Compartilhar

Capítulo cinco

Autor: Lisa
last update Data de publicação: 2026-01-15 04:12:18

Arrumo o quarto de Lilian enquanto ela termina o café da manhã que a senhora Mônica preparou. O cômodo ainda cheira a xampu infantil, misturado com aquele perfume doce e suave que parece seguir a menina pela casa inteira.

Cuidadosamente, coloco seus ursinhos de pelúcia alinhados sobre a cama, como se estivessem em uma pequena reunião particular. Guardar os brinquedos no baú é quase um exercício de delicadeza; cada peça parece ter uma história, um toque recente das mãos pequenas que os espalham pelo chão. Por fim, confiro os materiais, fecho sua mochila e a deixo prontinha ao lado da porta.

— Laura, acabei! — a voz fininha ecoa pelo corredor antes de ela aparecer no batente.

Viro-me, e meu sorriso nasce sem esforço algum. Lilian surge com os cabelos ondulados desarrumados, caracóis apontando em direções aleatórias como se tivessem acabado de travar uma batalha com o travesseiro. Seus olhinhos brilham ao me ver, pura energia e expectativa.

E então – como acontece às vezes, sem aviso – algo dentro de mim se desloca.

A forma como ela me chama. O sorriso fácil. Os cabelos bagunçados. A casa cheia de vida com risadas correndo por corredores…

No mesmo instante, a lembrança dela se impõe diante de mim, vívida demais.

É como se alguém abrisse uma porta que eu mantive trancada com todas as minhas forças.

Por um breve segundo, quase vejo o fantasma da minha irmã — sua voz ecoando, me chamando. E então o grito. Aquele grito. Aquele que nunca consegui esquecer.

Meu coração despenca e dispara ao mesmo tempo, como se o chão tivesse sumido sob meus pés.

— Laura? Está tudo bem? — ouço a voz de Lilian, distante, como se viesse debaixo d’água.

O mundo estreita. Seguro-me na quina da cama, sentindo minhas pernas ameaçarem ceder. Minha respiração falha, fica presa na garganta enquanto uma cena que tento enterrar surge completa diante dos meus olhos: o calor cruel das chamas, a fumaça, o cheiro insuportável misturado ao desespero.

"Laura, me ajuda!"

A ilusão perfura meu peito.

Com o pouco de controle que ainda tenho, viro e saio do quarto, não querendo — não podendo — deixar Lilian me ver assim. Cada passo parece arrastado, os corredores se alongam, e eu apoio a palma na parede, tentando ancorar a mim mesma. Sinto-me tonta, vazia, à deriva no passado.

— Sinclair! — uma voz firme me alcança, junto ao toque quente que segura gentilmente meu braço.

Engulo seco, tentando me recompor antes mesmo de olhar para cima.

— Sinclair, você está bem? — a voz repete, mais próxima, mais humana.

Levanto o olhar e encontro os olhos intensos do meu chefe — olhos que agora carregam preocupação evidente, embora ele tente mantê-la oculta atrás de um semblante sério.

Droga, Laura. Respira. Se recomponha.

Puxo o ar devagar, como se cada movimento do pulmão fosse um esforço hercúleo. Endireito a postura, mesmo com as mãos tremendo.

— Está tudo bem — digo, engolindo o tremor na voz. — Foi só uma tontura.

Ele não parece totalmente convencido.

— Você já tomou café? — pergunta, sem rodeios.

Balanço a cabeça em negação.

Antes que ele diga algo, a voz de Lilian corta o ar:

— Papai!

E assim que ela fala, o homem à minha frente muda.

É como observar o mar depois de uma tempestade: a tensão se desfaz, o olhar se suaviza, os traços duros cedem.

Liam Carter vira-se, e um sorriso leve — raríssimo — nasce em seus lábios.

— Bom dia, meu amor — diz, agachando-se para receber a menininha que já corre para seus braços.

Eles se envolvem em um abraço tão apertado que parece selar o mundo inteiro do lado de fora.

— O senhor não tomou café comigo hoje! — Lilian reclama, com os bracinhos cruzados, expressando a indignação do jeito mais adorável possível.

Ele passa a mão pelos cachos rebeldes dela.

— Me desculpe, querida. O papai estava muito cansado e dormiu um pouco mais hoje.

Ela aceita a explicação com um aceno de cabeça e então me olha, caminhando em minha direção. Sem aviso, abraça minha perna com força.

— Você tá bem, Laura? — pergunta, com a voz preocupada.

Forço um sorriso, acariciando seus cabelos.

— Foi só uma tontura, prometo.

