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Capítulo 2

Autor: João Beijão
— Achei que você ainda estivesse com raiva e que não viesse. Não fique chateada com a minha família. Eles só ficaram preocupados demais comigo, e foi por isso que aconteceram todos aqueles mal-entendidos. Mas acabou sendo bom você ter vindo hoje. Vou aproveitar para apresentar vocês e, depois que tudo estiver esclarecido, vai ficar tudo bem. — Com a maior naturalidade, ela entrelaçou o braço no meu e me conduziu até os outros, abrindo um sorriso radiante. — Família, olhem só quem chegou!

Em um instante, todos os olhares se voltaram para mim.

Assim que me viram, Francisco e os outros dois ficaram com os sorrisos congelados no rosto.

— Esta é a minha melhor amiga, Renata. Ela trabalha na psiquiatria do hospital. Vocês já devem ter se encontrado por lá, não?

Os olhos de Renata Vieira vacilaram por alguns instantes antes que ela conseguisse falar, rígida.

— Dra. Gabriela, olá...

Seu tom era educado e distante, como se aquela fosse a primeira vez que nos víamos.

Sem perceber nada de estranho, Leonor me puxou até Henrique Sousa:

— Este é o Henrique, meu melhor amigo da faculdade. Foi esse advogado idiota que processou você, mas eu já dei uma bronca nele. Dra. Gabriela, por favor, não leve a sério o que esse imbecil fez.

Henrique assumiu uma expressão complicada e desviou o olhar.

— Mana...

Sua voz saiu tão baixa que se perdeu em meio ao barulho ao redor, e Leonor não ouviu.

Por fim, ela me levou até Francisco e se aninhou carinhosamente em seus braços.

— E este é o meu marido. Ele é...

Interrompi com um sorriso:

— Francisco, o dono deste restaurante.

Leonor ficou surpresa e olhou de Francisco para mim.

— Como você sabe? Vocês já se conheciam?

Soltei uma risada e, sustentando deliberadamente o olhar de advertência do homem, respondi devagar:

— Porque ele é meu namorado. Estamos juntos há sete anos e, ultimamente, estávamos até preparando o nosso casamento. Este restaurante, inclusive, foi comprado por ele para mim. Ele nunca contou nada disso a você?

Anos atrás, eu havia comentado casualmente: "Seria tão bom poder sentar aqui todos os dias e ficar olhando o mar."

No dia seguinte, este restaurante se tornou meu presente de aniversário de vinte e seis anos.

Apenas seis meses atrás, quando Francisco disse que a empresa estava com problemas de caixa, concordei em vendê-lo para ajudá-lo a superar aquela dificuldade.

Mas, pelo que eu via agora, aquilo não tinha passado de mais uma de suas mentiras.

— Dra. Gabriela, do que você está falando? — Leonor se virou para mim, com os olhos avermelhados. — Francisco e eu nos casamos no civil há um ano. Como ele pode ser seu namorado? O que está acontecendo, afinal?

Francisco entrou em pânico na mesma hora:

— Leonor, me deixe explicar...

Ao ouvir aquilo, senti apenas um silêncio mortal se instalar dentro de mim.

Eu era a pessoa traída e enganada, mas a única coisa que importava para ele era se explicar para Leonor.

De repente, comecei a rir e a jogar na cara deles uma lembrança após a outra:

— Ele tem uma cicatriz de uma cirurgia na parte inferior das costas. Ficou com ela quatro anos atrás, quando me protegeu durante uma agressão no hospital. E aquele amuleto de proteção que ele carrega consigo fui eu que consegui depois de ir à igreja rezar por ele... Portanto, sim, você é a outra mulher que ele manteve escondida de mim.

— Gabriela, chega!

Diante dos olhos completamente vermelhos de Leonor, os três gritaram ao mesmo tempo para me interromper.

O olhar de Francisco ficou gelado de imediato.

Renata e Henrique também me encaravam com evidente reprovação.

— Por acaso eu disse alguma mentira? Francisco, Renata... E você também, Henrique. Vocês tiveram coragem de fazer tudo isso, mas agora não têm coragem de admitir?

Francisco abraçou Leonor, que chorava tanto que o corpo inteiro tremia, e disse em voz grave:

— Gabriela, Leonor não sabia de nada. Se você tem alguma coisa para resolver, resolva comigo. Não fale dela desse jeito.

Renata também deu um passo à frente, com a voz cortante:

— Gabriela, Francisco deixou de amar você há muito tempo. Agora, ele e Leonor é que se amam de verdade.

Henrique finalmente reuniu coragem para me enfrentar:

— Mana, já que você sabe de tudo, deixe os dois ficarem juntos. Leonor arriscou a própria vida para ter o filho dele. Você pode fazer o escândalo que quiser, não vai conseguir separar os três.

Uma frase cruel após a outra me atingia, e meus olhos ardiam tanto que eu mal conseguia conter as lágrimas.

— Então isso dá a vocês o direito de se unirem para destruir a minha carreira? De mandar alguém quebrar a minha mão?

Fui tomada por uma onda avassaladora de indignação e revolta.

Fixei os olhos em Leonor e depois passei o olhar por cada um deles.

— Ela é a amante dele, e vocês são cúmplices. Estou errada?

Antes mesmo que eu terminasse de falar, um copo de água gelada foi despejado diretamente sobre a minha cabeça. A água encharcou meus cabelos, e naquele instante senti morrer o pouco de dignidade que ainda restava dentro de mim.

— Acorde, Gabriela! Quem foi abandonada aqui foi você, não a Leonor!

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