Share

Capítulo 4

Author: Doce Menina
Antes mesmo que as pessoas na sala tivessem tempo de reagir, passos apressados ecoaram do andar de cima.

A mãe de Heitor, Tânia Melo, desceu às pressas. À beira dos cinquenta anos, ela mantinha uma figura impecável, bem cuidada como alguém de pouco mais de trinta.

Enrolada apenas em um xale vermelho, ignorando completamente o frio cortante abaixo de zero lá fora, foi até a entrada para receber quem chegava.

Quando os faróis do carro se apagaram, Cecília finalmente viu com clareza que não era apenas Heitor que descia do carro. Nicole estava ao seu lado.

Tânia, que sempre mantinha certa distância e compostura diante dos outros, agora deixava que Nicole se apoiasse em seu braço.

Heitor, com um leve sorriso no rosto, contornou o carro, abriu o porta-malas e pegou várias sacolas de compras, esperando calmamente enquanto as duas conversavam.

Aquela cena cravou-se nos olhos de Cecília como uma agulha.

Ela desviou o olhar, sentindo-se, de repente, completamente deslocada.

Ele havia trazido a atual para casa. E ela, ali, o que estava fazendo ali?

Mas já era tarde para ir embora. Não havia como evitar o encontro.

— O Heitor não está cuidando bem de você? Você emagreceu! — A voz de Tânia se aproximava. — Como vou explicar isso para a família Borba?

Entre o som dos saltos altos, ouviu-se a risada suave de Nicole.

— Minha mãe só se preocupa se eu atrapalho o Heitor no trabalho, nem liga se eu emagreci ou não. Será que a gente foi trocada na maternidade? Porque vocês duas só enxergam o filho uma da outra!

Tânia riu, dando um leve tapinha na mão dela.

As vozes alegres cessaram no instante em que entraram na sala.

Heitor veio logo atrás, carregando as sacolas de compras. Ao ver Cecília, parou por um instante, franzindo levemente a sobrancelha.

A chegada deles quebrou o clima descontraído. E, entre todos, apenas Cecília era a razão daquele constrangimento.

— Oh? Temos visita em casa? — Nicole reconheceu Cecília imediatamente.

Ela era ainda mais bonita do que imaginava. Sentada ali, sem fazer nada, já era suficiente para despertar insegurança e inveja em outras mulheres.

Não era de se admirar que Heitor tivesse se casado com ela.

Não se sabia se Tânia realmente não a havia visto antes ou apenas tinha fingido não ver.

— O que você está fazendo aqui? — Seu sorriso desapareceu e seu tom era de desagrado.

— Fui eu que trouxe a cunha... digo, a Ceci. — Disse Flávia, levantando-se e colocando a bandeja de frutas sobre a mesa. — Por quê? Não posso trazer uma amiga para casa?

— Amiga da Flavinha... — Tânia lançou-lhe um olhar severo, depois virou-se. — Essa menina traz qualquer pessoa para casa.

Ela puxou Nicole para sentar-se.

Heitor lançou alguns olhares profundos para Cecília antes de colocar as sacolas sobre a mesa.

— Continuem conversando. Vou subir para resolver umas coisas do trabalho. — Ele se virou e subiu as escadas.

— Sr. Roberto, Sra. Judite, acabei de voltar da Ardânia com o Heitor. Trouxe presentes especialmente para vocês! — Nicole levantou-se animada, pegando as sacolas.

Distribuiu os presentes cuidadosamente, um para cada membro da família.

Flávia não simpatizava com ela. Pegou o presente, disse um seco "obrigada" e o deixou de lado.

Já os avós, por educação e também por ela ser praticamente a possível futura esposa de Heitor, trocaram algumas palavras cordiais.

— Eu sabia que vocês iam gostar. Ainda bem que escolhi certo! No futuro, viajando mais com o Heitor, vou trazer outras coisas para vocês. — Ela entregou a última sacola a Tânia. — Este é para o marido da senhora. Guarde para ele, Sra. Tânia, por favor!

— Você é tão atenciosa, diferente do Heitor, que nunca lembra de trazer nada para gente. — Tânia disse, sorrindo de orelha a orelha.

— Quando era você quem trazia presentes para ela, nunca vi ela sorrir assim. — Flávia bufou e se aproximou de Cecília, falando em voz baixa.

A mão de Cecília, apoiada ao lado do corpo, apertou com força o tecido da roupa.

Nicole vinha de uma boa família, era bonita, doce no falar e, acima de tudo, era o grande amor de Heitor. Era natural que fosse bem recebida. Já ela não sabia dizer palavras agradáveis, nem tinha uma origem à altura.

Ela reprimiu suas emoções, forçando um sorriso para Flávia. Por fora, parecia calma. Por dentro, estava extremamente nervosa.

Assim que encontrou uma brecha, levantou-se.

