ANMELDENAno de 1991
Eu e Maurício estamos parados na porta do banco, esperando a nossa vez, com a caderneta de poupança na mão. O gerente já nos conhece de vista, pois vimos sempre que precisamos acertar alguma coisa. Aqui, nada é feito de qualquer jeito: para sacar ou depositar valores maiores, tem que assinar, mostrar documento e tudo fica registrado direitinho. — Vê só — comento com Maurício, virando a página da minha caderneta —, o dinheiro vai se juntando devagar, mas com segurança. Mesmo com a inflação que mexe com tudo, o pai sempre disse que a poupança é o lugar mais certo para guardar o que a gente ganha na terra. Não tem jeito, tem que guardar , Por isso, quem trabalha direito, tem o que reservar. Ele balança a cabeça, olhando a sua própria caderneta. — É verdade. Veja cuido da parte da administração, separo o que é para gasto, o que é para investir e o que fica guardado. Mesmo sendo nosso, não temos total liberdade de mexer como queremos; o pai sempre pede contas, e a mãe também fica de olho. Mas já temos o suficiente para as nossas coisas, para a casa da cidade e para ir vivendo com tranquilidade,e também daqui uns tempos quero ter minha própria família e com isso autonomia da minha vida. Quando saímos da agência, caminhamos devagar pela calçada, e ele abre um sorriso de quem tem algo bom para contar. — Arthur, eu quero te falar uma coisa. Encontrei uma moça esses dias, vizinha da nossa casa nova. É linda, mesmo, daquelas que a gente vê e não esquece mais. Tem um jeito doce, mas também muito reservado, como se tivesse medo de alguma coisa. — E já sabe quem é ela? — pergunto, curioso. — Perguntei para alguns vizinhos da rua, e eles disseram que é filha de Otávio Macedo, o banqueiro. Disseram também que os pais são muito rígidos, dos que não deixam a filha sair sem horário nem conversar com qualquer um,alguns falaram que ela enfiou o pé na jaca. Se for usada significa que será uma maravilha, não tem cabaço, não tem dignidade.Por isso, hoje mesmo vou passar lá na casa dela para convidar para sair de novo. Quero chegar direitinho, bem educado, para agradar o pai dela logo de cara. Quero ir conhecendo ela aos poucos, sem pressa, mas sem perder a chance. — Boa ideia — respondo. — Se a família é assim, tem que ter paciência e respeito. Não adianta querer apressar as coisas. E hoje em dia pra muitos homens o cabaço não importa, importante é o buraco. Seguimos até a casa que compramos na cidade, uma casa espaçosa, com quintal grande e tudo arrumado como a gente gosta. Ficamos ali um tempo, conversando e acertando uns papéis, mas logo eu me preparo para voltar. — Eu tenho que ir, irmão. A Rosana está lá na fazenda, esperando por mim, e não quero deixá‑la esperando muito. Amanhã a gente se vê de novo. Ele concorda, e eu pego a caminhonete e sigo estrada afora. Quando chego na fazenda, o cheiro doce já vem da cozinha antes mesmo de eu descer do carro. Minha mãe, Soraia, tem uma pequena empresa de doces: ela e outras mulheres da região se reúnem, fazem doce de leite, goiabada, compota e vendem para as cidades vizinhas. É um trabalho que elas fazem com carinho, e já tem o nome delas conhecido na região. Rosana está na varanda, e vem ao meu encontro assim que me vê. — Chegou bem, meu bem? — pergunta, pegando a minha mão. — Está tudo bem na cidade? — Tudo certo, só resolver uns assuntos do banco e da casa — respondo, apertando a sua mão. Ela olha para a cozinha e fala com vontade: — A sua mãe está fazendo doce agora. Quer que eu vá ajudar? Se precisar, posso aprender também. Seguro o seu rosto com as duas mãos e nego com a cabeça, sorrindo. — Não, não, não mexe com isso, não. Deixa esse trabalho com elas. É serviço que pega fogo no rosto, de ficar horas perto do forno e da panela quente. Você tem cara de princesa, não precisa se sujar nem se cansar com esse tipo de coisa. Fica por fora, aproveita o frescor da varanda, que a minha mãe já tem quem ajude direitinho. Você é minha mulher, e não vou deixar você passar por esse trabalho pesado. Ela sorri, envergonhada, e apoia a cabeça no meu ombro, enquanto de lá da cozinha vem a voz da minha mãe, chamando a gente para provar o doce que acabou de ficar pronto.📖 Apenas Uma NoiteE fim de tarde, minha mãe, a mãe de Gabriela,a mãe de Lívia está todo vapor ajudando em cada detalhe, pra essa festa na fazenda Afinal meu sobrinho nasceu..E o ar cheirava a terra úmida, acabou de cair um pé de chuva a flores, Gabriela correu e pegou o bolo pra não estragar,ele está recém-saído do forno. Sete mês passou. Um mês de calmaria, de crescimento, de ver tudo se encaixando do jeito que devia ser. E hoje, a fazenda está em festa. Por uma vida nova que acabava de chegar.Eu estou de pé na varanda, olhando tudo, e o coração me enche de um orgulho que não cabe no Estou ajudando também junto com meu irmão Maurício estamos montando uma linda cabana porque vem muitas visitas,e hoje é festa vai transbordar.A criança nasceu é dias e dias de arruda e alegria.Como falar dessas terra… a terra nunca me traiu. Olhei os canteiros, as fileiras crescendo fortes, os pés de fruto carregados, pesados de tanto que deram. O pai de Gabriela tinha razão sobre uma coisa: a terr
