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CAPÍTULO 4

Author: Cocojam
— Não é nada. — Respondi com calma. — Fiquei dois dias no hospital. Queria me atualizar sobre os assuntos da alcateia e das alianças.

Aquela resposta fez o rosto de Viggo endurecer no mesmo instante.

Ele estendeu a mão, arrancou o celular de mim e o desbloqueou sem esforço com o próprio rosto. Fez aquilo com tanta naturalidade, como se o aparelho fosse propriedade dele.

Nós dois congelamos.

Lembrei de quando eu era profundamente apaixonada por ele. Eu lhe entreguei tudo.

Disse que não deveria haver segredos entre companheiros, então ele sempre poderia olhar meu celular.

Naquela época, pensei que essa era a honestidade exigida por um vínculo de companheiros, agora, só parecia tolice.

Pelo visto, ele também se lembrou disso. Um rubor escuro subiu por seu pescoço, e ele empurrou o celular de volta para mim.

— Não coloque ideias erradas na cabeça nem passe dos limites.

— Claro que não. — Eu disse, pegando o celular, com a voz sem emoção. — Não vou interferir nos assuntos do Alfa.

Aquilo pareceu deixá-lo ainda mais irritado.

Naquele momento, Odette percebeu a tensão dentro do carro e imediatamente se jogou nos braços de Viggo.

— Viggo, estou sentindo a força vital do filhote oscilar. — Choramingou ela, guiando a mão dele até sua barriga. — Acho que ele está com saudade do papai.

A atenção de Viggo foi desviada na mesma hora. Ele acariciou a barriga dela com delicadeza.

Virei o rosto, recusando-me a olhar para os dois.

Quando chegamos, Viggo ajudou Odette a descer do carro com todo cuidado, mimando-a enquanto a conduzia até o quarto.

Então chamou o mordomo com naturalidade.

— Prepare algo de que Odette goste, alguma coisa para acalmar o filhote.

Ele fez uma pausa. Depois, sua voz ficou tão baixa que provavelmente achou que eu não conseguiria ouvir.

— E também a carne de veado assada mais fresca, com vinho lunar.

Meus pés congelaram por um segundo.

Carne de veado assada e vinho lunar. Meus pratos favoritos.

Desde que nos tornamos companheiros, sempre que eu ficava abatida, ele mandava os chefs prepararem essas duas coisas para mim.

Mas o que ele estava fazendo agora? Depois de tudo que fez, aquilo era a ideia dele de gentileza? Uma tentativa patética de provar que ainda se importava?

Depois de tudo que aconteceu, como eu deveria encará-lo?

Arrastei os pés pesados de volta para meu quarto na ala oeste. No instante em que empurrei a porta, congelei. Meu quarto estava revirado. Minha mala foi rasgada, e tudo dentro dela estava destruído.

O lugar estava imundo, encharcado pelo fedor podre e metálico do sangue de alguma fera. Meus vestidos, rasgados em tiras, minhas joias, esmagadas sob os pés. Até minhas roupas íntimas estavam manchadas e profanadas. Por sorte, o símbolo enviado por meu pai biológico estava bem escondido e não foi encontrado.

Eu estava prestes a limpar aquela bagunça e partir em silêncio quando a porta foi empurrada.

Odette entrou, com os olhos cheios de zombaria presunçosa.

— Você é tão teimosa. Tão sem vergonha. Depois de tudo isso, ainda não vai abrir mão do posto e sair por conta própria?

Ela caminhou direto até mim, com a voz suave, mas impregnada de veneno.

— A propósito, sabe por que Viggo não conseguiu voltar quando sua mãe morreu, três meses atrás?

Meu corpo inteiro ficou rígido.

— Porque ele estava comigo. Em uma ilha particular. — Odette ronronou. — Ele disse que sua mãe ficou doente por anos, chamou aquilo de desperdício de recursos da alcateia. Tentar salvá-la, quero dizer.

— Cala a boca!

Eu não consegui mais me conter e desferi um tapa em seu rosto. O estalo agudo ecoou pelo quarto.

Odette segurou a própria bochecha. Mas, em vez de ficar furiosa, explodiu em uma gargalhada enlouquecida.

— Hahaha! Finalmente perdeu a calma, não foi?

Ela tirou do bolso vários incineradores de fogo com pó de prata de alta concentração, misturados com cristais de acônito.

