LOGIN(POV Daniel)
Entro no quarto sem acender a luz principal, só o abajur fraco do criado-mudo, o corpo inteiro ainda carregando o calor de um corredor vazio que não devia ter significado tanto quanto significou.Tranco a porta do banheiro por reflexo, mesmo sabendo que tô sozinho no quarto, mesmo sabendo que não tem ninguém pra me flagrar ali dentro além do meu próprio reflexo no espelho grande em cima da pia.A água fria que jogo no rosto não lava nada(POV Daniel)Encontro Rafaela Rocha no corredor de acesso reservado à imprensa, o crachá balançando no pescoço enquanto ela discute alguma coisa no celular com quem quer que seja do outro lado da linha.Ela desliga assim que me vê, o rosto recompondo a máscara profissional rápido demais pra ser natural.--- Capitão Guimarães. Não esperava encontrar você por aqui.--- Precisamos conversar. Agora. E não me chame de capitão aqui, esse posto é do Christian na Seleção --- deixo minha credencial de "não estou aqui pra brincadeira" bem clara desde a primeira frase.--- Sobre o quê, exatamente?Aproximo, a voz baixa o suficiente pra garantir que nenhum microfone escondido capture mais do que eu pretendo entregar.--- Sobre as fotos que você mostrou pra Liah Mendes ontem.O rosto dela não titubeia, os olhos calculistas me medindo com uma curiosidade que eu não esperava encontrar num zagueiro conhecido mais pela força física que pela articulação verbal.--- Interessante você já saber dos detalh
(POV Thiago)Parte 2 - Aquele Que Cuida de TodosChego na sala reservada junto com Daniel, os dois em silêncio pelo corredor, e encontro Christian já sentado sozinho, o joelho balançando de leve num nervosismo que ele não costuma deixar transparecer tão aberto.— Cadê a Liah? — pergunto, preocupado com ela. — Pensei que ela estaria aqui para todos podermos alinhar o que ia acontecer dali em diante.— Liah tá descansando — ele informa antes mesmo de eu perguntar, a voz cansada. — Achei melhor ela não vir. Já sofreu o suficiente por hoje.Faço questão de deixar claro, assim que entro, que já sabia de tudo antes de qualquer um precisar explicar de novo, evitando qualquer rodeio desnecessário num início de tarde que já carrega tensão demais.Pietro é o último a chegar, o terno slim cinza impecável mesmo depois de atravessar meio complexo às pressas, e a cara dele ao entrar já denuncia que mesmo sem saber ele já tá cansado.Fecha a porta, abre o próprio terno, senta à mesa sem cerimônia ne
(POV Thiago)Parte 1 - Eu Preciso de Você LáO treino corre no ritmo tático de sempre, apitos marcando intervalo entre os exercício, o sol forte castigando o gramado americano numa manhã que promete ficar mais quente ainda antes do meio-dia.Acompanho da linha lateral, a maleta médica ao lado, os olhos alternando entre o coletivo e tablet onde anoto carga de treino, rotina que já virei capaz de fazer quase no automático.Christian corre perto da lateral onde estou, o rosto carregando um cansaço que atribuo, sem pensar muito, a mais uma noite mal dormida de concentração — só depois vou entender que já tinha coisa acontecendo e pesando nele.O celular de Daniel vibra no bolso do calção, e ele checa rápido, o corpo travando visivelmente antes mesmo de atender — um tipo de tensão que eu reconheço, porque já aprendi a ler cada variação de postura daquele homem específico.Ele se afasta do grupo, um gesto discreto, murmurando desculpa qualquer pro preparador físico sobre precisar atender um
(POV Daniel)O estádio treme antes mesmo da bola rolar, sessenta mil vozes cantando o hino num volume que sobe pelas chuteiras e some direto no peito.Canto cada palavra com a mão espalmada sobre o escudo, os olhos fixos na bandeira, sentindo o peso de anos de carreira condensado naqueles noventa segundos de hino.Ao meu lado, Christian canta também, o maxilar duro, o olhar já em campo de batalha antes mesmo do apito inicial, e eu reconheço nele o mesmo instinto que carrego desde moleque.O primeiro tempo é osso puro. O adversário fecha o campo com uma disciplina que trava qualquer troca de passe mais ousada, e eu passo os quarenta e cinco minutos gritando marcação, cobrando postura, plantando os pés na grama pesada.— Segura a linha! Ninguém dorme aí atrás! — berro pro Leo, que assente rápido, o rosto ainda tenso da primeira grande estreia de Copa na carreira dele.No intervalo, o vestiário fica em silêncio tático, Christian bebendo água em silêncio, o técnico riscando ajustes no qua
(POV Daniel)Entro no quarto sem acender a luz principal, só o abajur fraco do criado-mudo, o corpo inteiro ainda carregando o calor de um corredor vazio que não devia ter significado tanto quanto significou.Tranco a porta do banheiro por reflexo, mesmo sabendo que tô sozinho no quarto, mesmo sabendo que não tem ninguém pra me flagrar ali dentro além do meu próprio reflexo no espelho grande em cima da pia.A água fria que jogo no rosto não lava nada do que eu sinto, só disfarça por uns segundos o calor que ainda mora na boca, o gosto dele que eu não consigo tirar nem tentando.Encaro o espelho. Trinta anos, o rosto que a Seleção inteira conhece como o Paredão, o cara que não racha, que não some, que segura a porra toda de pé quando o resto do time balança.E ali, sozinho, esse mesmo rosto parece o de um moleque de dezessete anos tentando decorar um discurso que nunca vai ter coragem de dizer em voz alta pra ninguém.
(POV Thiago) O sono não vem, nem depois do abraço silencioso que dividi com Daniel horas atrás, nem depois de mil tentativas de encontrar posição confortável naquela cama de hotel estranha. São três da manhã quando finalmente desisto, levantando devagar, vestindo só uma camiseta e um calção qualquer, decidido a caminhar um pouco pelo corredor até o cansaço físico vencer a insônia mental que se recusa a ceder. O corredor recebe só a luz fraca de emergência, o resto do andar mergulhado em escuridão silenciosa, todo mundo dormindo o sono pesado de quem passou o dia inteiro em treino intenso. Caminho devagar, os pés descalços sentindo o carpete grosso sob a pele, a mente ainda processando a conversa inteira com Daniel, a crise do Christian, o próprio medo que cresce a cada dia que passa nessa concentração compartilhada. No meio do corredor, encontro uma silhueta parada, também insone, também sem ru







