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Até o Último Contrato
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Lyaah

O Teto de Vidro da Rotina

last update Veröffentlichungsdatum: 11.09.2026 02:30:41

CAPÍTULO 1

O Teto de Vidro da Rotina

O alarme do relógio de mesa nem sequer teve a chance de emitir o seu primeiro bip. Às quatro horas e trinta minutos da manhã, os olhos de Jessy Mason já estavam abertos, fixos no teto de gesso rebaixado do seu apartamento no trigésimo andar. A iluminação suave da cidade atravessava a fresta da cortina blecaute, desenhando linhas prateadas sobre o piso de madeira clara.

Sem hesitar por um único segundo, ela afastou o edredom de seda. O corpo respondia a uma rotina meticulosamente calculada ao longo dos últimos dez anos. Não havia espaço para o hábito de adiar o alarme ou para momentos de contemplação matinal. Para a cofundadora e diretora-executiva da Mason & Partners Advertising, o tempo não era apenas dinheiro; era a métrica exata pela qual ela media seu próprio valor em um mercado implacável.

Caminhou até o banheiro privativo. A luz fria do espelho iluminou suas feições. Jessy era uma mulher indiscutivelmente marcante: a pele negra impecável, os traços marcados por uma elegância natural e o cabelo crespo perfeitamente alinhado em um corte moderno e volumoso. No entanto, ao se aproximar do vidro, os olhos atentos da publicitária não conseguiram ignorar as sombras sutis sob as pálpebras inferiores. Uma leve pontada no lado esquerdo da cabeça lembrava que a noite de sono havia sido, mais uma vez, interrompida por e-mails madrugadores e revisões mentais de planilhas.

Jessy ignorou o incômodo. Abriu a torneira, lavou o rosto com água gelada e iniciou sua sequência de cuidados.

Às cinco horas e quinze minutos, vestia um terno azul-marinho sob medida, com um corte estruturado que exalava autoridade. Os brincos geométricos em tom de ouro envelhecido completavam o visual. Ela se olhou no espelho de corpo inteiro, ajustando a gola da camisa de cetim. A imagem refletida era exatamente o que o mercado corporativo esperava de uma Mason: poder, controle e inabalável eficiência.

A cozinha integrada, projetada por um dos arquitetos mais renomados da cidade, parecia um cenário de revista — limpa, moderna e praticamente intocada. Jessy serviu-se de uma xícara de café preto bem forte, dispensando o café da manhã sólido. Olhou para a bancada onde repousava um pote de vitaminas que sua médica havia receitado na última consulta, há três meses. O frasco continuava lacrado.

— Depois eu começo — murmurou para si mesma, uma frase que se tornara seu mantra pessoal para qualquer assunto que não envolvesse trabalho.

Às seis horas em ponto, sua SUV preta deixava a garagem do edifício em direção ao coração financeiro da metrópole. O trânsito matinal começava a se adensar, mas no interior do veículo, o silêncio só era quebrado pela voz pausada do assistente virtual ditando a agenda do dia.

— Oito horas: reunião de alinhamento com a equipe de criação. Dez horas: videoconferência com os investidores de Chicago. Treze horas: almoço de negócios com a diretoria de mídias. Quinze horas: apresentação para o conselho da holding...

Jessy mantinha as mãos firmes no volante. A lista de compromissos parecia interminável, mas era exatamente assim que ela gostava. O trabalho preenchia cada espaço vago, afastando pensamentos sobre a falta de uma vida pessoal, a ausência de relacionamentos duradouros ou o fato de que ela não sabia qual tinha sido a última vez que tirara uma semana inteira de férias.

A Mason & Partners ocupava os dois últimos andares de uma torre espelhada no centro executivo. Quando o elevador privativo abriu no quadragésimo andar, o escritório ainda estava silencioso. Apenas a equipe de limpeza e alguns analistas mais afoitos circulavam pelo piso de porcelanato brilhante.

Jessy caminhou até sua sala no canto do andar — um espaço amplo, cercado por paredes de vidro panorâmicas que ofereciam uma vista espetacular da cidade. Sobre a mesa de vidro temperado, uma pilha de relatórios impressos e um tablet ligado com dezenas de notificações pendentes a aguardavam.

Ela se sentou na cadeira de couro, tomou mais um gole do café que trazia em seu copo térmico e abriu o primeiro arquivo. O mercado estava em constante transformação, e a Mason & Partners precisava garantir o contrato do maior empreendimento imobiliário e estrutural do ano se quisesse consolidar sua liderança absoluta no setor.

Às sete horas e quarenta e cinco minutos, a porta de sua sala foi tocada suavemente. Sua assistente pessoal, Maya, entrou trazendo uma pasta de couro e uma xícara nova de café fresco.

— Bom dia, Dra. Mason. Vejo que chegou cedo como de costume — disse Maya, mantendo um tom profissional, embora seu olhar revelasse preocupação. — A senhora revisou o briefing do projeto EcoHorizonte?

— Bom dia, Maya. Já revisei duas vezes — respondeu Jessy, sem levantar os olhos da tela. — Precisamos ajustar a abordagem do conceito visual. Quero algo que dialogue não apenas com a sustentabilidade, mas com o prestígio e o legado que o empreendimento representa.

Maya hesitou por um segundo antes de falar.

— Jessy... você checou sua pressão hoje? A sua mãe ligou para a recepção ontem à noite dizendo que você não atendeu às chamadas dela no fim de semana.

Jessy finalmente ergueu o olhar. Seu tom permaneceu firme, mas suave.

— Minha mãe se preocupa demais. Estou ótima, Maya. E quanto à reunião com a diretoria do grupo de investimentos? Tudo confirmado para as quinze horas?

— Tudo confirmado. Mas recebi uma atualização da holding há vinte minutos — pontuou Maya, abrindo a pasta. — Eles incluíram um novo participante na mesa de apresentação. A construtora responsável pela obra principal fez questão de enviar o próprio fundador para alinhar a campanha corporativa.

Jessy franziu ligeiramente as sobrancelhas. Não gostava de mudanças de última hora no protocolo de apresentações.

— Qual é a construtora?

— A Conor EcoStructures — respondeu Maya. — O CEO em pessoa estará presente. Ethan Conor.

O nome ressoou no escritório silencioso. Jessy conhecia a reputação da Conor EcoStructures — uma gigante que vinha redefinindo a arquitetura corporativa no país. Ela sabia que Ethan Conor era conhecido por ser tão implacável e perfeccionista na engenharia quanto ela era na comunicação.

Uma leve pontada de dor voltou a pulsar em sua têmpora. Jessy levou os dedos à cabeça discretamente, massageando a pele por um breve segundo antes de recompor a postura.

— Perfeito — disse ela, fechando o tablet e ficando de pé. — Certifique-se de que a sala de reuniões principal esteja impecável. Se o Sr. Conor espera perfeição, é exatamente isso que a Mason & Partners vai entregar.

Ela ajeitou a estrutura do paletó e caminhou em direção à porta. O dia apenas começara, e Jessy Mason não tinha intenção de deixar transparecer nenhuma falha na armadura que levou anos para construir.

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