Ela então se vira para o pai, dedo em riste, indignada novamente:

— Papai, briga com a Laura! Ela cuidou de mim e não cuidou dela! Não comeu nada!

Quase rio — se meu corpo ainda não estivesse tremendo por dentro.

Liam se levanta. Agora ele é o CEO novamente: postura ereta, voz firme, decisão absoluta.

— Pode ir se alimentar, Laura. Eu vou trocar a Lilian e levá-la à escola.

Abro a boca para contestar — afinal, é parte do meu trabalho — mas ele já levanta a mão, cortando qualquer protesto.

— É uma ordem — diz, a voz grave e, estranhamente, cuidadosa.

Sem esperar resposta, ele pega a mão da filha e entra no quarto, deixando-me no corredor, respirando fundo e tentando juntar as partes de mim que ainda tremem.

...

Levanto-me da cama lentamente, como se cada músculo do meu corpo avisasse que a noite ainda não terminou. Caminho até a porta, prestes a sair, mas algo me detém: minha roupa. Olho para baixo e vejo o tecido leve do baby doll — quase idêntico ao de ontem, porém agora de um vermelho mais ousado, profundo, como vinho.

E agora?

Meu estômago se revira.

Se eu esbarrar com ele de novo… com certeza vai querer arrancar minha pele com o olhar. Ou pior, fazer outro comentário sobre o modelito.

Volto alguns passos apressados e entro no banheiro. Puxo o roupão pendurado na porta, embrulho-me nele como se fosse uma armadura improvisada e respiro fundo antes de sair novamente.

O corredor está silencioso, embalado pelo escuro da madrugada. Uma luz única corta essa tranquilidade: o brilho amarelado do escritório — acesa.

Claro.

Caminho nas pontas dos pés até a porta e, sentindo-me clandestina, espio pela pequena fresta da fechadura.

Lá está ele: sentado à mesa, os cabelos desalinhados, olhar fixo no computador enquanto a outra mão escreve algo em um bloco. Nenhuma pausa, nenhum cansaço evidente. Seu maxilar marcado, a postura perfeita, o silêncio brutal.

Esse homem parece realmente uma máquina — como se dormir fosse apenas um mito para ele.

Desvio o olhar e vou até o quarto de Lilian. Abro a porta devagar, o suficiente para deixar uma linha de luz entrar. Ela está deitada no centro da cama, abraçada a um ursinho, a respiração calma, inocente. Um anjinho.

E sem nem perceber, me inclino e deposito um beijo suave em sua bochecha morna.

Eu não devia.

Mas meu coração faz antes que minha cabeça pense.

Saio no mesmo silêncio e sigo para a cozinha. Acendo a luz mais fraca que encontro e pego um copo, enchendo-o com água gelada. O barulho do líquido quebrando o silêncio parece alto demais.

Então — de repente — tudo apaga.

A cozinha mergulha em escuridão absoluta.

Droga.

Nem uma fresta, nem o relógio piscando.

A escuridão é tão densa que parece me engolir.

— Ótimo. Acabou a energia da rua inteira — murmuro para mim mesma.

Estendo a mão à frente, tentando sentir o caminho de volta, tocando o vidro frio, depois o balcão. Algo mais denso, mais… macio? Algo rígido sob meus dedos, mas quente.

Passo a mão pela lateral, tentando descobrir ignorada o que é e então

— Você desligou a chave de luz de propósito para passar a mão no meu abdômen? — a voz grave dele explode atrás de mim, tão perto que sinto o ar vibrar contra minha nuca.

Solto um grito, mais de susto que outra coisa, e no segundo seguinte sua mão tapa minha boca.

— Silêncio, vai acordar minha filha — ele sussurra, quente e firme.

Meu coração tenta escapar do meu peito.

Tiro sua mão devagar.

— Eu não sabia que era você — digo baixo, quase ofegante. Minha voz treme. Droga.

Ele fica em silêncio por um momento.

Lembro que sequer consigo vê-lo, mas o sinto ali. A respiração, a presença, o calor — imenso e sólido.

— Parece que vai cair uma tempestade — ele murmura, como se comentasse o clima em pleno fim do mundo.

Dou um passo para trás, tentando seguir até o quarto, mas tropeço — e ele me segura no ar, com precisão que parece prática.

— Você não consegue ficar quieta, Sinclair? — Ele reclama, irritado. Mas há algo mais na voz — cansaço… ou expectativa?

— Me dá agonia ficar no escuro assim. Eu só vou tentar ir pro meu quarto e dormir — sussurro, tentando soar sensata.

Mas antes que eu dê outro passo, ele segura meu braço — firme, quente — e me puxa de volta, me girando até que meu quadril se prense contra o balcão frio.

