MasukO silêncio que se seguiu à proposta de Julian era tão denso que eu podia ouvir o tic-tac do relógio de parede, como se estivesse contando os segundos da minha antiga vida se esgotando. Case-se comigo. A frase ecoava, absurda e tentadora.
Olhei para as mãos de Julian. Eram mãos que nunca tinham pego em um cabo de vassoura ou sentido o peso de uma conta vencida. O que ele sabia sobre precisar de algo? Minha mente viajou para as ruas barulhentas da cidade grande, para o pequeno apartamento onde as paredes pareciam se fechar sobre mim e meu pai. Lembrei-me de Gustavo, o filho do dono da padaria onde trabalhei como atendente. Eu tinha dezesseis anos e um coração cheio de ilusões; achei que os sorrisos que ele me dava entre um café e outro significavam algo. No dia em que tomei coragem para falar o que sentia, ouvi-o rir com os amigos nos fundos da loja, dizendo que "jamais namoraria a menina ruiva que cheirava a pão dormido e tinha as unhas sujas de trabalho". O amor não correspondido por Gustavo me ensinou cedo que, no mundo real, sentimentos eram um luxo para quem tinha tempo. E eu não tinha tempo. Eu tinha uma faculdade de veterinária para pagar, um sonho que parecia cada vez mais distante a cada boleto que chegava, e, acima de tudo, eu tinha a Elena. Minha mãe merecia mais do que um quarto nos fundos de uma mansão e o medo constante de ser descartada como um objeto velho. Eu estava prestes a abrir a boca quando um grito cortou o corredor, vindo de algum lugar perto da escadaria principal. — EU NÃO QUERO DESCULPAS! Se os papéis da venda do gado não estiverem prontos até o jantar, você pode pegar suas coisas e sumir desta fazenda! — A voz era estridente, carregada de uma maldade que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem. Silas. Instintivamente, dei um passo para trás, procurando uma sombra entre as estantes para me esconder. O trauma de saber o que aquele homem fez com a minha mãe me fez tremer. Eu queria sumir, queria ser invisível. Mas, antes que eu pudesse recuar, senti uma mão firme segurar o meu pulso. Julian não me apertou com força, mas o toque foi um comando. Ele me olhou nos olhos, balançando a cabeça negativamente, fazendo sinal para que eu permanecesse exatamente onde estava. Ele não estava com medo. Ele estava com raiva. Julian caminhou até a porta da biblioteca, que estava entreaberta, e a empurrou com toda a força. O baque da madeira contra o batente ecoou como um trovão. Ele fez questão de que Silas, que passava pelo corredor com o rosto vermelho de fúria, o visse ali. Os dois se encararam por um segundo que pareceu durar uma eternidade. Julian não disse uma palavra, apenas sustentou o olhar até que o primo, soltando um resmungo de desprezo, continuasse caminhando. Julian fechou a porta com um clique seco e voltou-se para mim. A arrogância ainda estava lá, mas havia um brilho de urgência por trás dela. — Ele não vai entrar aqui enquanto eu estiver presente — Julian disse, a voz rouca. — Mas ele vai entrar na vida da sua mãe se você não me ajudar a pará-lo. Respirei fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. — Você disse que só pode assumir tudo se casar. Por que seu pai escreveria algo assim? É... medieval. Julian soltou uma risada amarga e sentou-se na beirada da mesa de carvalho, cruzando os braços. — Meu pai era um homem de tradições, Sofia. Ele acreditava que um homem só amadurece de verdade quando forma uma família. Ele tinha medo que eu me tornasse um playboy irresponsável gastando a fortuna em cassinos na Europa. O testamento diz claramente: "A administração plena dos bens da família Lancaster só será transferida ao herdeiro direto mediante a união matrimonial civil e religiosa, comprovando estabilidade moral e social". — E enquanto isso não acontece... — eu completei. — Enquanto isso, o parente homem mais próximo assume como tutor e administrador. No caso, o Silas. — Julian bateu com o punho na