LOGIN“José Miguel”
A música alta retumbando no meu ouvido realmente me incomodava. Eu não sabia como o Matheus, meu melhor amigo, ainda me convencia a ir para esse tipo de lugar. Aparentemente ele ainda não tinha passado da fase das baladas e eu duvidava muito que um dia passasse.
- Vamos, José Miguel, vira logo esse whisky, esquece essa amargura e vamos nos jogar na pista e conhecer as gatinhas! – O Matheus virou o copo de whisky e me encarou.
- Como eu ainda deixo você me arrastar para esse tipo de coisa? A gente não podia ter ido para um bar? – Eu reclamei e ele riu. Mas eu sabia exatamente porque ele tinha me arrastado dessa vez, porque eu só precisava beber depois daquele dia e eu não queria ir para casa e encarar a minha realidade, que era um inferno.
- Eu te arrasto, porque você já não suporta a Carmem! Deixa de ser chato e careta! Anda, vamos! – Ele insistiu, eu virei o copo e saí com ele da área vip em direção à pista de dança.
Eu já havia bebido um pouco além do que estava acostumado, o que me deixava bem mais relaxado e menos propenso a pensar antes de agir. Já o Matheus era o tipo sociável demais, fazia amizade fácil e fazia muito sucesso entre as mulheres. Ele era um cara de boa aparência, sorriso fácil e bom de conversa como poucos.
Nós paramos perto do bar, um pouco antes da pista de dança e o meu amigo deu uma olhada em tudo, foi tempo suficiente para algumas mulheres se aproximarem cheias de sorrisos e tentarem puxar assunto. Mas eu não estava interessado em conhecer ninguém e, enquanto o Matheus sorria para algumas garotas, eu bufei, revirei os olhos e fui para o bar.
Assim que eu encostei no balcão eu notei um cara, um pouco mais adiante, colocar algo numa bebida. Eu observei mais um pouco e a bebida não era dele, claro que não era! Era de uma moça que estava distraída demais com o celular e descuidou do copo. Quando ela levantou o rosto e se virou para pegar o copo, ela parecia estar chorando, o que me intrigou mais ainda. Ela pegou o copo e eu me adiantei, mas quando eu a alcancei ela já tinha tomado um gole.
- Ô, meu amorzinho, não bebe isso mais não! – Eu tirei o copo das mãos dela. – Finge que está comigo, tem um cara atrás de mim que batizou o seu copo enquanto você estava brincando no celular. – Eu avisei e ela estreitou os olhos pra mim, olhando sobre o meu ombro.
- Amigo, j**a isso fora e me vê uma água mineral, por favor. – Eu entreguei o copo ao barman.
Eu coloquei a água mineral nas mãos dela e ela tentou abrir a garrafa, mas não conseguiu. Eu segurei a garrafa entre os seus dedos, rompi o lacre, abri a garrafa e a deixei beber.
- O gosto estava mesmo estranho! – Ela comentou.
- Você está bem? – Eu perguntei e ela me encarou por um momento.
- Estou, obrigada! – Ela sorriu pra mim, tinha um sorriso lindo, mas o sorriso se desfez quando ela viu algo ou alguém atrás de mim. – Quer dançar comigo?
- Ah, querida, desculpe, mas eu... – Eu não tive tempo de responder.
- Moço, por favor! Vê aquele cara com a mulher de vestido neon agarrada ao pescoço dele? – Eu olhei e ela me mostrou o celular. – Ele acabou de me mandar essa mensagem terminando comigo.
- E você respondeu pra ele isso aqui? Que o lance de vocês era casual e que você não queria magoá-lo? – Eu olhei para ela confuso. – Mas você estava chorando.
- Porque não era casual! Pelo menos não pra mim. Ai, me ajuda, você já me salvou uma vez hoje, me salva a segunda. – Ela pediu e eu a olhei por um momento.
- O que você pensa em fazer? – Eu perguntei e ela abriu aquele sorriso lindo de novo.
- Vamos dançar, só finge que está comigo, só pra ele não ficar se achando muito especial. – Ela pediu e dançar não tinha nada demais.
- Tudo bem, vamos dançar! – Eu concordei e ela me puxou para a pista de dança.
Nós começamos a dançar e a batida da música era envolvente, assim como os movimentos que ela fazia. Nós estávamos abraçados, apenas dançando, nossos corpos estavam colados um no outro e se moviam juntos de forma muito sensual. Eu a segurava pela cintura fina e seus braços estavam em volta do meu pescoço, nossos olhos se conectaram e era impossível tirar os olhos dela. Nós dançamos por um tempo, como se estivéssemos presos um ao outro.
E a medida que eu dançava com ela, meus olhos se prenderam em sua boca, pintada de um vermelho quase vinho, que contrastava lindamente com a sua pele clara. Nossos olhos se conectaram e como se estivéssemos em câmera lenta eu fui descendo os meus lábios sobre os dela. Naquele momento eu não pensei em nada, eu apenas a beijei.
