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Capítulo 3

Author: Maluquinha
Um corte de vinte centímetros, a carne aberta, dilacerada, e sangue demais perdido.

Enquanto me repreendia por eu ter negligenciado o ferimento e demorado tanto para procurar ajuda, o médico preparava a anestesia para dar os pontos.

Segurei a mão dele e murmurei:

— Sem anestesia.

Eu queria carregar aquela dor comigo para sempre, lembrar das humilhações que havia sofrido ao longo daqueles anos e nunca mais ceder. Nunca mais voltar a olhar para trás.

Depois de sair do hospital, procurei um advogado para redigir o acordo de divórcio.

Assim que voltei à mansão, fui levada pelos seguranças até o porão.

No porão, havia apenas uma mesa coberta por folhas de papel.

Nos meus ouvidos, o som dos fogos de artifício ecoou durante a noite inteira.

Ainda no hospital, eu soube que Thiago, preocupado com a possibilidade de Manuela ter se machucado, mandou trazer de helicóptero especialistas de várias partes de Santa Aurora.

Depois de confirmar que Manuela estava bem, ele ainda mandou soltar fogos pela cidade inteira para comemorar.

Passei cinco dias no porão. Quando terminei de copiar metade da Bíblia, finalmente me deixaram sair.

Thiago girava o rosário entre os dedos enquanto me encarava com um olhar gelado.

— Você ainda não vai agradecer à sua irmã por ela ser tão bondosa e não querer levar isso adiante?

Apertei os lábios, sem a menor vontade de falar.

Manuela veio até mim segurando uma xícara de café e disse, sorrindo:

— Irmãs de verdade não guardam rancor por muito tempo, não é? Carolina, beba esta xícara de café, e eu vou entender que você me perdoou. Pode ser?

Sob o olhar de advertência de Thiago, não tive escolha a não ser estender a mão para pegar a xícara.

Antes que eu sequer encostasse nela, o café foi derramado. Manuela aproveitou o movimento para recuar alguns passos e cair nos braços de Thiago.

— Carolina, você não quer me perdoar? Eu preparei este café especialmente para você. Era o que você mais gostava de beber antes. Por que precisa desprezar assim a minha boa vontade?

Eu não entendi do que Manuela estava falando. Afinal, beber café sempre foi uma das coisas que eu mais detestava.

Thiago me olhou com o rosto tomado pela decepção.

— Carolina, você realmente não sabe reconhecer o que fazem por você! Tem ideia de quanto Manuela se esforçou para moer esses grãos? A água até foi fervida por ela. Hoje, você vai beber esse café, querendo ou não!

Dizendo isso, Thiago chamou dois seguranças, que me seguraram um de cada lado.

Ele ordenou que abrissem minha boca à força, pegou a cafeteira sobre a mesa e despejou o líquido fervente dentro da minha boca.

Quando um vapor branco subiu, misturado ao cheiro de carne queimada, Thiago finalmente entrou em pânico e soltou a cafeteira.

— Carolina, você está bem?

Cobri a boca com as mãos e rolei pelo chão, gemendo de dor. Minha garganta queimada transformava meus gritos em sons roucos e ásperos, como o lamento de uma fera ferida.

Ao ver minha situação, Thiago, aflito, me ergueu nos braços para me levar ao hospital. Então, cuspi sangue e apaguei completamente.

Quando acordei, estava no hospital. Thiago permanecia ao lado da minha cama, com o rosto exausto enquanto esfregava o canto dos olhos.

— Desculpe. Eu não sabia que o café que Manuela tinha preparado ainda estava tão quente. Já conversei com ela, então não a culpe. Fique tranquila, chamei os melhores médicos para cuidar de você. Seu rosto não ficará com cicatrizes.

Com o olhar vazio, encarei o teto sem qualquer expressão.

As lágrimas escorreram pelos cantos dos meus olhos. Eu estava naquele estado, e a primeira reação de Thiago não foi se preocupar comigo, mas me pedir que eu não culpasse Manuela.

"Carolina, ah, Carolina... Como você deixou sua vida chegar a esse ponto?"

Com a voz rouca, eu disse:

— Thiago, me deixe em paz. Eu libero vocês dois.

Mas Thiago pareceu não ouvir. Recebeu uma ligação de Manuela e saiu do quarto.

Tateei o criado-mudo em busca do celular e pedi que trouxessem até mim o acordo de divórcio.

Nos dias seguintes, Thiago ficou ao meu lado, mas eu não queria dizer uma única palavra a ele.

Até que, certo dia, ele perdeu completamente a paciência.

— Carolina, será que você pode parar com esse drama? Foi apenas um ferimento. Você sabe o quanto Manuela tem se culpado nesses últimos dias? O que exatamente eu preciso fazer para você parar com isso?

Tirei duas vias do contrato de cima do criado-mudo e as entreguei.

— Assine isto.

Ao ver o contrato de compra de imóvel na capa, Thiago soltou um suspiro de alívio. Pegou a caneta e assinou seu nome rapidamente.

— Pronto. Cuide bem da sua recuperação. Vou ficar um pouco com Manuela.

Ao olhar para aquela assinatura, finalmente sorri.

O que Thiago não sabia era que, entre aqueles papéis, havia um acordo de divórcio.

Finalmente, eu estava livre. Em seguida, liguei para a diretoria da empresa.

— Sobre aquela proposta que o senhor me fez antes, de entrar na empresa de design no exterior... Eu aceito.

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