mesa. — Ele está sangrando a fazenda. Vendendo terras por baixo dos panos, superfaturando compras. Se eu esperar mais um ano para encontrar alguém por quem eu "realmente me apaixone", não vai sobrar nada para herdar. Nem a casa onde sua mãe mora. Caminhei até ele, parando a uma distância segura. — E se ele descobrir? Se ele perceber que é um teatro? Julian se levantou, ficando tão perto que eu podia ver as nuances de cinza em seus olhos azuis. — Esse é o ponto, Sofia. Se for descoberto que é uma fraude, o testamento prevê a perda imediata de todos os direitos para ambos. Eu ficaria na rua, e você... bem, você seria cúmplice de estelionato. Silas nos destruiria. Ele não ia apenas nos expulsar; ele ia garantir que apodrecêssemos na cadeia ou na miséria. Engoli em seco. O risco era astronômico. Mas então pensei na Elena limpando o chão que Silas pisava, e na chance de nunca mais ter que recusar um livro por falta de dinheiro. — Preciso de garantias, Julian. Não sou uma dessas garotas que você vê em festas. Eu não sei fingir. — Eu te ensino — ele disse, e por um momento, a frieza dele fraquejou, revelando o mesmo desespero que eu sentia. — Você estuda, muda a vida da sua mãe, e eu salvo o meu legado. Dois anos. É tudo o que eu peço. (Pensamento de Julian): {Eu vi o medo nos olhos dela quando o Silas gritou. Ela tremeu como uma folha. Mas quando ela olhou para mim, a determinação voltou. Ela é diferente do que eu imaginei. Ela carrega mágoas que não são dela, e isso a torna perigosa... e perfeita. Eu só espero que ela seja tão boa atriz quanto é teimosa, porque se o Silas sentir o cheiro da nossa mentira, ele vai estraçalhar essa ruiva antes mesmo de eu ter a chance de protegê-la.} — Tudo bem — eu sussurrei, sentindo o peso da escolha cair sobre meus ombros. — Eu aceito. Mas se ele tocar um dedo na minha mãe, o contrato acaba e eu mesma acabo com ele. Julian deu um meio sorriso, frio e vitorioso. — Temos um acordo, "minha noiva".A voz do Pastor Reinaldo ecoava pelo jardim como um eco suave, mas cada palavra parecia carregar o peso de uma promessa eterna no meu peito. Eu olhava para as nossas mãos unidas — a minha, pequena, contrastando com a dele, grande, firme e protetora. — “O amor é paciente, o amor é bondoso...” — o pastor recitava, os olhos sábios fixos em nós dois. — “Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” A verdade. Aquela palavra ecoou na minha mente, fazendo-me olhar bem no fundo dos olhos cinzentos de Julian. Nós havíamos começado tudo aquilo calcados em uma mentira conveniente, em cláusulas rígidas de um papel de gaveta. Mas ali, sob o céu estrelado da Alvorada, cercada pelo perfume das tulipas e pelo calor dos dedos dele, uma chave virou dentro de mim. Eu olhava para o homem ao meu lado e meu coração batia compassado, sem medo. Julian estava impecável. O terno grafite sob medida moldava seus ombros largos perfeitament
Os dias que se separaram do Natal daquela tarde no mirante pareceram passar em um piscar de olhos, como se o tempo estivesse correndo para nos empurrar em direção ao inevitável. E o inevitável havia chegado. Trinta e um de dezembro. Noite da virada. O grande dia. O quarto de hóspedes do casarão parecia o epicentro de uma operação de guerra elegante. Havia caixas de maquiagem espalhadas pela penteadeira, o aroma de fixador de cabelo flutuando no ar e três costureiras dando os últimos ajustes no meu vestido. O acordo feito na tarde de Natal fora cumprido à risca: as mulheres da família e as investidoras francesas que transitavam pelos salões exibiam vestidos longos em tons de esmeralda, azul-noturno e rosa-velho. Ninguém ousaria quebrar o protocolo disse uma das funcionárias. Ajeitei a postura diante do espelho de corpo inteiro. A garota de jeans e botinas de montaria que tira pó e limpava as cocheiras parecia ter sumido, dando lugar a uma mulher que eu mal reconhecia. O vest