— Sr. Roberto, Sra. Judite, Sra. Tânia, Srta. Nicole, eu vou indo, não quero incomodar.

Ela levantou-se e pegou a bolsa.

— Mas você não disse que ficaria para o jantar? — Judite demonstrou, imediatamente, pesar.

— Não, tenho outros compromissos. — Cecília inclinou levemente a cabeça, acenando para os avós, Judite e Roberto. — Já aproveito para desejar um feliz ano novo. Que tenham saúde e tudo do melhor.

No fundo do coração, acrescentou um silencioso e pesado "adeus".

Judite claramente não queria deixá-la ir, mas, sabendo que Heitor estava ali, e percebendo o desconforto dela, não insistiu.

— Flavinha, vá acompanhá-la.

Flávia assentiu, levantou-se e foi com Cecília.

— Não precisa. — Disse Cecília ao notar o olhar fechado de Tânia.

Ela apressou-se em direção à saída, mas, no momento em que trocava de sapatos, uma voz veio do alto da escada:

— Cecília.

Instantaneamente, o silêncio tomou conta do primeiro andar.

O corpo dela enrijeceu e ela levantou o olhar na direção da voz.

Heitor estava parado na escada, a camisa preta com os primeiros botões abertos, a postura relaxada, mas ainda carregando uma elegância natural.

Nicole levantou-se do sofá, mordendo levemente o lábio, alternando o olhar entre os dois.

— Fique um pouco. Preciso que faça a ata de uma reunião.

— Sr. Heitor, faz muito tempo que não trabalho com os assuntos da matriz. Receio não conseguir acompanhar a reunião. — As sobrancelhas finas de Cecília se franziram.

No andar de cima, a luz estava apagada, deixando o rosto dele em sombras.

— Chega de desculpas. Sobe logo. — Disse ele, impaciente.

Logo virou-se e voltou para o escritório.

Cecília pressionou levemente os lábios, sentindo dois olhares de reprovação vindos da sala. Por um momento, hesitou, pensando se deveria subir.

— Ceci, vai logo! — Disse Flávia, puxando-a escada acima. — Senão ele vai me chamar para fazer isso, e ainda vai reclamar que eu faço tudo errado!

Sempre que Heitor trabalhava em casa, era comum Flávia ser arrastada para ajudar. Recusar não era opção e, se fizesse mal feito, era repreendida.

Para ela, Cecília era uma salvadora. Sem dar tempo para recusa, empurrou-a para dentro do escritório e fechou a porta com um estrondo.

O barulho foi tão alto que fez Heitor levantar levemente o olhar.

Cecília vestia um casaco preto largo, com um gorro branco felpudo. Nos pés, sapatos baixos.

Antes, sua aparência era sempre a mesma: salto alto, roupas formais e, no máximo, um casaco elegante no inverno. Sua imagem era completamente profissional.

Heitor parou por um instante, lembrou-se de que durante os dois anos de casamento, ele nunca a tinha visto assim. Sem saltos altos. Sem formalidade.

— Hoje você não foi trabalhar?
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 30

    O Ano-Novo era, todos os anos, o período mais frio em Belnorte.Em todos os anos anteriores, Judite dava folga a todos os empregados da casa, para que a família pudesse passar o feriado verdadeiramente reunida.Mas, naquele ano, Tânia e os outros haviam viajado para o exterior de férias, e a casa parecia vazia, fria, sem vida.— Vó, que tal a gente chamar a Ceci de novo? — Flávia ainda não tinha desistido. — Se ela vier, a casa fica animada. À noite a gente faz o jantar juntos e passa a virada...— Você quer é que ela venha trabalhar, isso sim. — Judite lançou-lhe um olhar atravessado.Desde que Cecília tinha se casado com Heitor, nos últimos dois anos, ela era a principal responsável pelo jantar de Ano-Novo. Ela cozinhava incrivelmente bem, até Tânia reconhecia isso.Por isso, aquele feriado tinha se tornado raros momentos de harmonia familiar. Tanto Judite quanto Flávia gostavam daquele ambiente caloroso.— Claro que não! — Flávia respondeu sem hesitar. — O principal motivo é que a C

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 29

    — Secretária Cecília, há um ano saiu uma notícia dizendo que Heitor tinha arranhões no pescoço. Você pode me dizer como aquilo aconteceu? — A curiosidade de Murilo remontava a muito tempo atrás.Heitor era uma figura pública, e Cecília sempre teve cuidado para não deixar marcas nele. Exceto naquela única vez.Naquele dia, ele tinha perdido o controle, e ela não conseguiu suportar.Quem diria que, justamente daquela vez, a mídia captaria tudo.Ainda assim, como a mulher que ele amava estava no exterior e nunca tinha se envolvido em escândalos, mesmo sem explicação, o caso acabou não ganhando grande repercussão.— Não sei. — Respondeu Cecília, com frieza.— Boca bem fechada. Pelo visto, só o Heitor consegue fazer você abrir. — Murilo estalou a língua algumas vezes.Havia um claro duplo sentido em suas palavras, o beijo intenso daquela noite.Cecília estacionou o carro em frente à casa dele e o lembrou:— Sr. Murilo, não se esqueça do que me prometeu.— Fique tranquila. — Ele abriu a port

