FAZER LOGIN— Então é assim? Você não se importa nem um pouco com o fato de eu ser seu irmão?Pedro perguntou, furioso.Carolina riu.— E você? Em algum momento lembrou que eu era sua irmã? Eu esqueci os últimos anos, mas ainda guardo algumas lembranças da infância. Quando você fazia besteira, quem apanhava era eu. Quando aprontava, jogava tudo nas minhas costas. Se havia três balas, você comia duas. Se havia duas, ficava com as duas também. Você sempre foi egoísta, Pedro. Minhas lembranças podem estar uma bagunça, mas disso eu não tenho dúvida.— Tá. Chega de falar do passado. Eu vou arrumar o dinheiro.Pedro respondeu entre os dentes.Carolina desligou e sentiu uma satisfação limpa se espalhar pelo peito.Ergueu o rosto, deixando o sol tocar sua pele clara.Nos últimos dias, algumas lembranças da infância tinham voltado aos poucos, ainda sem muita nitidez. Quase todas, porém, giravam em torno da mesma coisa: o favoritismo dos pais.Do jeito que estava agora, Carolina já conseguia olhar para aqui
Com o celular na mão, Carolina se levantou e foi até a varanda. Parou sob o sol morno e perguntou, sem pressa:— De quanto estamos falando?Pedro pareceu se incomodar.— Carol, você já está pensando no dinheiro? Essa indenização é do nosso pai.— Se é dele, por que precisam da minha assinatura? Peçam para ele assinar.— É que... Ele está preso.— E daí? Ele não perdeu a capacidade civil. Um advogado pode ir até o presídio colher a assinatura.Do outro lado, Pedro engasgou nas próprias palavras. Tentou encontrar uma saída, mas nenhuma desculpa parecia boa o bastante.Carolina não se lembrava de muita coisa, mas ainda tinha bom senso. E, mais importante, entendia de Direito.— Deixa eu adivinhar. Quando a mamãe ficou doente, ela deixou um testamento? A casa antiga também tem uma parte no meu nome?Pedro percebeu que não adiantava mais esconder. Depois de alguns segundos de silêncio, respondeu a contragosto:— Sim. Quando a mamãe adoeceu, você ajudou com dinheiro, cuidou dela, fez o que p
Enquanto falava, Vanessa já não conseguia segurar as lágrimas. Fungou, tentando se recompor, mas a dor continuava ali, presa na garganta.— E, no fim, foi justamente você que acabou escolhendo o caminho mais difícil. Como mãe, eu vejo tudo isso e sofro cem vezes mais. Para ser sincera, eu tenho até mais medo do que você de a Carol ir embora.Os olhos de Henrique também ficaram vermelhos. Ele se virou, pegou alguns lenços sobre a escrivaninha e enxugou o rosto da mãe com cuidado.— Mãe, por que a senhora tem tanto medo de a Carol ir embora?Vanessa respirou fundo. O suspiro saiu pesado, cheio de uma amargura que vinha de muitos anos.— Porque, nos cinco anos em que ela ficou longe, eu vi aquele meu filho alegre, que vivia sorrindo, sumir pouco a pouco. Você foi ficando calado, fechado, sem brilho nos olhos. Parou de rir, parou de conversar. Depois vieram o cigarro, a bebida... Eu via você se desfazendo por causa desse amor, e aquilo, para uma mãe, era uma dor que não passava. Quantas ve
O olhar de Carolina caiu sobre a mão dele.— Me solta. Vou pedir desculpas ao seu pai e dizer para eles ficarem.— Não é uma disputa para ver quem está certo ou errado. E você não precisa ser a primeira a ceder só porque ele é mais velho.Henrique a levou de volta à mesa, fez com que se sentasse e se acomodou ao lado dela.— Primeiro, termina de tomar café.— Mas seus pais vão embora.— Eles nem moravam aqui. Só vieram porque você estava grávida e queriam cuidar de você.A culpa apertou o peito de Carolina.— Justamente por isso. Não podemos deixar que eles saiam daqui por causa de uma discussão boba. Fica parecendo que fomos longe demais.Henrique pousou a mão sobre a coxa dela, impedindo que ela se levantasse.— Não fomos. Se a gente recuar hoje, amanhã vai ter que recuar de novo. Depois, mais uma vez. E isso nunca acaba. No fim, quem vai ficar engolindo desaforo é você. Prefiro manter distância desses parentes falsos, viver a nossa vida em paz e cuidar da nossa casa. Para mim, isso
Vanessa soltou um suspiro.— Depois do que seu pai fez, até eu perco a coragem de continuar aqui, como se estivesse atrapalhando vocês. Velho desse jeito e ainda cabeça-dura... Carol, não leva isso para o coração. Daqui a pouco ele esfria a cabeça e tudo volta ao lugar.Carolina apenas assentiu.Vanessa se virou e voltou para o quarto.— E eu, Rick?Lívia se levantou na hora, apontou para si mesma e piscou aqueles olhos grandes, redondos, ainda cheia de esperança. Ela claramente não queria ir embora.Henrique respondeu baixo, sem deixar margem para discussão:— Você vai com eles.Lívia fez bico, encheu as bochechas e resmungou, contrariada. Mas, quando olhou para Carolina, a voz voltou a ficar doce na mesma hora.— Carol, eu venho sempre te fazer companhia, tá?Carolina ficou sem jeito.Por causa dela, Henrique praticamente tinha mandado os pais e a irmã embora. Era impossível não se sentir um pouco culpada.— Tá.Ao passar por Carolina, Lívia se inclinou de leve e cochichou, com ar de
Nesse momento, Vanessa também apareceu às pressas. Ao ouvir a explicação de Lívia, parou ao lado deles, de punhos cerrados, com as mãos tremendo de raiva.Ela já havia suportado o irmão mais velho e a cunhada de Saulo por metade da vida. E agora ele ainda queria que a nora passasse pela mesma coisa?Aquilo era demais.Henrique segurou o braço de Carolina e a levou até diante do pai.Carolina achou que ele fosse obrigá-la a pedir desculpas. Com a raiva presa no peito, permaneceu calada, sem dizer uma palavra.Mas Henrique encarou o pai e disse, num tom frio, firme, palavra por palavra:— Pai, aquilo que o senhor considera importante, preserve o senhor mesmo. Se acha que nós estamos destruindo a relação entre o senhor e seu irmão, se acha que estamos prejudicando a união da sua família, então pode fingir que não tem mais este filho. E que também não tem esta nora.Carolina olhou para Henrique, chocada.Saulo se levantou de repente e bateu a mão na mesa.O estrondo assustou Lívia e Caroli