O restante da tarde de Natal trouxe uma calmaria há muito esquecida nos corredores do casarão. Com a desgraça política de Silas e o sumiço precoce de Melissa e seus pais, o clima pesado se dissipou. Alguns tios mais próximos a eles, envergonhados pela tentativa de sabotagem, arrumaram as malas e foram embora antes do anoitecer. No entanto, uma boa parte da família e os investidores decidiram ficar para o casamento. A presença deles agora era diferente; os olhares de desconfiança haviam se transformado em respeito. Durante o café da tarde, na varanda interna, as tias de Julian se reuniram ao redor de minha mãe e de mim para alinhar os últimos detalhes da festa. Foi ali, entre xícaras de porcelana e fatias de panetone, que um acordo unânime foi selado: na noite da virada, a única mulher autorizada a vestir branco seria a noiva. Todos os outros convidados deveriam escolher outras cores. Era um gesto simbólico de respeito, uma forma de a família Lancaster se redimir e me colocar,
{POV JULIAN: Me inclinei e depositei um beijo suave em sua testa, um gesto que selava a nossa cumplicidade além de qualquer cláusula legal. — Mas o veneno dele ainda corre pelos corredores em forma de fofoca. Precisamos cortar esses murmúrios antes que o almoço de Natal comece. — Você tem razão. Se nos escondermos, vai parecer que temos algo a ocultar. Vamos descer juntos. Sofia ofereceu seu braço e, com a mão apoiada na curva do meu cotovelo, caminhamos em direção ao pátio central do casarão. À nossa passagem pelo hall, os funcionários que organizavam os arranjos do almoço da família diminuíam o tom de voz, lançando olhares curiosos. Mantive o queixo erguido. Quando saímos para a varanda principal, avistei um grupo de capatazes e ajudantes conversando perto do pavilhão central. Entre eles estava o Seu Beneditino, o funcionário mais antigo e influente da fazenda. — Vamos até lá — murmurei para Sofia. Caminhamos juntos, demonstrando a tranquilidade de um casal em perfeita ha
O silêncio que se instalou na sala do conselho era tão absoluto que o único som audível era o zumbido baixo do projetor contra a parede. Olhei para Silas e vi a cor sumir do seu rosto em tempo real. A empáfia que ele ostentava segundos atrás desmoronou, dando lugar a um vinco tenso entre as sobrancelhas. — O que significa isso? — o Dr. Otávio perguntou, ajeitando os óculos e inclinando-se para a frente, analisando os gráficos químicos na tela. — Que relatório é esse, Julian? — Este é o laudo da análise do copo de água que estava na minha cabeceira na noite passada, doutor — Julian respondeu. A voz dele era um trovão controlado, ecoando pelas paredes da sala de reuniões. — Como os senhores podem ver nos dados técnicos coletados pelo chefe de segurança, o líquido foi contaminado com uma dosagem massiva de acepromazina, um sedativo analgésico de uso estritamente veterinário, extraído do pavilhão de medicamentos dos cavalos. Tudo isso misturado a um destilado de alta gradação para
O silêncio que se instalou na biblioteca era tão denso que eu podia ouvir as batidas descompassadas do meu próprio coração. A foto na tela do celular de Theo parecia uma sentença de morte para tudo o que havíamos construído até ali, mas o brilho obstinado nos olhos do primo de Julian indicava que a guerra estava longe de terminar. — Que notícia, Theo? — perguntei, dando um passo à frente, agarrando-me àquela fagulha de esperança. — O que você conseguiu descobrir? Theo guardou o aparelho no bolso e cruzou os armados, olhando fixamente para Julian antes de responder. — Eu não saí daqui às pressas à toa, Julian. Fui direto me encontrar com o Marcos, o chefe de segurança da fazenda, antes que o Silas pudesse suborná-lo ou apagar os rastros da noite passada. E ele conseguiu. O Marcos acabou de me confirmar que isolou o quarto do Julian e recolheu o copo de cristal que ficou na cabeceira da cama. Eles fizeram um teste químico rápido com o kit de contaminação que temos no pavilhã