Meu ar simplesmente para.

— A senhorita vai ficar bem quietinha aqui — ele diz, com os lábios tão próximos que sinto o calor das palavras na minha pele.

Minha boca seca instantaneamente.

Ele está muito, muito perto.

— O senhor precisa estar tão próximo de mim assim? — murmuro, sem perceber que falei até ouvir o som.

Ele ri — um som baixo, rouco, perigoso.

— Chama isso de estar próximo? — ele pergunta.

E antes que eu possa processar, seu corpo encosta no meu, firme, sólido, real.

Uma mão sobe até meu rosto, os dedos tocando meu queixo, a outra pressiona minha cintura, me segurando ali, prisioneira da escuridão e dele.

Meu coração perde qualquer ritmo lógico.

— Senhor Carter… — suspiro.

— Isso é estar próximo, senhorita Sinclair — ele sussurra, com a voz grave demais para ser segura.

Seu rosto desliza perto do meu pescoço e sinto sua respiração quente bater na minha pele. Meu corpo inteiro arrepia, explosivo, sem filtros. O toque leve do seu nariz na minha clavícula faz meus joelhos quase cederem.

E, de repente, aquele cheiro.

Aquele aroma amadeirado, levemente cítrico. Eu conheço esse cheiro.

De onde?

Uma memória tenta emergir do breu da minha mente, mas escapa. Como um nome na ponta da língua.

Sem pensar, ergo o pescoço, abrindo espaço para ele — como se meu corpo respondesse sozinho, como se quisesse ser descoberto.

Quando seus lábios roçam minha pele, perco qualquer fio de lógica. Minhas mãos vão até seus braços, segurando-o, impedindo que ele se afaste.

E é nesse exato segundo que a luz volta.

O mundo explode em claridade.

Piscamos ao mesmo tempo.

E eu o vejo — completamente colado a mim, os olhos intensos, a boca a centímetros da minha.

Ele pisca, se afasta devagar e quando fala, é com a voz mais controlada que ouvi nele:

— Estou curioso para saber qual vai ser a cor do pijama de amanhã.

E simplesmente vira as costas, subindo as escadas como se não tivesse acabado de incendiar o ar entre nós.

Fico parada ali, com o coração pulando do peito, os dedos tremendo, o roupão meio aberto.

Olho para baixo e vejo a renda vermelha aparecendo.

Droga, Laura.

O que você está fazendo?

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Apaixonada pelo meu chefe    Extra parte 3 - Laura

    Coloquei minha filha na cama com o mesmo ritual de todas as noites, como se o mundo precisasse dessa pequena repetição para continuar girando no eixo certo. A luz do abajur em tom amarelado deixava o quarto macio, quase etéreo. Ela já não era um bebê, mas ainda carregava aquele ar de quem confia completamente que alguém vai estar ali quando acordar. — Mamãe… — murmurou, com a voz sonolenta. Aproximei-me mais, ajeitando o cobertor sobre seu corpo pequeno. — Tô aqui, meu amor. Ela sorriu de olhos fechados, segurou meu dedo com força por alguns segundos e depois relaxou, entregue ao sono. Fiquei observando seu peito subir e descer, sentindo aquela gratidão silenciosa que só a maternidade ensina. O tipo de gratidão que não pede nada em troca. Apaguei o abajur com cuidado e fechei a porta devagar. O corredor estava em silêncio, exceto por um feixe de luz que escapava por baixo da porta do escritório. Sorri sozinha. Mesmo depois de tantos anos, Liam ainda tinha dificuldade em simplesm

  • Apaixonada pelo meu chefe    Extra parte 2

    LilianVoltar para casa dos meus pais ainda provoca em mim a mesma sensação de quando eu era criança: como se o mundo diminuísse de tamanho e ficasse mais fácil de caber no peito.Estacionei o carro em frente ao portão branco, agora um pouco mais gasto pelo tempo, mas ainda tão familiar. Respirei fundo antes de descer. Eu podia resolver isso sozinha — eu sempre podia —, mas a verdade é que algumas perguntas só fazem sentido quando feitas às pessoas certas.E, para mim, Laura sempre foi a pessoa certa.A porta se abriu antes mesmo de eu tocar a campainha.— Lilian! — a voz dela veio carregada de alegria, do mesmo jeito de sempre.Laura estava ali, com o cabelo preso de qualquer jeito, uma camiseta larga e aquele sorriso que nunca mudou. O tempo passou, sim, mas nela parecia ter deixado apenas marcas suaves: um olhar mais sereno, gestos mais seguros, uma paz que não existia nos primeiros anos em que entrou na nossa vida.— Mãe… — chamei sem perceber, e sorri logo depois.Ela abriu os br