E que beijo! Um beijo quente e pulsante, seguindo a batida daquela música eletrônica, meus braços a prenderam contra mim e a minha língua invadiu a sua boca com uma vontade que eu já não sentia há muito tempo. Ela correspondeu com o mesmo furor, com a mesma vontade. Seus lábios se moviam com os meus e nossas línguas duelavam, e o gosto do whisky em minha boca se misturava com o sabor do gin na boca dela. Nossas respirações estavam sincronizadas e nossos corpos ainda se moviam na batida da música.
Eu ergui uma das minhas mãos até o cabelo dela e o toquei, tão macio e sedoso! Eu enfiei os meus dedos entre os fios e segurei a sua nuca, posicionando a sua cabeça para um ângulo ainda melhor, um em que minha língua possuísse a sua boca toda.
Mas alguém esbarrou em nós e a conexão daquele beijo se quebrou. Quando eu vi que quem tinha esbarrado em nós era justamente o idiota que a dispensou, eu sorri e a beijei outra vez. Eu só queria mais um pouco daquilo que eu não sentia há tanto tempo, queria mais daquele beijo que me fez esquecer tudo, que me fez esquecer todas as minhas obrigações e todos os compromissos. Eu a puxei para um canto e a encostei contra a parede, só para poder beijá-la outra vez, e eu nem sei por quanto tempo ficamos ali nos beijando, mas quando eu consegui pensar em algo mais do que beijá-la, seus lábios já estavam inchados pela reivindicação feita pelos meus beijos exigentes.
- Quer sair daqui comigo? – Eu perguntei num ímpeto, sem pensar em mais nada, embriagado que estava, não apenas pelas várias doses de whisky que eu já tinha tomado, mas por aqueles beijos e pela linda mulher em meus braços. Eu já estava cansado de pensar demais sempre. Ela apenas fez que sim e nós saímos juntos da boate.
Talvez eu estivesse cometendo um grande erro, mas eu esqueci de tudo, eu só queria um pouco mais daquela mulher linda que estava comigo. Eu a levei comigo para o meu apart hotel, havia um desejo pulsante entre nós, como se a batida eletrônica da música na boate ainda reverberasse em nossos corpos e durante o percurso da boate até o apart não houve palavras apenas beijos trocados em sinais vermelhos.
Nossas roupas foram arrancadas pelo caminho da porta até a cama e quando eu a puxei para a cama comigo eu estava completamente perdido em seus beijos, seu corpo e o seu perfume de sândalo, com um toque floral, me deixaram completamente enfeitiçado e eu não pensei em mais nada, sequer perguntei o seu nome. Eu possuí o seu corpo do mesmo modo que possuí a sua boca, com o mesmo furor, a mesma necessidade. Ela era linda, deliciosamente provocante, absurdamente sensual.
Foi uma noite simplesmente inesquecível. Há muito tempo eu não sentia tudo o que senti com aquela mulher linda, há muito tempo o meu corpo não reagia com tanto desejo por uma mulher, há muito tempo eu não quebrava as regras.
Mas quando eu acordei na manhã seguinte, eu estava sozinho na cama, o perfume dela impregnado no meu corpo e nos lençóis e sobre o criado mudo um bilhete: “obrigada pela noite espetacular”. Foi tudo o que restou dela, nem um nome ou um número de telefone. E talvez fosse melhor assim, porque eu já tinha cometido um erro grande demais ao passar a noite com aquela mulher.
"Giovana"A vida tem um jeito muito próprio de fechar os seus ciclos e nos lembrar de que nenhuma tempestade dura para sempre, tampouco pode nos afogar quando a gente se cerca das pessoas certas. Eu, com certeza, estava cercada pelas melhores pessoas e por muito amor.Meu filho já estava prestes a completar um ano. Ele era uma réplica minúscula do pai. Os mesmos olhos sérios, a mesma calma e aquele jeito ordenado e observador. Desde aquela noite em nossa casa, quando descobrimos que o nosso bebê estava a caminho, o nosso mundo se transformou por completo e nos jogou na operação mais exaustiva, recompensadora e barulhenta das nossas vidas: a paternidade em dose dupla na família. Quantas noites o Rui e o Anderson ninaram as crianças no corredor de madrugada para que a Bianca e eu pudéssemos dormir depois de amamentar; quantas vezes eu peguei o meu filho dormindo no peito do pai exausto e o levei para o berço; quantas vezes o Tio Rubens, o Bóris e o meu pai apareceram, "sequestraram" as
