pegou o celular da mão dela antes que eu impedisse. Leu a manchete, e a expressão dele mudou. Não foi culpa bonita, nem tristeza polida
O vidro quebrou dentro da caixa de contenção.Não houve explosão, nem luz bonita, nem aquele tipo de silêncio sagrado que as pessoas inventam depois para transformar escolha difícil em cena perfeita. Houve um estalo seco, pequeno demais para o tamanho daquilo tudo. A última fração estável do Relux se espalhou no fundo metálico da caixa, azul por dois segundos, depois escura, feia, quase comum.Marisa gritou como se tivéssemos quebrado um osso dela.— Suas idiotas!Foi a primeira vez que ela nos chamou de alguma coisa sem disfarce técnico. Não éramos origem, imune, resposta resistente ou linhagem afetiva. Éramos idiotas. Duas mulheres que tinham feito a ciência dela sangrar fora do vocabulário bonito.Helena soltou o caco antes de se cortar. Eu também. Beatriz fechou a tampa da caixa de contenção com força, e o técnico externo travou o lacre. Tudo muito rápido, muito prático, quase ofensivo para Marisa, que parecia esperar um ritual mais digno para o fim da própria obsessão.Mauro cont
A ampola azul estava na mão de Mauro.Por alguns segundos, o auditório inteiro virou uma única respiração presa. Era pequena demais para carregar tanto estrago. Um vidro fino, quase bonito, com um líquido azul que parecia refletir a luz antes mesmo de ser iluminado. Se alguém entrasse naquele momento sem saber de nada, talvez achasse que era uma amostra de perfume de luxo, uma promessa de campanha, um produto. Era assim que a Noir tinha sobrevivido por tanto tempo: fazendo horror parecer embalagem.Mauro olhava para a ampola como se ela tivesse brotado da pele dele.— Eu não coloquei isso no bolso.Marisa sorriu.— Eu sei.Beatriz fez sinal para os seguranças, mas ninguém se moveu depressa. Não porque faltasse ordem, mas porque todos entenderam o risco de um gesto errado. Mauro segurava a última fração estável. Se alguém avançasse, se ele se assustasse, se a ampola caísse, ninguém ali sabia o que podia ser liberado. Talvez nada. Talvez tudo. O desconhecido era uma forma eficiente de c
A última fração estável estava com Marisa.O vídeo terminou, mas a imagem dela colocando a ampola azul no bolso do jaleco continuou na minha cabeça. A mulher tinha sido contida, cercada, exposta, gravada e, ainda assim, saíra da sala com a única coisa que podia manter o Relux vivo. Era quase admirável, se não fosse doentio.Beatriz viu o vídeo duas vezes, sem piscar. Na terceira, entregou o celular a um dos seguranças.— Revistem Marisa agora.— Tarde — Marisa disse, ainda com os pulsos presos. — Vocês deviam ter aprendido que o corpo nunca é o esconderijo mais interessante.Larissa fechou os olhos.— Eu odeio quando vilão fala bonito. Dá vontade de jogar uma cadeira.Dois seguranças revistaram o jaleco de Marisa ali mesmo, diante de todos. Encontraram luvas, um cartão de acesso, um aplicador vazio, mas nenhuma ampola. Eu olhei para Mauro. Ele entendeu antes que alguém dissesse. Marisa tinha mostrado a ampola à câmera sabendo que o vídeo chegaria até mim. Se não estava mais com ela, e