  • Apaixonada pelo meu chefe    Extra parte 1

    Lilian Eu sempre soube que algumas histórias começam antes mesmo de entendermos o que é começo.Quando penso na minha infância, as memórias não vêm em ordem. Elas vêm em sensações. O cheiro de café pela manhã. O barulho suave de passos no corredor. Uma risada baixa tentando não acordar ninguém. E, acima de tudo, a certeza absoluta de que eu estava segura.Demorei anos para entender que essa segurança tinha nome. Laura.Hoje sou adulta. Tenho minhas próprias chaves, meus próprios silêncios, minhas próprias cicatrizes. Mas, quando fecho os olhos, ainda consigo me ver pequena, sentada na cama, com os cabelos molhados pingando na camiseta dela, enquanto lia histórias inventadas, porque às vezes os livros não eram suficientes para o que eu precisava ouvir.Laura nunca foi apenas a mulher que entrou na minha vida. Ela foi quem ficou.Meu pai sempre diz que o amor verdadeiro não chega fazendo barulho. Ele chega ficando. Eu concordo. Porque foi assim que ela fez. Não tentou ocupar espaço à f

  • Apaixonada pelo meu chefe    Epílogo

    O sol da tarde atravessa as folhas das árvores, desenhando manchas douradas sobre a toalha estendida na grama. O ar está morno, cheira a natureza, a liberdade, a paz. Estou sentada com as pernas esticadas, recostada em Liam, enquanto ele lê alguma coisa no celular só para fingir que não está me observando o tempo todo.Levo a mão até a barriga, já bem evidente sob o vestido leve de algodão. O gesto é automático. Instintivo. Protetor.Ainda sorrio toda vez que lembro que tem uma vida crescendo dentro de mim.— Mamãe, olha isso! — a voz de Lilian soa animada.Ergo o olhar e a vejo correndo em nossa direção, com uma coroa de flores torta na cabeça e um sorriso enorme no rosto. O cabelo preso de qualquer jeito, o vestido sujo de grama, os joelhos ralados de quem vive a infância como ela deve ser vivida.— Ficou linda, meu amor — digo, abrindo os braços.Ela se joga em mim com cuidado exagerado, como se tivesse medo de machucar a barriga.— O bebê tá chutando hoje? — pergunta, curiosa, col

  • Apaixonada pelo meu chefe    capítulo trinta e oito

    Entro no quarto carregando o pano de limpeza ainda na mão, pensando em absolutamente nada importante, quando algo fora do lugar chama minha atenção. Sobre a cama, dobrado com cuidado excessivo, há um vestido. Meu coração dá um salto antes mesmo de eu perceber a pequena carta repousando por cima do tecido. Largo o pano em qualquer lugar e caminho devagar, como se aquele simples gesto pudesse fazer tudo desaparecer. Pego o envelope. “Se arrume. Passo para te buscar em breve. Confie em mim.” — Liam. Sorrio sozinha, sentindo aquele frio conhecido se espalhar pelo estômago. O vestido é elegante, delicado, do tipo que eu nunca escolheria sozinha, mas que parece… exatamente eu. Passo os dedos pelo tecido, respirando fundo, tentando conter a ansiedade que cresce no peito. O tempo passa rápido demais. Quando ouço a porta da frente se fechar e passos firmes subirem a escada, meu coração dispara de vez. Liam aparece na porta do quarto vestindo um terno escuro impecável. Ele me olha como

  • Apaixonada pelo meu chefe    Capítulo trinta e sete

    Assim que a porta se fecha atrás de nós, Liam não consegue conter a própria felicidade. Ele me encara por um segundo, como se precisasse ter certeza de que tudo aquilo é real… e então me pega no colo.— Nós conseguimos… — ele murmura, antes de me girar no ar.Dou uma gargalhada alta, leve, uma risada que parece vir de um lugar que eu nem lembrava que existia. Meus braços se enrolam em seu pescoço instintivamente, e quando ele me coloca no chão, nossos lábios se encontram com urgência. Não é um beijo calmo — é intenso, carregado de tudo que ficou preso dentro da gente por tanto tempo.Alívio.Vitória.Desejo.Minhas costas tocam o sofá, e sinto o corpo dele se aproximar do meu, quente, presente, real. Suas mãos me tocam com segurança, mas também com cuidado, como se ainda estivesse me perguntando se eu estou ali de verdade. Cada gesto dele carrega um “você está segura agora”.Fecho os olhos quando sinto sua respiração próxima, quando nossos corpos se reconhecem sem precisar de palavras

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status