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CAPÍTULO 6

Author: Alan Rios
last update publish date: 2026-06-03 19:00:44

Eu não estava acreditando. O homem realmente tinha enlouquecido. Ao longo de uma semana, fiz entrevista com psiquiatra, psicólogo, médico, respondi questionário, fiz teste, colhi sangue e ouvi perguntas que pareciam ter saído de um formulário criado por gente sem noção nenhuma de limite.

Eu estava exausta. Todo dia eu achava que Mauro ia finalmente aceitar que o Relux tinha falhado comigo e pronto. Bola pra frente. Vida que segue. Mas não. Passava um dia, passava outro, e a obsessão continuava. Ele me olhava como se eu fosse um enigma caro demais para ser ignorado.

Naquele fim de tarde, eu já estava quase pedindo para voltar ao meu antigo cargo, quando ele jogou a pasta de exames sobre a mesa e respirou fundo.

— Não tem nada — ele disse.

— Que surpresa.

— Nenhuma alteração relevante.

— Posso voltar a ser uma pessoa normal agora?

Mauro me olhou com aquela expressão dele de quem odiava perder até para a realidade.

— Você fala como se isso fosse simples.

— Porque é. Seu perfume não funciona comigo. Fim.

— Não é o fim.

— Mauro, pelo amor de Deus…

— Posso te beijar?

Fiquei parada.

— Quê?

— Um beijo.

Eu encarei aquele homem, tentando descobrir se ele tinha perdido completamente o juízo ou se aquilo era só mais uma categoria de arrogância que eu ainda não conhecia.

— Doutor Mauro…

— Mauro.

— …você está ficando maluco com essa história. Do nada me pedindo beijo? Para um pouco e analisa teu comportamento nos últimos dias. Você acha que isso está normal?

Ele passou a mão pelo rosto, cansado. Pela primeira vez, não pareceu dono de nada. Nem da empresa, nem do perfume, nem dele mesmo.

— Eu não sei lidar.

— Com a simples rejeição de uma mulher?

— Você não entenderia.

— Não mesmo.

— Tem mais coisa envolvida.

— Sempre tem, né? Com rico nunca é só uma palhaçada. É sempre uma palhaçada complexa.

Ele quase sorriu, mas não conseguiu. Ficou me olhando por tempo demais. Não com aquele olhar de teste. Nem de chefe. Era pior. Era um olhar que fazia meu corpo querer prestar atenção, mesmo quando minha cabeça mandava sair correndo.

— Você está dispensada por hoje — ele disse. — Vai pra casa.

Achei ótimo. Eram umas três da tarde. Saí da Noir com a sensação de ter sido libertada de um manicômio com carpete caro. Chamei um Uber e fui para o shopping. Minha ideia era tomar um sorvete, andar sem rumo e talvez ver um filme ruim só para desligar a cabeça.

Só que, vinte minutos depois, percebi que estava sem bolsa. Claro. Tive que voltar.

Quando cheguei ao hall do andar de Mauro, Larissa, a recepcionista, levantou rápido demais da cadeira.

— Nathalia? Achei que você já tinha ido embora.

— Fui. Esqueci minha bolsa. Minha vida é uma piada ruim.

Ela ficou tensa.

— Eu posso pegar pra você.

— Imagina. Eu pego rapidinho.

— Não, espera…

Mas eu já estava indo até a porta. Bati de leve e abri antes que ela conseguisse me impedir. Foi aí que entendi.

A sala estava uma bagunça discreta, mas suficiente. Um paletó jogado no sofá, uma taça caída sobre a mesa lateral, o cheiro forte do Relux espalhado pelo ar. Mauro estava perto da mesa, ajeitando a camisa depressa, com o cabelo mais bagunçado do que quando me pediu aquele beijo absurdo. E havia uma mulher com ele.

Uma mulher ajeitando a saia, os cabelos e a própria cara de quem tinha sido pega no pior momento possível. Por um segundo, ninguém falou nada.

Eu deveria ter pedido desculpa, pegado minha bolsa e saído. Qualquer pessoa com um pingo de maturidade faria isso. Mas eu, infelizmente, estava ocupada demais sendo tomada por uma mistura horrível de constrangimento, raiva e uma pontada de ciúme que eu não tinha autorizado.

Ciúme de quê, Nathalia? Do patrão maluco? Do homem que usa perfume secreto em funcionária? Me poupe. Mesmo assim, doeu. E isso me irritou mais do que a cena inteira.

Mauro me olhou como se tivesse acabado de levar um tapa.

— Nathalia.

— Relaxa. Vim só buscar minha bolsa. Não sabia que a sala também funcionava como área de lazer.

A mulher virou o rosto. E aí meu estômago afundou. Alessandra. Minha amiga. Ou pelo menos a pessoa que eu chamava de amiga porque ainda era burra o suficiente para acreditar em algumas coisas. Ela arregalou os olhos, mas se recompôs rápido demais.

— Nathalia…

Eu ri. Foi uma risada curta, feia.

— Nossa. Que coincidência maravilhosa.

Mauro deu um passo na minha direção.

— Não é o que você está pensando.

— Engraçado. Homem sempre diz isso quando é exatamente o que a gente está pensando.

— Eu estava tentando confirmar uma coisa.

— Com a Alessandra? Que científico.

Alessandra pegou a bolsa dela do sofá, toda ofendida, como se eu tivesse invadido a privacidade de um casal apaixonado e não a sala do meu chefe em horário comercial.

— Você não tinha ido embora?

— Tinha. Mas minha bolsa, coitada, ficou aqui para assistir ao experimento.

Mauro fechou os olhos por um segundo.

— Eu usei o Relux nela.

Aquilo piorou tudo.

— Ah. Então agora sua pesquisa tem voluntária.

Alessandra olhou para ele, surpresa.

— Relux?

O silêncio caiu pesado. Mauro ficou imóvel. Eu olhei para os dois e, pela primeira vez, percebi que talvez Alessandra não soubesse de nada. Talvez ela tivesse sido só mais uma pessoa afetada por aquele perfume maldito. Ou talvez fosse boa demais fingindo.

Peguei minha bolsa da poltrona com uma calma que eu não sentia.

— Parabéns, doutor Mauro. Pelo visto, comigo falha mesmo.

Passei por ele rumo à porta, mas Mauro segurou meu braço. Não forte. Só o suficiente para me fazer parar.

— Nathalia, espera.

Olhei para a mão dele no meu braço, depois para o rosto dele.

— Me solta.

Ele soltou.

Antes de sair, ouvi Alessandra perguntar atrás de mim:

— Mauro… o que é Relux?

E foi aí que eu entendi que aquela sala tinha acabado de virar um problema muito maior do que eu.

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