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02

Autor: JCVIEIRAh
last update Data de publicação: 2025-01-18 10:25:59

Nathalia Sapatin Narrando

Um mês já havia se passado desde que começamos o projeto no Capão. O trabalho fluía com surpreendente rapidez e eficiência. Os moradores eram receptivos, participativos — orgulhosos, até. Tudo estava indo de vento em popa.

A tal Dressinha, que nos deixou uma primeira impressão forte no dia do táxi, não apareceu mais. Ela havia enviado uma representante legal que fez toda a negociação com a equipe.

Mas o destino tem um senso de humor peculiar.

E eu estava prestes a cruzar com ela novamente.

Era fim de expediente. O sol já descia no horizonte, pintando o céu com tons alaranjados e rosados. A poeira suspensa no ar refletia a luz como ouro fino. Yasmin tinha ido me visitar para ver o andamento do projeto.

Estávamos rindo, falando sobre prazos e moradores participativos, quando chegamos ao estacionamento improvisado.

O carro dela não estava lá.

O sorriso dela morreu primeiro.

— Meu carro… Nathalia, meu carro! — ela disse, girando em círculos, como se o veículo fosse surgir do nada.

Senti meu estômago contrair.

— Calma, Yasmim. Vamos chamar a polícia, fazer um boletim — falei, já puxando o celular da bolsa.

— Não façam isso! — uma voz feminina interrompeu.

Uma garota saiu de uma casa próxima. Morena, cabelos cacheados presos em um coque despretensioso, short jeans e camiseta larga. O olhar dela era firme.

— Como assim não podemos chamar a polícia? — Yasmin rebateu, incrédula. — Meu carro foi roubado!

A garota cruzou os braços e olhou ao redor antes de responder:

— Aqui no Capão as coisas são diferentes. Vocês não querem arranjar problema, querem? Eu conheço a Dressinha desde pequena. Posso falar com ela pra vocês. Ela resolve isso rápido.

Meu coração deu um pequeno salto ao ouvir aquele nome.

Dressinha.

Olhei para Yasmin.

— Não temos nada a perder.

Ela hesitou… mas assentiu.

A garota nos guiou por ruas estreitas. Casas de tijolos aparentes. Cheiro de churrasco no ar. Crianças correndo. Olhares curiosos acompanhando nossos passos.

O céu escurecia lentamente.

Chegamos a uma construção simples, porém mais estruturada. Uma placa desgastada dizia: Escritório Comunitário.

— Esperem aqui — disse a garota, entrando sem bater.

Eu e Yasmin trocamos um olhar tenso.

Segundos depois, ela reapareceu na porta.

— Andressa!

Uma voz feminina ecoou lá dentro.

— Ei! Já falei pra você não me chamar assim!

Ela surgiu no corredor.

Andressa.

Ou melhor…

Dressinha.

E meu corpo reagiu antes da minha mente.

Dressinha surgiu da porta do tal “Escritório Comunitário” com uma postura relaxada, mas o olhar atento de quem enxerga tudo ao redor.

Ela usava um top preto justo que destacava os ombros e a postura firme. A calça jeans clara estava larga nas pernas, dobrada de qualquer jeito, quase caindo sobre um par de tênis coloridos já um pouco gastos — como se conforto sempre viesse antes de aparência. Os braços eram marcados por tatuagens que subiam do antebraço até o ombro, desenhos escuros que contrastavam com a pele levemente dourada pelo sol.

O cabelo preto, longo e liso, caía solto pelas costas, meio desalinhado, como se ela tivesse prendido e soltado várias vezes ao longo do dia. Havia algo de despreocupado nela, mas não era descuido — era atitude.

Os olhos eram intensos, levemente semicerrados, como se estivesse sempre avaliando o ambiente antes de decidir em quem confiar. Quando cruzaram com os meus, senti que ela não estava apenas olhando… estava medindo.

Ela se apoiou no batente da porta com uma das mãos, a outra dobrada sobre o joelho, postura casual demais para quem estava no meio de uma situação tensa. Mas havia firmeza ali. Segurança.

Dressinha não precisava levantar a voz para ser notada. A presença dela ocupava o espaço antes mesmo que qualquer palavra fosse dita.