"Giovana"O Anderson piscou devagar, como se tentasse decifrar uma mensagem em outra língua. Ele olhou para mim, olhou para as três caixas em cima da mesa de centro, voltou a me encarar e passou a língua levemente pelos lábios, como se estivessem ressecados. - Enjoada... com o cheiro dos croissants? - Ele repetiu, a voz saindo num sussurro.- Sim, Gracinha. - Eu limpei uma lágrima teimosa que tinha escapado e apertei a mão dele. - Meu implante contraceptivo não venceu há duas semanas. Eu olhei a agenda. Ele venceu há três meses. Eu cometi um erro, perdi o prazo e... aconteceu. Quando você pensou que eu estava grávida lá atrás, você jurou que estaria comigo. Agora eu preciso que você realmente esteja, que... - minha voz caiu para uma súplica quase inaudível. - Eu preciso que você continue me amando do mesmo jeito, mesmo que eu tenha feito uma grande bagunça.A ficha dele finalmente caiu. Eu vi a postura rígida e controlada do Anderson desabar por completo na minha frente. Eu vi os olh
"Giovana"A placa sobre a minha mesa com o nome Delegada Cavalcante brilhava com o reflexo da luz da tarde que entrava pela jenela, mas para a equipe inteira daquela delegacia eu continuava sendo a Delegada Ferinha. E eu gostava de ser a Delegada Ferinha! Havia se passado pouco mais de um ano desde que eu ocupei a vaga de delegada aqui e o Bonfim tomou posse como Delegado-Geral. Um ano em que a nossa rotina tinha se estabilizado de forma perfeita: eu comandava as investigações e aprendia tudo o que o Flávio podia me ensinar, e o Anderson brilhava no Ministério Público, seu trabalho sendo reconhecido cada vez mais, o que me dava um orgulho absurdo. Nós éramos perfeitos juntos, nos entendíamos no olhar e ele era sempre tão atencioso as menores coisas que me emocionava. Ontem mesmo eu caí no choro quando cheguei em casa exausta e ele me carregou da porta até o sofá, tirou os meus coturnos e massageou os meus pés, beijando cada um com reverência. Droga, eu estava ficando molenga e choro
"Giovana"Era como se a mulher a minha frente fosse alguém totalmente diferente, mais discreta, mais elegante e certamente mais agradável. Eu não via a Maya há muito tempo. Tudo o que eu soube foi que ela tinha trancado a faculdade faltando poucas matérias para se formar e nunca mais voltou. - Ah, qual é Giovana, sua língua é mais afiada que isso. Vai, pode mandar, fala o que você está pensando. - Ela sorriu e abriu os braços mostrando que estava pronta para receber as minhas implicâncias. - Tá... mas depois não reclama. Eu sempre quis saber, o que aconteceu com o trabalho de conclusão de curso. Você agarrou a posse e propriedade? - Eu sorri, me lembrando da última vez que tinha falado com ela. - Ridícula! - Ela riu. - Eu fiz melhor. Enquanto eu estava olhando para aquele quadro e tentando engolir aquele tema, a caloura mais abusada e irritante que eu já vi na vida resolveu aparecer para pegar no meu pé. Mas, eu não sei se foi sem querer... ou se foi querendo... acontece que ela me
"Giovana"Antes que eu pudesse chorar mais um pouco, o Felipe e a Juliana se aproximaram de nós segurando taças de água. O Felipe estava com aquele sorriso enigmático típico dele, cutucando o sogro com o cotovelo. Ele não dava um minuto de paz para o Bonfim e o Bonfim fingia que não gostava, mas se o Felipe passava uma tarde sem ligar para ele, ele acabava resmungando ordens mau humoradas na delegacia para todos nós.- É uma noite de grandes anúncios para a Segurança Pública, hein, sogrinho?! - O Felipe começou, com um brilho puramente atrevido nos olhos, piscando para a Juliana. - Meus parabéns! - Ele bateu a mão nas costas do Bonfim e o puxou para um abraço.- Moleque atrevido! Não larga essa mania de me chamar de sogrinho. - O Bonfim resmungou, mas abraçou o Felipe dando tapinhas nas costas. - Ah, mas pelo menos se tornou responsável e não bebe mais e nem deixa a minha Jujubinha beber. Vem, filhinha do papai, dá um abraço. - O Bonfim puxou a filha para um abraço sentimental e, não
"Giovana"O evento da noite era algo do qual eu não esperava participar um dia, muito menos tão no início da carreira, mas me fez perceber que conhecer algumas pessoas faz portas se abrirem mais fácil. A atmosfera no grande salão de convenções do Palácio do Governo era de pura imponência entre festa e solenidade. Dezenas de oficiais da Polícia Militar com fardas de gala, políticos, Promotores de Justiça, Juízes e o alto escalão da Polícia Civil preenchiam o espaço sob o brilho dos lustres de cristal. Aquele lugar não se chamava palácio à toa, era riquíssimo em arquitetura e decoração, realmente imponente. O Anderson estava impecável ao meu lado, de terno escuro, cumprimentando membros do judiciário com uma desenvoltura impressionante e atraindo os olhares de respeito, ele já era o jovem Promotor de Justiça que se destacava pela competência e dedicação. Ele me apresentava com um orgulho que brilhava na sua voz e nos seus olhos. Eu não era apenas a esposa, ele fazia questão de dizer q







