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Até Onde o Amor Não Alcança
Até Onde o Amor Não Alcança
Autor: João Beijão

Capítulo 1

Autor: João Beijão
— Já cancelei o salão e o banquete do casamento. Não se esqueça de avisar os parentes e os amigos.

Ao ouvir aquilo, Francisco pisou bruscamente no freio.

— Gabriela Sousa, você está falando sério? O que foi? Agora você não acredita nem no seu próprio irmão nem na sua melhor amiga? — Ele virou o rosto para mim, com a expressão completamente fechada. — Talvez você realmente devesse procurar um psicólogo. Uma relação normal não funciona assim. Se você não acredita nem no seu próprio irmão, como espera que eu prove a minha inocência? Se nem a confiança mais básica existe entre nós, que sentido tem esse casamento?

Assim que terminou de falar, o telefone dele tocou.

Ao ver quem estava ligando, o olhar de Francisco se suavizou imediatamente.

— Tenho coisas para resolver. Vá para casa e pense no que fez. Por hoje, vou fingir que nada aconteceu.

A Mercedes preta arrancou sem a menor hesitação. Inconformada, parei um táxi e fui atrás dele.

Meia hora depois, o rastreador no meu celular indicava que ele havia parado em um restaurante à beira-mar.

Do outro lado das enormes janelas de vidro, vi que lá dentro acontecia uma animada festa de batizado.

Em meio aos brindes e às taças erguidas, só vi rostos conhecidos.

E a mulher cercada por todos usava no pescoço o mesmo colar de pérolas que eu havia encontrado no carro de Francisco algum tempo antes.

No cabelo, ela usava o elástico que eu havia tirado do bolso dele na terceira vez...

Quando finalmente reconheci aquele rosto, toda a calma que eu vinha me esforçando para manter desmoronou num instante.

Era ela.

Um mês antes, ao trocar o soro de uma paciente, eu cometi um descuido que fez o sangue refluir pelo equipamento.

A família de Leonor Pereira, então, apresentou uma queixa formal à direção do hospital, me acusando de "maus-tratos à paciente".

Durante a discussão, o segurança dela me empurrou e me derrubou no chão. Fraturei a mão direita na mesma hora e ainda fui afastada do trabalho.

E agora, meu próprio irmão, o advogado que havia corrido de um lado para o outro para cuidar do processo por mim... Estava ocupado afastando as bebidas de Leonor e bebendo no lugar dela.

Minha melhor amiga, que tantas vezes havia enfrentado a direção do hospital por minha causa e passado noites em claro preparando recursos para me defender, naquele momento recebia os convidados de Leonor.

Quanto a Francisco, que minutos antes ainda insistia com tanta convicção em sua inocência, ele era o mais ridículo de todos.

— Francisco, você chegou tarde! Não acha que deveria fazer alguma coisa para compensar e agradar a Leonor?

Francisco aproveitou a deixa, passou o braço pela cintura de Leonor e, sob os gritos e as provocações dos presentes, se inclinou e a beijou.

Tudo o que acontecia diante dos meus olhos parecia uma piada cruel, levando minha sanidade ao limite.

Então era isso. Eles eram a família de Leonor. Tinham sido eles que se agarraram àquele pequeno erro, transformaram a reclamação em um escândalo e fizeram com que eu perdesse o emprego.

Por um instante, tive a sensação de que uma chapa de ferro em brasa havia atingido meu rosto. O calor ardente percorreu meus nervos e explodiu dentro da minha cabeça.

Então era essa a sensação de ser feita de palhaça por todos enquanto agiam pelas minhas costas.

Só voltei a mim quando o celular vibrou e a notificação da transferência do hospital apareceu na tela:

[Dra. Gabriela, sua solicitação de transferência foi aprovada. Por favor, se apresente ao Hospital Nova Esperança dentro de três dias.]

Fiquei olhando para a tela e, de repente, tudo me pareceu ridículo. Talvez fosse melhor assim. Já não havia nada naquela cidade que justificasse a minha permanência.

Em três dias, tudo entre mim e Francisco chegaria ao fim.

Com passos pesados, me virei. Não queria continuar olhando para aquela cena nauseante.

No entanto, Leonor pareceu me reconhecer e saiu.

— Dra. Gabriela? Você veio especialmente para a festa de batizado do nosso pequeno?

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