📖 Apenas Uma NoiteO tempo passou, e hoje, quando eu me olho no espelho, mal reconheço a mulher que sou. Não é só a roupa, e nem o cabelo arrumado de outro jeito… é o brilho nos olhos. É a paz que carrego no peito, sem medo de ser feliz. Estamos em meados de 1993, e a vida me vestiu de um jeito bonito. Trabalho no banco do meu pai, agora com mais responsabilidades, sentada numa mesa de madeira escura, com uma janela grande que deixa o sol entrar. Uso terninhos de alfaiataria — cores sóbrias, cortes retos, elegantes. Mas não é a roupa que me faz sentir mulher. É saber que tenho um lugar, uma voz, um trabalho que eu conquistei também. Isso é alegria de qualquer mulher à frente do seu tempo. Aqui no banco do papai eu já tenho responsabilidade maior, tudo passa por minha mão, sou gerente hoje.Quando cheguei em casa, tirei os sapatos de salto, soltei o cabelo e vesti roupas leves, confortáveis. Porque aqui, na minha casa, eu não preciso de aparências. Eu só preciso ser eu. E Arthur me am
❤️📖 Apenas Uma NoiteEstou arrumando alguns consertos em casa. Trabalhei só na parte da manhã. O dia passou rápido, e quando olhei no relógio, já era hora de buscar as crianças. Guardei as ferramentas, lavei as mãos na bica da torneira e fui. Gosto de chegar antes, de ficar ali esperando, vendo elas saírem correndo, rindo, com aqueles olhinhos brilhando. Quando me viram, acenaram de longe e vieram em disparada até mim.— Pai! — gritou Carolina, pulando no meu pescoço. — Hoje eu tirei dez na prova!— Parabéns, minha princesa! — beijei a testa dela, sentindo um orgulho que não cabe no peito. — Vocês merecem um presente. Que tal um sorvete?Os olhos deles brilharam mais ainda. Fomos até a sorveteria da praça central — aquela que existe desde sempre, com os potes de vidro cheios de sabores coloridos, o cheiro de baunilha e chocolate que toma conta da rua. A sorveteria é o ponto de encontro, é lugar de família, é coisa boa. Sentei com eles numa mesa de fórmica vermelha, e as crianças esc
Apenas Uma NoiteJá estava escondendo quando chegamos em casa, o carro cheio de caixas e embrulhos, e o coração ainda mais cheio do que tudo aquilo que compramos. Olhei pra Gabriela ao meu lado — os olhos brilhando, um sorriso que não saía do rosto — e senti um peso leve no peito.Mas antes passamos na escola pegamos as crianças.Hoje a minha, consciência está tranquila não vou mais vacilar com minha família eu decidi,ser feliz e estou gostando muito de ser marido e ter esposa, porque as crianças desde da primeira vez que eu soube que tinha filhos eu gostei.A Consciência do que eu tinha feito me acusa sempre, acredito que eu tenho um Deus bom que gosta de mim,me avisa sempre o que eu preciso fazer, e do caminho que eu escolhi pra nós dois.Estamos vivendo um tempo de fartura, um tempo de cansaço tecnológico, é tempo que as pessoas estão em desespero mas a vida não precisa seguir essas diretrizes.Nada é fácil. O dinheiro não cai do céu, as coisas custam caro, e o preço de tudo sobe se
📖 Apenas Uma NoiteNo dia seguinte, acordei com uma fome, acho que felicidade dá fome. O quarto estava em silêncio, e ao meu lado, a cama estava vazia. Sentei devagar, ainda com o cheiro dele no lençol, e fui até a janela. Lá embaixo, vi Arthur encostado no carro, de braços cruzados, olhando pra frente, como se estivesse tomando uma decisão importante.Quando ele me viu, sorriu daquele jeito que me derretia toda, e acenou com a mão. Desci as escadas devagar, e quando cheguei na sala, ele estava ali, de pé, esperando.— Bom dia, meu amor — disse ele, vindo me puxar pra um abraço apertado. — Dormiu bem? Apesar de tudo…— Dormi — respondi, encostando a cabeça no peito dele. — Mas acordei pensando naquela briga, Arthur. Na forma que a sua mãe me olhava… dói, sabe? Como eu vou voltar lá?Ele segurou o meu rosto com as duas mãos, olhando firme nos meus olhos:— É por isso que eu estou aqui ainda, com um plano. Vamos arrumar isso. Vou mostrar pra você e pra todo mundo que você merece o melh
Apenas Uma NoiteAutora: Edivânia RiosTodos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado crime virtual e/ou de violação aos direitos autorais. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.— Tempestade na Fazenda(Arthur não para, ele conseguiu o que queria, tanto que tentou que conseguiu, eu planejava fazer com ele aqui na fazenda,mas ele me atiçou tanto, que o desejo que eu estava sentindo por ele, não conseguir me segurar.Chegando na fazenda a mãe dele me olha com aquele olhar torto, acho que será só o começo. Mal pisamos dentro de casa, a mãe de Arthur começa,não está me deixando em paz. Fala pelas entrelinhas, fazia comentários cortantes, me olhava como se eu fosse uma praga que tinha invadido a sua casa. Disse que eu não era digna do filho dela, que eu só tinha vindo ali para tomar conta dos bens, que uma mulher com passado como o meu não merecia estar naquela terra. E foi piorando, cada palavra mais pesada,







