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Capítulo 3

Author: Redleaves
No dia do meu aniversário, a mamãe ligou para o papai mais de uma dezena de vezes antes de ele atender. A linha estava barulhenta, cheia de vozes de fundo. Ele parecia extremamente irritado:

— O que foi? Estou jantando com a Vanessa.

— Theodore, hoje é o aniversário de cinco anos da Serena. Venha para casa passar o aniversário com ela — a voz da mamãe falhou. — Pelo menos venha soprar as velinhas com ela e fazer um pedido. Por favor.

Eu me sentei na cadeira, balançando as pernas, e de repente senti uma tristeza profunda. Uma semana atrás, a mamãe tinha lembrado o papai sobre o meu aniversário, repetidamente.

Ela tinha dito que, antes de ir embora, deveríamos comemorar em família pelo menos uma vez. Como ele pôde esquecer e ir jantar com a Vanessa? Será que hoje também era o aniversário da Vanessa?

A voz do papai veio pelo telefone:

— Fiona, eu já te dei tudo o que você pediu. Para de me amolar.

A voz da Vanessa também ecoou ao fundo:

— Luna, não é que eu queira reter o Alfa. É que ele precisa comparecer a um evento importante esta noite. O carro dele quebrou. Você poderia vir nos buscar?

Ah. O carro do papai tinha quebrado. Dei um tapinha na bochecha da mamãe:

— Mamãe, o carro do papai quebrou. Vamos buscar ele.

Antes que a mamãe pudesse responder, o papai interveio:

— Você ouviu a sua filha. Venha logo para cá. — E desligou.

A mamãe ajeitou a minha franja e assentiu com a cabeça:

— Tudo bem. Vamos buscar o seu pai.

Estava caindo o maior toró lá fora. A chuva batia forte contra o para-brisa, e os limpadores iam e vinham sem parar, mas nunca conseguiam limpar o vidro por completo, deixando-o embaçado o tempo todo.

Pareciam os olhos da mamãe, embaçados de lágrimas, quando ela e o papai brigavam. O carro deu uma guinada brusca para o lado, e eu gritei.

A mamãe desceu para verificar e depois voltou para dentro do carro, encharcada:

— Serena, o pneu furou. Fique quietinha. A mamãe vai trocar. — Eu concordei com a cabeça.

Demorou um tempão. Quando ela voltou para o carro, estava ensopada e desabou sobre o volante, arquejando para conseguir respirar. A loba dela parecia tão fraca.

O papai devia sentir isso também. Afinal, eles eram companheiros.

O carro parou em frente a uma casa linda e enorme. Lá dentro, o papai já estava comendo com a Vanessa, e não havia bolo nenhum na mesa. Era estranho.

Se hoje não era o aniversário da Vanessa, por que o papai não tinha ido para casa comemorar o meu? O cheiro do papai estava todo misturado com o aroma de ervas da Vanessa.

Ele olhou de relance para a mamãe, que pingava água no chão, e voltou a se concentrar na comida.

— Theodore — disse a mamãe. — Eu vim te buscar. Venha para casa para o aniversário da Serena.

Ele finalmente ergueu os olhos:

— Eu já mandei alguém consertar o carro. Não precisa se dar ao trabalho. Pode ir para casa.

A Vanessa ergueu a taça e sorriu:

— Alfa, já que a Luna e a Serena vieram de tão longe, por que não comemos todos juntos? — Em seguida, ela bateu a mão na testa, fingindo estar sem graça

— Ai, que cabeça a minha! Este restaurante é só para membros. É preciso reservar com antecedência. — Ela disse aquilo bem alto, fazendo várias pessoas olharem.

A mamãe ficou ali parada no meio de uma poça d'água que só aumentava.

Alguém na multidão a reconheceu, e os cochichos começaram a se espalhar. Ela continuava olhando para o papai, mas ele não tirava os olhos do prato.

Senti a loba dela enfraquecer, do mesmo jeito que o brilho dos seus olhos estava sumindo. Mas o papai parecia cego.

Ele só continuava bebendo seu vinho. Não tinha sentido nada. Ele realmente tinha bloqueado o vínculo entre eles.

A mamãe soltou um suspiro longo e pesado. Não disse uma palavra. Apenas segurou a minha mão com força, deu meia-volta comigo e me tirou dali.

Olhei para trás. O papai estava rindo de alguma coisa com a Vanessa. Por que o meu peito doía tanto? Eu não queria mais ter um pai.

Ele nunca tinha tempo para mim e nunca tinha comemorado o meu aniversário.

Chegamos em casa tarde. O bolo que a mamãe tinha preparado ainda estava em cima da mesa. Ela acendeu as velinhas para mim, e eu apaguei todas de uma vez só.

— Faça um pedido, Serena.

A mamãe só tinha mais cinco dias de vida. Eu quis pedir mais tempo com ela, mas no fim decidi não fazer isso. A mamãe estava tão cansada.

Eu queria que ela fosse ficar com a vovó, para cantar para a Deusa da Lua.

Passava da meia-noite quando o papai chegou em casa:

— Fiona, estou aqui para comemorar o aniversário da Serena. — A mamãe não respondeu. Ela continuou cantarolando, me ninando para dormir.

— Por acaso você perdeu a voz? — A voz dele foi tão alta que meus olhos se arregalaram.

Ele estava descontrolado. Seus olhos pareciam duas lanternas vermelhas, enormes e ardentes. Ele avançou na direção dela e a agarrou pelo pulso:

— Para quem é essa cara fechada? Eu voltei, não voltei?

Eu me levantei e tentei afastar as garras dele do braço dela. Ele me jogou para o lado com brutalidade. A mamãe tentou empurrá-lo, mas não conseguiu.

Ele a agarrou pelos cabelos, arrastou-a para fora do quarto e trancou a porta pelo lado de fora. Ouvi o choro desesperado dela e os gritos dele. Esmurrei a porta, berrando por ela.

Demorou muito para ela voltar. Ela estava coberta de hematomas, e tinha uma marca roxa bem visível no rosto também. Ela me abraçou e soluçou:

— Serena, me desculpa. O seu aniversário não devia ter sido assim.

Eu não entendia. Por que era ela quem estava pedindo desculpas? Ela não tinha feito nada de errado.

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