Share

Capítulo 5

Author: Doce Menina
Cecília, quase instintivamente, puxou o casaco acolchoado para baixo, cobrindo a barriga lisa.

— Fui sim. Acho que estou ficando velha. Este ano estou sentindo mais frio do que o normal. — Ela se aproximou, sentou-se e mudou de assunto. — Precisa do meu notebook? Posso ir buscar no carro.

— Use o meu. — Heitor empurrou o notebook na direção dela.

A imagem de descanso de tela era uma fotografia antiga, as silhuetas de um homem e uma mulher, vistas de costas.

Cecília reconheceu de imediato. O homem era Heitor. E a mulher tinha a mesma silhueta de Nicole.

Sem demonstrar nada, ela desviou o olhar, abriu o arquivo e começou a digitar a ata da reunião mecanicamente.

No trabalho, Cecília e Heitor sempre tiveram uma sintonia impecável. Bastava um olhar dele e ela sabia qual ponto destacar para revisão depois. Um gesto sutil e ela já entendia que deveria encerrar a fala de alguém e passar ao próximo.

Mesmo após meio ano afastada, aquela sintonia ainda existia.

A expressão tensa de Heitor foi se suavizando aos poucos. Sem perceber, sua atenção começou a se desviar do trabalho para Cecília.

Sem o traje formal de antes, o rosto dela era de uma beleza impressionante, jovem, delicada. Seus dedos, finos e claros, pareciam delicados e macios, os mesmos que um dia haviam se agarrado aos seus lençóis.

O ambiente estava aquecido, mas ela não tirava o casaco. Uma fina camada de suor se formava em sua testa. As bochechas estavam levemente coradas, os cílios curvados tremulando a cada piscar.

Cecília era do tipo que era bonita à primeira vista e ainda mais bela quando observada com atenção.

Sem perceber, Heitor se perdeu em pensamentos.

Do outro lado da reunião, alguém terminou de falar. Mas ele não reagiu.

Os dedos de Cecília continuavam a bater no teclado. Ela lançou-lhe um olhar rápido e seus olhos se encontraram.

Seu coração apertou e ela abaixou o olhar imediatamente. Terminou de digitar as últimas palavras, ajeitou a roupa.

— Se está com calor, pode tirar o casaco. A reunião ainda vai demorar. — Heitor notou seus pequenos movimentos, disse apenas isso e voltou à reunião.

Com a consciência pesada, Cecília não ousou tirar.

— Não precisa, não estou com calor.

Ele lançou-lhe outro olhar. Sob a luz, o suor na testa dela já brilhava.

— Continue.

Ele não insistiu.

O suor começou a escorrer, formando pequenas gotas que desciam por seu rosto e umedeciam seus cabelos. Com calor e fome, aos poucos, ela começou a se sentir desconfortável. Seu estômago começou a revirar com azia.

Ela não sabia quanto tempo passou até, finalmente, a reunião terminar.

Cecília levantou-se rapidamente, pegando a bolsa.

— Sr. Heitor, já salvei a ata da reunião. Se não houver mais nada, vou me retirar.

Sem esperar resposta, já havia saído do escritório.

No fim do corredor, uma janela estava entreaberta. O vento frio entrou, trazendo algum alívio.

Mas o mal-estar persistia, seu estômago estava embrulhado. Então ela apressou o passo.

A sala de jantar ficava um pouco distante da entrada, ela planejava sair discretamente, sem ser notada. Mas, ao passar pela sala de estar, o aroma da comida a atingiu.

Ela adorava sopa de peixe. Mas, naquele momento, o cheiro familiar lhe trouxe uma onda de náusea.

— Terminou? Ceci, fica para jantar! — Flávia a viu e imediatamente se levantou.

Cecília balançou a cabeça. Mas esse simples movimento fez o ácido em seu estômago subir violentamente. Ela correu para o banheiro à direita, incapaz de conter a ânsia de vômito.

— Dona Solange, traga um remédio para o estômago. — A voz de Heitor veio, atravessando o som dos passos.

Desde pequena, no orfanato, Cecília se alimentava mal, comendo restos de comida, em horários irregulares. E, com isso, desenvolveu um problema sério no estômago. A família Siqueira sabia disso.

Roberto, que entendia de medicina, já lhe havia receitado alguns tratamentos, desde então, bastava um comprimido ocasional para aliviar.

Mas aquilo não era dor de estômago. Era enjoo de gravidez. E, grávida, não podia tomar remédio.

Cecília enxaguou a boca rapidamente, pronta para recusar. Mas, ao virar-se, o cheiro da sopa de peixe voltou. Ela se agachou e vomitou novamente.

Judite também se levantou, aproximando-se para lhe dar leves tapinhas nas costas.

— Ficou muito tempo sem comer? Depois toma o remédio e bebe um pouco de sopa quente antes de ir.

— Bebe água! — Disse Flávia, trazendo um copo com água morna.

Cecília pegou, enxaguou a boca e tomou um gole, tentando conter o enjoo.

