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O Ano-Novo era, todos os anos, o período mais frio em Belnorte.Em todos os anos anteriores, Judite dava folga a todos os empregados da casa, para que a família pudesse passar o feriado verdadeiramente reunida.Mas, naquele ano, Tânia e os outros haviam viajado para o exterior de férias, e a casa parecia vazia, fria, sem vida.— Vó, que tal a gente chamar a Ceci de novo? — Flávia ainda não tinha desistido. — Se ela vier, a casa fica animada. À noite a gente faz o jantar juntos e passa a virada...— Você quer é que ela venha trabalhar, isso sim. — Judite lançou-lhe um olhar atravessado.Desde que Cecília tinha se casado com Heitor, nos últimos dois anos, ela era a principal responsável pelo jantar de Ano-Novo. Ela cozinhava incrivelmente bem, até Tânia reconhecia isso.Por isso, aquele feriado tinha se tornado raros momentos de harmonia familiar. Tanto Judite quanto Flávia gostavam daquele ambiente caloroso.— Claro que não! — Flávia respondeu sem hesitar. — O principal motivo é que a C
— Secretária Cecília, há um ano saiu uma notícia dizendo que Heitor tinha arranhões no pescoço. Você pode me dizer como aquilo aconteceu? — A curiosidade de Murilo remontava a muito tempo atrás.Heitor era uma figura pública, e Cecília sempre teve cuidado para não deixar marcas nele. Exceto naquela única vez.Naquele dia, ele tinha perdido o controle, e ela não conseguiu suportar.Quem diria que, justamente daquela vez, a mídia captaria tudo.Ainda assim, como a mulher que ele amava estava no exterior e nunca tinha se envolvido em escândalos, mesmo sem explicação, o caso acabou não ganhando grande repercussão.— Não sei. — Respondeu Cecília, com frieza.— Boca bem fechada. Pelo visto, só o Heitor consegue fazer você abrir. — Murilo estalou a língua algumas vezes.Havia um claro duplo sentido em suas palavras, o beijo intenso daquela noite.Cecília estacionou o carro em frente à casa dele e o lembrou:— Sr. Murilo, não se esqueça do que me prometeu.— Fique tranquila. — Ele abriu a port
Murilo era, sem dúvida, um típico herdeiro rico, amante de festas, barulho e excessos. Dizia-se que, no dia em que assumiu a empresa, a família Siqueira precisou mandar gente até um bar para arrastá-lo à força até o Grupo Horizonte.Naquele momento, as garrafas de bebida sobre a mesa dele somavam facilmente uma fortuna de oito dígitos.Entre todos os playboys, ele era o de melhor origem e o único, até agora, que realmente tinha assumido o comando de uma empresa.As pessoas ao redor o cercavam, oferecendo cigarros, acendendo-os, servindo bebidas, chamando-o de "Mano Murilo" a todo instante.— Sr. Murilo. — Cecília se aproximou e parou diante dele.— Você veio. — Murilo empurrou a mulher que estava em seus braços e apontou para o lugar ao lado dele. — Sente-se aqui.— Não precisa. Estou acostumada a ficar de pé. Se o senhor tiver algo, pode me dizer. — Cecília manteve os olhos baixos.Ela não havia se produzido especialmente naquela noite, vestia uma calça preta de corte reto, um suéter
Nos últimos seis meses, o patrimônio da família Borba havia disparado de forma impressionante e, nesses últimos dias, tinha atingido o auge.Cecília voltou para casa, arrumou algumas roupas em uma mala e seguiu direto para o orfanato.Nos próximos dias, ela pretendia ficar hospedada ali, para poder cuidar melhor das crianças.O orfanato não era grande. Eram cinco ou seis construções simples, abrigando pouco mais de dez crianças. Quase todas tinham algum tipo de doença, em diferentes níveis. E os custos médicos eram enormes.As doações de pessoas caridosas mal cobriam as despesas básicas de vida. A maior parte dos gastos com medicamentos vinha do bolso de Cecília e Manuela. O restante era sustentado com o pouco que Edna conseguia ganhar fazendo trabalhos manuais, uma renda praticamente insignificante.Cecília comprou alguns lanches e distribuiu entre as crianças, depois ajudou Edna com o que estava ao seu alcance.— Ceci, ouvi a Manu dizer que, depois do Ano-Novo, vocês pretendem ir par
— O que você está fazendo aqui? — Nicole já tinha visto Cecília antes mesmo de descer do carro.Fingiu não notar, entrou no setor de internação ao lado de Heitor e, depois, inventando que havia esquecido algo, voltou sozinha.— Srta. Nicole. — Cecília inclinou levemente a cabeça.Sua postura era tranquila, nem submissa, nem arrogante, apenas educada e distante.— Para de fingir! — Nicole não se deixou enganar. — Mesmo com essa atitude, para mim você não passa de um espinho atravessado na garganta!— Não há necessidade de tanta hostilidade contra mim. — Disse Cecília, com calma. — Eu sou apenas a secretária do presidente Heitor, e em breve estarei me demitindo. — A expressão dela era serena.— Mesmo que você não vá embora, não vai impedir meu noivado com o Heitor, muito menos que ele se case comigo! — A irritação de Nicole diminuiu um pouco, mas sua língua permaneceu afiada.O inverno de Belnorte era impiedoso. No canto onde estavam, o vento soprava direto, infiltrando-se pelas roupas d
— O que foi? — Cecília parecia confusa.— Você já tomou café da manhã? — Judite puxou o ar, quase se engasgando com a própria hesitação.Flávia revirou os olhos, lançando olhares insistentes para a avó.— Já comi. — Cecília assentiu.— Então você... — Judite reuniu coragem, mas, ao abrir a boca, acabou dizendo outra coisa. — Veio como até o hospital?— De carro. — Cecília percebeu imediatamente que havia algo que ela queria dizer. — Sra. Judite, se tem algo a dizer, pode falar.Judite lançou um olhar para Flávia.Seguindo esse olhar, Cecília virou-se e viu Flávia atrás dela, inquieta, coçando a cabeça.Havia algo entre aquelas duas.— Esquece, não é nada. — Disse Judite, acenando com a mão. — Só fiquei curiosa. Como você vai passar o Ano-Novo este ano?Se ela não tivesse mencionado, Cecília nem teria lembrado disso. Durante os dois anos de casamento com Heitor, ela tinha passado o Ano-Novo na casa da família Siqueira.Este ano voltaria ao que era antes.— Vou voltar ao orfanato.— Venh







