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Uma noite

Author: Roseanaautora
last update publish date: 2026-07-31 11:37:38

Oliver ficou me olhando um tempo. Eu não consegui identificar o que poderia estar passando pela cabeça dele, porque Oliver nunca foi alguém que deixou-se ser lido.

Então, calmamente ele abriu a pasta e verificou rapidamente o que estava escrito.

Levantou os olhos para mim:

— Não quer ficar com nada? Está renunciando aos seus direitos financeiros?

— Exatamente.

— E como você vai viver?

— Irei trabalhar.

Ele deu um sorrisinho irônico antes de perguntar:

— E as crianças?

— Poderemos fazer guarda compartilhada. Ou eu fico com eles e você os vê sempre que quiser. Sei que trabalha muito e pode ser difícil mantê-los na rotina quando estiver viajando.

Oliver pensou um pouco e pegou a caneta, assinando sem hesitar. Depois me entrou a pasta:

— Vamos ver quanto tempo você consegue manter isso.

Eu sorri. Pela primeira vez, em anos, eu me senti fazendo algo realmente importante: tomando de volta tudo que aquele homem me tirou... a minha liberdade, a minha alma, toda a minha essência.

Achei que o dia mais feliz da minha vida tivesse sido o que assinei os papéis de casamento. Mas ironicamente não foi. Foi o que eu assinei o divórcio.

Virei as costas e estava me dirigindo para a porta quando Oliver disse, de forma tranquila:

— Isso é definitivo, Jaqueline. Sabe que não há volta, não é mesmo?

Não virei-me para responder:

— Sim, eu sei.

Sem maiores explicações, não deixei só aquela sala que me sufocou, mas também aquele prédio que sempre me pareceu estranho e que, mesmo depois de tantos anos, nunca pareceu fazer parte da minha vida.

Fui no shopping e sentei-me numa mesa afastada. Pedi comida num fast food, algo que eu nunca tinha feito, pois acreditava que comida não saudável fizesse mal para o corpo. Meu corpo já estava em colapso. Então comer um hamburguer com refrigerante não faria diferença alguma.

Abri meu laptop e comecei a verificar vagas de emprego. Por muitos anos eu abri mão de tudo para ser mãe em tempo integral. Porém, já três anos atrás, comecei uma faculdade de Administração de empresas. Oliver nunca soube. Ele jamais teve tempo para se preocupar com o que eu fazia ou deixava de fazer.

Eu não concluí a faculdade. As crianças começaram a ter crises recorrentes de asma e achei melhor cuidar deles.

 O que restava era tentar uma vaga de estagiária. E não achei isso ruim. Havia muito mais oportunidade de estágios do que de qualquer outra coisa.

Me inscrevi para uma vaga de estagiária de secretária numa empresa chamada A.D. Noire. Eu nunca tinha ouvido falar sobre aquele lugar. Pesquisei na Internet e descobri que era um empreendimento novo, que seria inaugurado em breve. E o ramo com o qual atuaria ainda era um grande mistério, assim como o nome do CEO por trás do negócio.

Esperançosa, mandei meu currículo... aquele que eu praticamente não tinha. E tentei outras vagas disponíveis, porém desejando que eu fosse chamada na empresa nova. Eu gostaria de ter uma experiência nova, numa empresa nova... assim como a nova Jaqueline que começava a viver dentro de mim, mesmo que de forma tardia.

Passei um tempo no shopping, fazendo nada e ao mesmo tempo desejando fazer tudo. E comecei a providenciar um local para morar. Eu aquilo era uma coisa que exigia um pouco mais de tempo. E apesar de tudo, Oliver jamais me expulsaria de casa. Acho que ele compreendia que algumas coisas precisavam de mais tempo.

Não abri mão dos meus direitos financeiros por não querer nada de Oliver. Simplesmente não fazia sentido acumular riquezas quando eu não teria tempo para usufruir delas.

Nunca foi sobre dinheiro. Sempre foi por amor. E agora, em especial, não continuava sendo sobre dinheiro e sim sobre liberdade e caminhar com minhas próprias pernas, provando para mim mesma que eu conseguia sobreviver sem Oliver Bianchi.

Eu sabia que ele jamais deixaria nada faltar aos nossos filhos. Mas aquilo não significava que meu ex-marido tivesse que se tornar meu provedor financeiro mesmo depois de nossos laços serem cortados.

Naquela noite, Oliver estava na sala com Brianna. A mesa de centro estava cheia de fotografias dela e eles as analisavam.

Respirei fundo e falei, fazendo com que ele desviasse brevemente os olhos das imagens para mim:

— Vou sair. — comuniquei.

Oliver arqueou uma sobrancelha, surpreso. Depois voltou-se novamente para as fotos:

— Não fique até muito tarde. Sabe que as crianças precisam ter oito horas de sono.

Eu ri:

— Eles não irão comigo. Sairei sozinha. Zoe e Maicon ficarão com você. — me dirigi para porta — Lembre-se que eles precisam estar na cama às vinte e uma horas. É necessário que tenham oito horas de sono — não consegui conter o deboche — Não tenho hora para voltar. E talvez nem volte hoje.

Quando fechei a porta pesada, ironicamente pareceu que um peso saiu das minhas costas. Doía deixar meus filhos ali, somente com o pai, o que quase nunca acontecia, porque sempre que Oliver estava com eles, eu também estava presente.

Mas era hora de Oliver começar a entender como funcionava a rotina das crianças, pois em breve eu não estaria mais ali para fazer tudo que nossos filhos precisassem.

Brianna também precisava se inteirar de tudo sobre Zoe e Maicon, já que certamente ela os assumiria quando eu partisse. Mas, mesmo sabendo que era inevitável que ela fosse a pessoa a ocupar o meu lugar, eu ainda tentaria, de todas as formas possíveis, encontrar outra mãe para os meus filhos.

Deixar a minha casa, o meu lar e tudo que tinha na vida para trás naquela noite me destruiu. Mas era necessário... por um bem maior... a felicidade das pessoas que mais importavam na minha vida.

Eu queria desesperadamente deixar de amar Oliver. Mas sabia que as chances de aquilo acontecer eram praticamente nulas.

Assim que cheguei no apartamento de Natália, não me contive e caí nos seus braços em lágrimas. Pensei que aguentaria não compartilhar com ninguém a minha sentença. Mas não consegui.

Minha amiga não disse nada. Simplesmente me acolheu em seus braços e chorou comigo.

Não sei quanto tempo ficamos ali, remoendo a minha dor. Tentando desfocar a tristeza e drama que já estavam me cansando, decidi compartilhar com Natália a minha lista.

Ela leu tudo atentamente e me olhou, com um sorriso:

— Ok, vamos para os itens 3 e 5. Hoje você vai beijar na boca e transar com um desconhecido e conhecer o sentido da palavra “orgasmo”.

Eu ri, achando engraçado. Mas Natália não estava brincando. Mesmo sob meus protestos, ela me jogou um vestido que mal taparia meu corpo e pegou uma maleta de maquiagem:

— É hoje que você perde a sua virgindade de verdade, Jack. Ou eu não me chamo Natália Still, sua fada madrinha.

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Comments (1)
goodnovel comment avatar
Sidney Siqueira
chega a ser engraçado, ninguém forçou ela a casar, e a culpa é do Oliver.... agora abrir as pernas para um estranho ^⁠_⁠^
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