LOGINImplorei ao meu marido trezentas e quatro vezes até que ele finalmente concordasse em me acompanhar para levar meu pai ao mar, em sua última jornada nesta vida. Mas, enquanto eu estava na praia e o calor do corpo do meu pai esvaía-se pouco a pouco na cadeira de rodas. Não vi nem sinal do meu marido. A amada dele publicou uma foto nas redes sociais. Era uma imagem dos dois olhando as nuvens nos vales. [Longe do mundo, basta ter você.] Meu dedo escorregou e acabei curtindo a foto. Imediatamente, recebi uma mensagem dele me questionando: — Quantas vezes já te disse para não incomodar a Rita? Se não consegue controlar as próprias mãos, nós vamos nos divorciar! Já nem me lembro de quantas vezes ele usou o divórcio para me ameaçar. Eu, Laura Souza, já estava farta de escutar aquilo. — Tudo bem, vamos nos divorciar.
View MoreCarlos balançou a cabeça de um lado para o outro. — Eu pedi separado para a equipe, a deles ainda não chegou.Diante dessa desculpa, eu fiquei sem jeito de recusar.Nós dois nos sentamos no chão do corredor, comendo pedaços de pizza, e a sensação era de termos sido transportados de volta aos tempos da faculdade.Como era estritamente proibido comer dentro do laboratório, sempre que a fome batia forte, o jeito era devorar os lanches escondidos no corredor.E, em todas as vezes, o professor acabava nos pegando no flagra na hora de voltar.Carlos carregava no currículo exatamente o mesmo tipo de experiência, e através dessa memória afetiva, partilhamos as noites de sofrimento e as crises de choro da nossa jornada de mestrado.Nossas gargalhadas ecoavam pelo corredor, incentivando um desfile ainda maior de velhas histórias.Essa leveza toda só foi estraçalhada no instante em que as pontas dos sapatos de couro de Cláudio surgiram no nosso campo de visão.Ele trazia uma marmita térmica nas m
— Uma mulher, como é que vai entender de química!— Ela é a estudante pela qual o orientador da Universidade Zeus praticamente implorou para que aceitasse o doutorado direto. As publicações dela em revistas de prestígio superam e muito o número de contratos que você já assinou na vida.Cláudio avançou por trás de mim e colocou a mão no meu ombro.— Se ela não entende, você é que entende?O investidor, estupefato ao encará-lo, gaguejou com a voz trêmula: — Diretor Alves... Então, quer dizer que vocês já se conhecem.— Ela é a minha esposa. — Cláudio disse, virando o rosto na minha direção com o peito estufado, como se estivesse mendigando um elogio.— Eu não sou.O sorriso no rosto de Cláudio se congelou imediatamente.Ele tentou abrir a boca para dizer mais alguma coisa, mas uma mão desconhecida retirou bruscamente o braço dele que repousava no meu ombro.Um homem que eu não conhecia entrou no local, lançou-me um sorriso caloroso e se apresentou: — Você é a assistente do Sr. Artur? Mui
Para acompanhar o ritmo do professor, fui forçada a varar noites estudando para recuperar o tempo perdido.Mas, felizmente, as coisas que a gente já aprendeu não são tão difíceis de relembrar.O trabalho como assistente não era exaustivo. O professor continuava dando as aulas, enquanto eu ficava encarregada de lidar com a parte burocrática e os contatos com as empresas.Apesar de nunca ter trabalhado oficialmente no Grupo Alves, eu estava acostumada a ouvir as reuniões por telefone que Cláudio fazia em casa.Quando peguei o jeito, percebi que havia absorvido muito daquilo por convivência, fazendo com que as tarefas se tornassem fáceis de dominar.Agendar almoços de negócios com investidores já não era novidade alguma.No entanto, jamais imaginei que iria reencontrar Cláudio justamente em uma dessas ocasiões.Já fazia quinze dias desde a minha separação de Cláudio.Faltava um certo tempo para a audiência no tribunal. Eu não o havia procurado, e Cláudio também não entrou em contato comig
— Você se mudou?Fiquei surpresa que ele tivesse percebido tão rápido.Afinal de contas, a única coisa que eu havia levado era o presente de casamento que meu pai nos deu.Era uma escultura de madeira que sempre ficava no hall de entrada.Sempre que ele chegava em casa, costumava pendurar o chapéu e o cachecol nela.Eu achava que, para ele, aquilo já tinha virado um objeto de decoração qualquer.— Sim.Eu respondi num tom frio.O silêncio tomou conta da linha, e, após um longo tempo, cheguei a pensar que ele tivesse desligado.Só então Cláudio abriu a boca, com a voz ligeiramente rouca.— Volta para casa, tudo o que eu disse foi da boca para fora.Era o tom mais suave que eu já tinha escutado dele, carregando até mesmo um certo desespero de quem implorava.A pessoa que, algumas horas atrás, dizia que eu não era digna, agora estava ali, se humilhando daquele jeito.— Eu ter pedido o divórcio não foi exatamente o que você sempre quis? Do que você está reclamando?— Não... A Rita e eu não












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