— Vai se adianta — ela disse, encostando no batente da porta.

— Roubaram o carro dela — falou Nanda, apontando para Yasmin.

Dressinha me olhou.

Direto.

— Então roubaram o carro da sua amiguinha — disse ela, a voz baixa, quase divertida.

— É — respondi, firme.

— E isso não é certo, Andressa — Nanda insistiu.

Dressinha fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.

— Nanda… — a voz dela ficou mais grave — já falei pra não me chamar assim.

— Mas esse é seu nome.

Ela abriu um sorriso torto.

— E o que eu tenho a ver com isso?

Yasmin segurava minha mão agora.

— Dressinha, ela é trabalhadora — Nanda continuou. — Ralou pra conseguir esse carro.

Silêncio.

O bar ao lado tocava música alta. Risadas ecoavam. Mas ali, o ar estava pesado.

— Eu tenho seguro — Yasmin falou, tentando recuperar a dignidade. — É só dar queixa na delegacia.

Dressinha riu.

— Delegacia? Que mané delegacia? Aqui na quebrada quem resolve as paradas sou eu.

Ela deu um passo à frente.

— Por isso eu falei pra não envolver polícia — Nanda murmurou.

— Aqui polícia não é bem-vinda. Se é que me entendem — completou Dressinha.

Eu ergui o queixo.

— Então você vai nos ajudar?

Ela arqueou a sobrancelha.

— E você é quem?

Sustentei o olhar.

— Nathalia Sapatin.

Ela repetiu devagar.

— Nathalia…

O jeito que meu nome saiu da boca dela fez algo vibrar dentro de mim.

— Acho que te conheço — ela inclinou a cabeça. — Você que tava com aquele engomadinho no táxi, né? O que cê tá fazendo na quebrada?

— Sou arquiteta. Projeto do shopping da Known.

— Ahhh — ela sorriu de lado. — A dos engomadinhos.

Ela olhou para Yasmin.

— E você?

— Ela tem nome — eu cortei. — Yasmim.

Dressinha voltou os olhos para mim.

— Fica brava não, Nathalia.

Ela deu mais um passo. Agora estava perto demais.

— Até que você é bonitinha — disse, me analisando sem pudor. — Esse jeito toda certinha… mas com esse olhar aí.

Senti o calor subir pelo meu rosto.

— Andressa, olha o respeito — Nanda repreendeu.

Dressinha mandou um beijo no ar.

— Relaxa.

Eu sorri de canto.

— Deixa ela falar, Nanda. É a única coisa que ela parece fazer bem.

Ela soltou uma risada baixa.

— Tá me tirando?

— Se você não tem capacidade de recuperar o carro da minha amiga — respondi, firme — deixa que a gente resolve.

Ela se aproximou ainda mais.

Eu podia sentir o perfume dela. Forte. Marcante.

— Nathalia — ela disse meu nome como se testasse o sabor. — Uma hora dessas esse carro já deve estar desmontado.

Yasmin perdeu a paciência.

— EU NÃO VOU ESQUECER NADA!

— Baixa o tom — Dressinha falou, calma.

Ela voltou os olhos para mim.

— Vamos fazer assim… eu resolvo isso. Mas vocês vão ficar me devendo um favor.

— Ninguém aqui vai te dever nada — Nanda rebateu.

Ela ignorou.

— E aí, Nathalia?

O desafio estava no olhar.

E algo em mim… gostou.

— Tudo bem — respondi.

Um sorriso lento surgiu nos lábios dela.

Vitória.

Mas também curiosidade.

Ela se inclinou e, antes que eu pudesse reagir, roçou os lábios no meu rosto.

Não foi exatamente um beijo.

Foi um aviso.

Ela se afastou e saiu andando pela rua iluminada pelos postes amarelados.

E enquanto a noite finalmente tomava o céu do Capão…

Eu soube.

Aquilo não tinha sido apenas um acordo.