— Desculpem atrapalhar o jantar, é só um leve resfriado. Não é o estômago. Tenho remédio em casa.

Na sala de jantar, todos olharam para ela. O olhar mais evidente de desagrado era o de Tânia.

Nicole se aproximou de Heitor, segurando seu braço, e ambos olharam para Cecília.

— Resfriado não faz vomitar assim! Você está pálida e corada ao mesmo tempo, deixa o vovô te examinar! — Flávia acrescentou.

O coração de Cecília disparou. Mesmo que seus conhecimentos não fossem avançados, se Roberto a examinasse, descobriria a gravidez.

— Não quero incomodar o Sr. Roberto. Eu estou bem, de verdade. — Ela respondeu rapidamente, ainda mais educada.

Ela não queria estragar o jantar da família. Ainda mais com Nicole ali.

Judite compreendia. Mas, depois de dois anos de convivência, via Cecília como parte da família. Como poderia deixá-la ir naquele estado?

— Seja boazinha, deixa o Roberto dar uma olhada, só para eu ficar tranquila, pode ser?

Cecília balançou a cabeça discretamente. Mesmo que não estivesse grávida, não poderia roubar a atenção de Nicole naquela casa.

Tânia não aguentou mais. Levantou-se e foi até elas.

— Esse jantar vai acontecer ou não?

Na mesa, restavam apenas Roberto e Luciano.

Era evidente que o jantar já estava arruinado. E que Cecília era a culpada por interromper o jantar da família.

— Tem certeza de que está bem? — Vendo seu desconforto, Judite cedeu.

— Tenho.

O rosto pálido de Cecília tinha um leve tom amarelado. Ela forçou um sorriso.

— Então vá. Tome cuidado no caminho.

Judite não queria que ela ficasse ali, sujeita à frieza de Tânia.

Cecília virou-se e saiu.

Ao deixar a mansão, o ar frio a atingiu de imediato. O suor em sua testa gelou.

Heitor permaneceu dentro da casa, observando sua silhueta pela janela.

O jardim iluminado a envolvia, mas ela não olhou para trás. Seguiu na direção oposta, rumo à escuridão fria além do portão.

Seus passos eram rápidos, como se estivesse fugindo de algo.

— Heitor, vamos jantar. — Nicole segurou seu braço, puxando-o de volta à mesa.

Heitor desviou o olhar e se sentou com ela.

Tânia soltou um leve resmungo e, ignorando o ocorrido, retomou a conversa animada com Nicole.

Após o jantar, Heitor levou Nicole para casa.

Mais tarde, Tânia subiu para falar com Flávia.

— A partir de agora, não tenha mais contato com Cecília!

— Por quê? — Respondeu Flávia, fingindo não entender. — Não posso ser amiga dela?

— Ainda pergunta? — Tânia se irritou. — Seu irmão vai ficar noivo da Nicole. Cecília virou um assunto proibido nesta família!

— Então é verdade? Meu irmão vai mesmo ficar noivo dela? — Flávia endireitou-se.

— Eles cresceram juntos. Era só questão de tempo. E se você continuar desobedecendo... não vai gostar das consequências.

Tânia não podia controlar os mais velhos da família. Mas, ao menos, controlaria a própria filha.

Flávia assentiu, mas, assim que Tânia saiu, fez uma careta para as costas dela.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 30

    O Ano-Novo era, todos os anos, o período mais frio em Belnorte.Em todos os anos anteriores, Judite dava folga a todos os empregados da casa, para que a família pudesse passar o feriado verdadeiramente reunida.Mas, naquele ano, Tânia e os outros haviam viajado para o exterior de férias, e a casa parecia vazia, fria, sem vida.— Vó, que tal a gente chamar a Ceci de novo? — Flávia ainda não tinha desistido. — Se ela vier, a casa fica animada. À noite a gente faz o jantar juntos e passa a virada...— Você quer é que ela venha trabalhar, isso sim. — Judite lançou-lhe um olhar atravessado.Desde que Cecília tinha se casado com Heitor, nos últimos dois anos, ela era a principal responsável pelo jantar de Ano-Novo. Ela cozinhava incrivelmente bem, até Tânia reconhecia isso.Por isso, aquele feriado tinha se tornado raros momentos de harmonia familiar. Tanto Judite quanto Flávia gostavam daquele ambiente caloroso.— Claro que não! — Flávia respondeu sem hesitar. — O principal motivo é que a C

