FAZER LOGINO papel tinha amarelecido com o tempo. A caligrafia da mamãe era elegante e pequena.— Serena. Me desculpa.Eu tinha lido apenas uma linha e meus olhos já estavam ardendo, meu corpo todo tremendo. O tio me acolheu em seus braços. Dei uma longa respiração e continuei lendo:— Quando você ler isto, já terá dezoito anos. Terá se tornado uma loba linda e inteligente. Sinto muito por não ter podido estar presente para ver você crescer. Mas eu sei que você será corajosa. Será forte. Ficará bem. Há tanto que eu gostaria de dizer, mas pego a caneta e não sei o que escrever. Espero que a minha querida filha tenha uma vida cheia de paz e felicidade. Com amor, Mamãe.As últimas linhas tinham borrado no papel, com a tinta se espalhando em flores suaves e silenciosas. O quanto a mamãe devia ter chorado enquanto escrevia aquilo?Pressioneia a carta contra o meu peito e solucei feito uma filhotinha de cinco anos.O tio acariciou os meus cabelos:— Não chore. Olhe o verso.Virei a carta ao
Nas semanas e meses seguintes, continuei voltando à propriedade, indo ao quarto da mamãe para ficar um tempo sentada. O Alfa cumpriu a sua palavra. Ele dava um tapa na Vanessa toda semana. Mas eu nunca o chamei de pai. Essa palavra tinha sido deletada do meu dicionário para sempre.O Alfa não desistia. Continuava tentando, feito um homem pagando penitência. Ele me contou que visitava o túmulo da mamãe toda semana com um buquê de lírios e conversava com ela sobre os seus dias.— Sr. Alfa, por favor, não faça isso — eu disse a ele.Ele perguntou o porquê.— Porque a mamãe não quer ver a sua cara. É simples assim, Alfa — respondi.Ele não conseguiu me olhar nos olhos.E a Vanessa teve a sua recompensa: cinco anos levando tapas semanais dele. Ele não a deixava ir embora. Ele precisava torturá-la para provar o quanto estava arrependido. Achava que, se continuasse com aquilo por tempo suficiente, eu o perdoaria um dia. Era piada. O meu ódio era um oceano, e ele achava que conseguir
O compromisso era com Phelan Locke. Ele era o repórter de entretenimento que tinha defendido a mamãe na coletiva de imprensa oito anos atrás. Eu confiava nele.Quando o vi, entreguei-lhe um cheque— O pagamento deste mês. O do mês que vem também vai chegar.Eu o tinha contratado para levantar todo o histórico do caso entre o Alfa e a Vanessa, além de manter a Vanessa sob vigilância e registrar cada passo dela.Phelan guardou o cheque e começou o seu relatório— O caso deles vem de longa data. Vou precisar rastrear algumas testemunhas, então vai levar um tempo. E a Vanessa tem andado na linha ultimamente. Só compras e clubes privados.— Não tenha pressa — eu disse, sorrindo. — Eu tenho todo o tempo do mundo.O meu ódio estava esculpido em pedra, e dez mil anos não seriam suficientes para desgastá-lo.Phelan olhou para mim e assentiu com um respeito silencioso:— Você é igualzinha à sua mãe. Uma mulher que merece respeito.Pisquei os olhos para ele, confusa. O olhar dele passou
Os anos se passaram, e agora eu tinha treze anos. A maioria das minhas memórias de infância tinha se apagado, exceto por tudo o que tinha a ver com a mamãe. Nesses oito anos, eu me matei de estudar e de treinar para ser excelente em tudo, e consegui. Eu queria que a mamãe, lá na lua, tivesse orgulho de mim. As pessoas me aplaudiam não por eu ser a filha do Alfa, mas por eu ser quem eu era: Serena Moran.Toda semana, não importava o clima, eu voltava para a Propriedade Alfa. Eu já estava grande demais para subir no colo do tio e escutar o coração dele a hora que bem entendesse. O quarto da mamãe tinha sido mantido perfeitamente intacto, tudo do jeitinho que ela tinha deixado, como se ela tivesse acabado de dar uma saída. Eu costumava ficar sentada no quarto dela por um longo tempo, conversando com ela.Às vezes, olhando para a penteadeira dela, eu me lembrava de quando era pequena. Lembrava-me dela me aconchegando na cama e, depois, sentando-se sozinha diante daquela penteadei
— Sim — disse o tio. — Ela deixou uma carta.Ele me apertou um pouco mais forte nos braços, com a voz gélida.— O que dizia nela? Era... — O papai não conseguiu terminar a frase. Ele não tinha levado guarda-chuva, e a chuva grudava o terno em sua pele. Ele juntou forças e ergueu os olhos: — Era... Era para mim?O tio olhou para ele e começou a rir. Era uma risada estranha, parecia a própria dor em forma de sorriso:— Eu tive tempo de juntar as peças. O lobo da Fiona estava ficando mais fraco, sim, mas os médicos disseram que ela ainda tinha pelo menos um ano de vida. Então, por quê? Por que ela abandonaria a Serena e daria o coração dela para mim? — Ele esperou. O papai o encarava, totalmente perdido. — Porque eu não conseguiria aguentar muito mais tempo. Sem aquele transplante, eu teria morrido.O tio olhou para o céu cinzento:— Mas esse não foi o único motivo. O motivo principal foi você, meu honrado Alfa. Porque você não tem vergonha na cara. Porque você é estúpido. Porque vo
Uma semana depois, o meu tio já tinha se recuperado o suficiente para me pegar no colo. Ele me segurou durante o funeral da mamãe. O céu estava cinzento e caía uma chuva fininha. Achei que fossem as lágrimas da Deusa da Lua.Não vi a mamãe. Só vi uma caixa comprida de madeira. O tio me disse que a mamãe estava dormindo lá dentro.O papai estava de terno preto ao lado do caixão, encarando-o fixamente. Ele não disse uma única palavra. Seus olhos estavam vermelhos e o seu rosto estava molhado. Devia ser da chuva. O papai não amava a mamãe, então ele não choraria.A Vanessa se aproximou, com a voz mansa:— Serena, não fique muito triste. A mamãe se foi, mas você ainda tem a mim.Ela estendeu a mão para a minha cabeça.Avancei na mão dela com os dentes. Dessa vez ela já esperava por isso e puxou o braço rápido. A voz dela saiu cheia de veneno:— Humf. Pirralha mal-educada. Igualzinha à mãe, sempre...O tio virou a cabeça num solavanco, e o seu olhar a atingiu como um tapa:— Este é