— Obrigada pela força vital que você me deu, Nyxia. Agora, além de conseguir controlar essa energia, Viggo também me deu acesso a todos os cofres da alcateia. Já que você não quer sair por vontade própria, eu só vou acrescentar um pouco mais de fogo.

— O que você está fazendo? — Percebi o perigo e tentei impedi-la.

Mas era tarde demais. Odette arremessou os incineradores de fogo com pó de prata.

Uma explosão enorme engoliu o quarto inteiro.

Uma grande parte da ala oeste desabou. Chamas esverdeadas, misturadas com prata, dispararam para o céu.

Enormes blocos de pedra e vigas em chamas caíram de cima.

Fiquei presa sob uma parede desmoronada. O sangue escorria de um corte na minha cabeça, e minha visão ficou turva.

— Socorro! Viggo! — O grito de Odette veio do outro lado dos escombros.

Segundos depois, ouvi passos familiares. Viggo avançou para dentro das ruínas.

Ele rasgou uma placa de pedra com as próprias mãos e tirou Odette dos destroços.

— Está tudo bem, eu estou aqui. — Ele a acalmou com ternura.

Então se virou e olhou na minha direção.

Nossos olhos se encontraram através das ruínas. Vi o pânico florescer no olhar dele, a hesitação. Mas durou apenas um segundo.

Provavelmente, ele tinha certeza de que minha constituição era forte o bastante para sobreviver a um incêndio. Mas subestimou o quanto o fogo com prata e acônito era mortal para uma loba aleijada.

Então ele cerrou a mandíbula, virou as costas para mim e carregou Odette para fora das chamas.

Ele me abandonou ao fogo e à fumaça.

Quando a escuridão estava prestes a me levar, a vida dentro de mim de repente se agitou, protegendo-me de um golpe fatal.

A agonia do vínculo de companheiros desapareceu.

Libertei uma força inesperada e empurrei os destroços para longe do meu corpo.

"Eram meus filhotes! Eles estavam me protegendo!"

Rastejei em direção a uma passagem secreta que só eu conhecia e me arrastei para fora, centímetro por centímetro, em meio à dor.

A fumaça misturada com prata queimava minha loba enfraquecida, mas mordi meu próprio braço com força, obrigando-me a continuar rastejando, a sair dali.

Quando finalmente desabei fora da propriedade, coberta de sangue, eu sorria com pura liberdade.

Os guardas enviados para me buscar chegaram rápido e me ajudaram a entrar no jatinho particular que me aguardava. Assim que ele decolou, a voz de Viggo rugiu na minha mente, furiosa, com um tremor inconfundível de pânico.

"Nyxia! Onde você está?! Volte aqui AGORA. Você vai pedir desculpas a Odette por esse teatrinho!"

Fechei os olhos e rompi a conexão mental, cortando todo contato.

Fiz um gesto para que os guardas apagassem todos os vestígios do meu cheiro no território.

O jatinho subiu pelas nuvens. Pela janela, observei a propriedade encolher até virar um pequeno ponto de luz lá embaixo.

Viggo e eu tínhamos terminado, e era para sempre.

——

Pouco depois de meu avião atravessar as nuvens.

Do lado de fora da sala de emergência do centro de cuidados com filhotes, Viggo andava de um lado para o outro.

Odette estava lá dentro, recebendo atendimento de emergência.

Incapaz de me alcançar, ele esmagou o celular em um acesso de raiva. Então rosnou para os guardas:

— Nyxia está sendo insuportável! Odette está grávida, ficou aterrorizada, e o que a Luna dela faz? Em vez de ajudar, foge para fazer birra como uma criança!

Assim que as palavras saíram de sua boca, o curandeiro-chefe da alcateia, que acabara de voltar de uma viagem, apressou-se pelo corredor com uma pilha de prontuários médicos nos braços.

Ao ver Viggo, o rosto do curandeiro se iluminou.

— Alfa! Chegou em boa hora! Imagino que esteja aqui para a consulta de acompanhamento da Luna Nyxia, certo? Deveria ser mais ou menos agora. Afinal, ela está grávida de gêmeos!

O corredor mergulhou em um silêncio mortal.

Viggo congelou. A fúria crua em seu rosto se esvaziou, deixando-o branco como um fantasma.
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