Tinha sido o início de algo muito mais perigoso. 🔥

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Último capítulo

  • Aqueles Olhos    05

    Andressa narrando— Eu vou tomar um banho — disse Yasmin, séria. — E quando eu terminar, nós vamos ter uma conversa.O tom dela não deixava espaço para ironia.Eu estava no sofá, tentando aproveitar um raro momento de silêncio, mas Yasmin estava parada no meio da sala, braços cruzados, expressão rígida. Eu tinha evitado ela ontem, mas hoje não vai ser possível. A luz da tarde que atravessava a janela marcava ainda mais o desenho do rosto dela — decidido, tenso.Ela não estava apenas preocupada.Estava afetada.— Você perdeu completamente a noção do perigo — começou, com uma calma controlada que me preocupava mais do que se ela estivesse gritando. — Se envolver com a Andressa já é complicado. Mas trazer isso para dentro da sua casa?Suspirei, ajeitando a almofada nas costas.— Não estou “me envolvendo”. Estavamos conversando.— Não é o que parece.Eu sustentei o olhar dela.— E o que parece?Yasmin caminhou lentamente pela sala antes de responder.— Parece que você está procurando algo

  • Aqueles Olhos    04

    Então ela voltou, bateu no vidro e eu baixei. — Quer subir? — ela perguntou, como se fosse algo simples. Eu hesitei. Mas não disse não.— Vem, entra — Nathalia falou, abrindo espaço na porta.Eu dei aquela analisada rápida no corredor chique demais pro meu padrão.— Ih, arquiteta… condomínio de novela, hein.— Para de graça e entra logo.Entrei. O apartamento dela tinha cheiro de limpeza e perfume suave. Tudo organizado. Sofá cinza, quadros modernos na parede, luz amarela criando um clima quase íntimo demais pra duas pessoas que ainda estavam fingindo que era só conversa. Ela fechou a porta e soltou o ar. — Droga de bota… — murmurou, tentando tirar o salto com dificuldade. Eu observei. Eu encostei na parede, cruzando os braços, olhando de cima a baixo.— Aí, com todo respeito mesmo… deixa eu dar uma força.Ela me olhou por cima do ombro.— Você sabe tirar isso?— Sei desenrolar coisa mais difícil que isso aí.Ela riu baixo e sentou no sofá.Eu me agachei na frente dela. O vest

  • Aqueles Olhos    03

    Andressa narrando A semana se arrastou. Eu já tinha dado o salve geral, cobrado contato, apertado quem precisava apertar. O carro da Yasmim tava localizado — só faltava organizar a entrega. Mas não era só isso que tava me deixando inquieta. Não era só resolver o B.O. Era Nathalia. Passei o rádio pra Nanda e mandei avisar que eu tinha notícias. Pedi pra ela vir sozinha. Eu tava sentada na mesa do fundo do restaurante da Nanda, boné virado pra trás, braço apoiado na madeira riscada de tempo. O lugar tinha aquele cheiro bom de tempero fresco, alho refogado, pimenta no ponto. A luz do fim de tarde entrava pelas janelas e deixava tudo dourado. Quando a porta abriu, a conversa do salão diminuiu um pouco. Eu levantei os olhos. E aí ela entrou. Nathalia não andava — ela deslizava. Vestia um vestido branco justo, curto, marcando as curvas com uma segurança que não era vulgar, era consciente. Por cima, uma jaqueta branca oversized caía pelos ombros, deixando a pele à mostra de propó

  • Aqueles Olhos    02

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  • Aqueles Olhos    01

    Nathalia Sapatin Narrando— Essas ruas de São Paulo, vou te contar, hein — resmunguei, olhando pela janela do táxi. O trânsito parecia uma pintura estática, carros empilhados como se ninguém tivesse pressa de chegar a lugar algum. O céu cinza refletia nos vidros dos prédios, e o som constante das buzinas criava uma trilha irritante para aquela manhã que já começava tensa.Virei-me para Breno, que mexia no celular despreocupado, como se estivéssemos indo a um café e não a uma reunião decisiva.— Tem como fazer outra rota, não? — perguntei ao motorista, inclinando o corpo para frente. Ele permaneceu calado, a expressão impassível refletida no retrovisor. — Desse jeito, vamos chegar atrasados para a reunião.— Calma, Nathalia — disse Breno, levantando os olhos do celular e me oferecendo aquele sorriso confiante e levemente irônico. Ele esticou o braço pelo banco, relaxado demais para a situação. — Eles vão esperar. A Known precisa disso tanto quanto a gente.Olhei para ele com ceticismo,

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