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Gabriela narrando capitulo 7

last update Petsa ng paglalathala: 2026-08-27 05:37:14

Ano de 1991

Encontro Lívia no fim da trilha, perto do riacho que fica nos fundos da cidade, um lugar escondido onde quase ninguém passa. É o único jeito de conversarmos sem que os pais dela ou os vizinhos fiquem sabendo — a família dela proíbe que ela se aproxime de mim, dizendo que eu trago má fama e que não querem ver a filha envolvida no que falam por aí. Assim que ela chega, eu seguro a sua mão e não consigo mais segurar o choro.

— Lívia, minha vida está tão vazia — digo, entre soluços. — Meus dias são todos iguais: acordo, fico olhando para as paredes, esperando o tempo passar, sem ninguém com quem falar de verdade. A solidão aperta o peito tanto que parece que não vou aguentar mais. Não tenho paz, não tenho alegria, só essa dor de ter meus filhos longe e não poder fazer nada mais rápido.

Ela me abraça forte, acaricia as minhas costas e fala com calma, com toda a doçura que só ela tem:

— Amiga, eu sei como é difícil, mas não pode desanimar. Você está fazendo o que pode, e cada passo que dá é pensando neles. Não fique sofrendo mais do que já sofre, tenha fé que um dia tudo vai mudar.

Ficamos ali um tempo, conversando baixo, até que percebemos que já é hora de ir. Nos despedimos rápido, cada uma seguindo por um caminho diferente, para que ninguém desconfie que estivemos juntas.

Quando chego em casa, já é noite. Não demora muito e ouço bater na porta: é Maurício marcamos novamente pra sair, ele veio me buscar. Eu já estou arrumada, com um vestido simples mas bem cuidado, o cabelo penteado com esmero. Ele me recebe com um sorriso, faz o papel de cavalheiro: abre a porta do carro, oferece o braço, fala bem dos meus pais e da minha casa. Chegando no destino é o restante,ele logo começa a ter aquelas atitudes de quem quer mais: segura a minha cintura por mais tempo do que o necessário, aproxima o rosto do meu, fala elogios com uma voz mais grave, como se quisesse me conquistar de uma vez.

Eu fico toda tensa, com medo, o coração disparado. A todo momento, a minha cabeça volta para Carolina e Pedro: é só por eles que estou aqui, dando essa chance. Não sinto nada por ele, nenhuma atração, nenhum carinho especial — vamos comer é melhor! Deveria estar feliz,ao contrário, às vezes tenho vontade de sair correndo e voltar para o meu quarto.

— Maurício, já está ficando tarde — digo, tentando me afastar um pouco. — Meu pai marcou que eu tenho que estar de volta até às dez horas. Não posso demorar mais.

Ele faz cara de quem não quer, mas acaba concordando, sem insistir muito. Quando me deixo em casa, fecho a porta e sinto a solidão ficar ainda maior do que antes.

No dia seguinte, é dia de visitar os meus filhos. Primeiro, vou até o banco. Lá, tenho que seguir todo o procedimento: apresento a minha carteira de identidade, assino o talão, espero o atendente conferir tudo e registrar na caderneta. Mesmo sendo minha conta. Tudo é feito na mão, tem que esperar a liberação, e só depois recebo o valor que eu quero sacar.

Com o dinheiro na mão, passo na feira e nas lojas para comprar o que precisam. Depois, lembro que ouvi dizer que tem um doce muito famoso, feito pelas mulheres da região, e resolvo ir até lá. Chego na pequena loja, onde a dona dos doces trabalha, dona Soraia e você? Não, trabalho pra ela,a atendente junto com outras senhoras trabalha nessa banca.

— Quero levar o melhor doce que a senhora tiver — peço. — É para os meus filhos, tenho certeza que eles vão adorar.

Ela sorri, escolhe os vidros mais cheios e mais bem feitos, e me entrega com cuidado:

— Pode levar, minha filha. Esse é o nosso melhor, feito com todo o carinho, sem nada de ruim. Tenho certeza que eles vão gostar muito.

Pago, guardo bem os vidros e sigo direto para o orfanato, levando na sacola tudo o que preparei, com o coração cheio de ansiedade para ver os meus pequenos.

Assim que entro no pátio do orfanato, Carolina e Pedro já vêm correndo ao meu encontro, os olhos brilhando só de ver as sacolas nas minhas mãos. Sento‑me com eles debaixo da grande árvore e abro devagar os vidros com o doce que comprei.

Assim que provam a primeira colherada, o sorriso se espalha no rosto dos dois.

— Mãe, que coisa boa! — grita Pedro, já querendo mais uma porção. — É o melhor doce que eu já comi na vida!

Carolina assente com a boca cheia, depois limpa a ponta dos lábios com a mão e fala:

— É mesmo, mãe! Tem um gosto tão doce e tão bom, parece que foi feito com muito carinho. Nunca comi nada igual.

Fico olhando para eles, com o coração apertado mas também cheio de alegria ao ver‑los assim.

— Que bom que gostaram, meus amores. Fiquei muito feliz de ver vocês aprovarem. Da próxima vez que eu vier, compro mais desse mesmo, prometo.

Eles não param quietos: enquanto comem, vêm me abraçando a todo instante, dão beijos no meu rosto,sujos de doces, no meu pescoço vixi sujeira toda, nas minhas mãos, como se quisessem colar‑se em mim para não me deixar ir embora.

— Beijo, mãe! Beijo muito! — diz Pedro, sujando um pouco de doce na minha bochecha.

— Eu também dou muitos beijos na minha mãe — completa Carolina, apertando‑me forte contra o peito.

Ficamos ali por horas: eles comem, contam as brincadeiras do dia, mostram os desenhos que fizeram, e a cada pouco voltam para me abraçar e beijar, sempre com o gosto do doce ainda nos lábios. Parecem as crianças mais felizes do mundo, e por um momento esqueço toda a tristeza, só quero guardar esse momento para levar comigo até a próxima visita.

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