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 29

    — Secretária Cecília, há um ano saiu uma notícia dizendo que Heitor tinha arranhões no pescoço. Você pode me dizer como aquilo aconteceu? — A curiosidade de Murilo remontava a muito tempo atrás.Heitor era uma figura pública, e Cecília sempre teve cuidado para não deixar marcas nele. Exceto naquela única vez.Naquele dia, ele tinha perdido o controle, e ela não conseguiu suportar.Quem diria que, justamente daquela vez, a mídia captaria tudo.Ainda assim, como a mulher que ele amava estava no exterior e nunca tinha se envolvido em escândalos, mesmo sem explicação, o caso acabou não ganhando grande repercussão.— Não sei. — Respondeu Cecília, com frieza.— Boca bem fechada. Pelo visto, só o Heitor consegue fazer você abrir. — Murilo estalou a língua algumas vezes.Havia um claro duplo sentido em suas palavras, o beijo intenso daquela noite.Cecília estacionou o carro em frente à casa dele e o lembrou:— Sr. Murilo, não se esqueça do que me prometeu.— Fique tranquila. — Ele abriu a port

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 28

    Murilo era, sem dúvida, um típico herdeiro rico, amante de festas, barulho e excessos. Dizia-se que, no dia em que assumiu a empresa, a família Siqueira precisou mandar gente até um bar para arrastá-lo à força até o Grupo Horizonte.Naquele momento, as garrafas de bebida sobre a mesa dele somavam facilmente uma fortuna de oito dígitos.Entre todos os playboys, ele era o de melhor origem e o único, até agora, que realmente tinha assumido o comando de uma empresa.As pessoas ao redor o cercavam, oferecendo cigarros, acendendo-os, servindo bebidas, chamando-o de "Mano Murilo" a todo instante.— Sr. Murilo. — Cecília se aproximou e parou diante dele.— Você veio. — Murilo empurrou a mulher que estava em seus braços e apontou para o lugar ao lado dele. — Sente-se aqui.— Não precisa. Estou acostumada a ficar de pé. Se o senhor tiver algo, pode me dizer. — Cecília manteve os olhos baixos.Ela não havia se produzido especialmente naquela noite, vestia uma calça preta de corte reto, um suéter

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 27

    Nos últimos seis meses, o patrimônio da família Borba havia disparado de forma impressionante e, nesses últimos dias, tinha atingido o auge.Cecília voltou para casa, arrumou algumas roupas em uma mala e seguiu direto para o orfanato.Nos próximos dias, ela pretendia ficar hospedada ali, para poder cuidar melhor das crianças.O orfanato não era grande. Eram cinco ou seis construções simples, abrigando pouco mais de dez crianças. Quase todas tinham algum tipo de doença, em diferentes níveis. E os custos médicos eram enormes.As doações de pessoas caridosas mal cobriam as despesas básicas de vida. A maior parte dos gastos com medicamentos vinha do bolso de Cecília e Manuela. O restante era sustentado com o pouco que Edna conseguia ganhar fazendo trabalhos manuais, uma renda praticamente insignificante.Cecília comprou alguns lanches e distribuiu entre as crianças, depois ajudou Edna com o que estava ao seu alcance.— Ceci, ouvi a Manu dizer que, depois do Ano-Novo, vocês pretendem ir par

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 26

    — O que você está fazendo aqui? — Nicole já tinha visto Cecília antes mesmo de descer do carro.Fingiu não notar, entrou no setor de internação ao lado de Heitor e, depois, inventando que havia esquecido algo, voltou sozinha.— Srta. Nicole. — Cecília inclinou levemente a cabeça.Sua postura era tranquila, nem submissa, nem arrogante, apenas educada e distante.— Para de fingir! — Nicole não se deixou enganar. — Mesmo com essa atitude, para mim você não passa de um espinho atravessado na garganta!— Não há necessidade de tanta hostilidade contra mim. — Disse Cecília, com calma. — Eu sou apenas a secretária do presidente Heitor, e em breve estarei me demitindo. — A expressão dela era serena.— Mesmo que você não vá embora, não vai impedir meu noivado com o Heitor, muito menos que ele se case comigo! — A irritação de Nicole diminuiu um pouco, mas sua língua permaneceu afiada.O inverno de Belnorte era impiedoso. No canto onde estavam, o vento soprava direto, infiltrando-se pelas roupas d

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 25

    — O que foi? — Cecília parecia confusa.— Você já tomou café da manhã? — Judite puxou o ar, quase se engasgando com a própria hesitação.Flávia revirou os olhos, lançando olhares insistentes para a avó.— Já comi. — Cecília assentiu.— Então você... — Judite reuniu coragem, mas, ao abrir a boca, acabou dizendo outra coisa. — Veio como até o hospital?— De carro. — Cecília percebeu imediatamente que havia algo que ela queria dizer. — Sra. Judite, se tem algo a dizer, pode falar.Judite lançou um olhar para Flávia.Seguindo esse olhar, Cecília virou-se e viu Flávia atrás dela, inquieta, coçando a cabeça.Havia algo entre aquelas duas.— Esquece, não é nada. — Disse Judite, acenando com a mão. — Só fiquei curiosa. Como você vai passar o Ano-Novo este ano?Se ela não tivesse mencionado, Cecília nem teria lembrado disso. Durante os dois anos de casamento com Heitor, ela tinha passado o Ano-Novo na casa da família Siqueira.Este ano voltaria ao que era antes.— Vou voltar ao orfanato.— Venh

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status