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 28

    Murilo era, sem dúvida, um típico herdeiro rico, amante de festas, barulho e excessos. Dizia-se que, no dia em que assumiu a empresa, a família Siqueira precisou mandar gente até um bar para arrastá-lo à força até o Grupo Horizonte.Naquele momento, as garrafas de bebida sobre a mesa dele somavam facilmente uma fortuna de oito dígitos.Entre todos os playboys, ele era o de melhor origem e o único, até agora, que realmente tinha assumido o comando de uma empresa.As pessoas ao redor o cercavam, oferecendo cigarros, acendendo-os, servindo bebidas, chamando-o de "Mano Murilo" a todo instante.— Sr. Murilo. — Cecília se aproximou e parou diante dele.— Você veio. — Murilo empurrou a mulher que estava em seus braços e apontou para o lugar ao lado dele. — Sente-se aqui.— Não precisa. Estou acostumada a ficar de pé. Se o senhor tiver algo, pode me dizer. — Cecília manteve os olhos baixos.Ela não havia se produzido especialmente naquela noite, vestia uma calça preta de corte reto, um suéter

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 27

    Nos últimos seis meses, o patrimônio da família Borba havia disparado de forma impressionante e, nesses últimos dias, tinha atingido o auge.Cecília voltou para casa, arrumou algumas roupas em uma mala e seguiu direto para o orfanato.Nos próximos dias, ela pretendia ficar hospedada ali, para poder cuidar melhor das crianças.O orfanato não era grande. Eram cinco ou seis construções simples, abrigando pouco mais de dez crianças. Quase todas tinham algum tipo de doença, em diferentes níveis. E os custos médicos eram enormes.As doações de pessoas caridosas mal cobriam as despesas básicas de vida. A maior parte dos gastos com medicamentos vinha do bolso de Cecília e Manuela. O restante era sustentado com o pouco que Edna conseguia ganhar fazendo trabalhos manuais, uma renda praticamente insignificante.Cecília comprou alguns lanches e distribuiu entre as crianças, depois ajudou Edna com o que estava ao seu alcance.— Ceci, ouvi a Manu dizer que, depois do Ano-Novo, vocês pretendem ir par

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 26

    — O que você está fazendo aqui? — Nicole já tinha visto Cecília antes mesmo de descer do carro.Fingiu não notar, entrou no setor de internação ao lado de Heitor e, depois, inventando que havia esquecido algo, voltou sozinha.— Srta. Nicole. — Cecília inclinou levemente a cabeça.Sua postura era tranquila, nem submissa, nem arrogante, apenas educada e distante.— Para de fingir! — Nicole não se deixou enganar. — Mesmo com essa atitude, para mim você não passa de um espinho atravessado na garganta!— Não há necessidade de tanta hostilidade contra mim. — Disse Cecília, com calma. — Eu sou apenas a secretária do presidente Heitor, e em breve estarei me demitindo. — A expressão dela era serena.— Mesmo que você não vá embora, não vai impedir meu noivado com o Heitor, muito menos que ele se case comigo! — A irritação de Nicole diminuiu um pouco, mas sua língua permaneceu afiada.O inverno de Belnorte era impiedoso. No canto onde estavam, o vento soprava direto, infiltrando-se pelas roupas d

  • Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!   Capítulo 25

    — O que foi? — Cecília parecia confusa.— Você já tomou café da manhã? — Judite puxou o ar, quase se engasgando com a própria hesitação.Flávia revirou os olhos, lançando olhares insistentes para a avó.— Já comi. — Cecília assentiu.— Então você... — Judite reuniu coragem, mas, ao abrir a boca, acabou dizendo outra coisa. — Veio como até o hospital?— De carro. — Cecília percebeu imediatamente que havia algo que ela queria dizer. — Sra. Judite, se tem algo a dizer, pode falar.Judite lançou um olhar para Flávia.Seguindo esse olhar, Cecília virou-se e viu Flávia atrás dela, inquieta, coçando a cabeça.Havia algo entre aquelas duas.— Esquece, não é nada. — Disse Judite, acenando com a mão. — Só fiquei curiosa. Como você vai passar o Ano-Novo este ano?Se ela não tivesse mencionado, Cecília nem teria lembrado disso. Durante os dois anos de casamento com Heitor, ela tinha passado o Ano-Novo na casa da família Siqueira.Este ano voltaria ao que era antes.— Vou voltar ao orfanato.— Venh

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status