تسجيل الدخولPOV RIANE
O mormaço do meio-dia no território da alcateia não era nada perto do embrulho que senti no estômago quando Juma abriu a boca. Eu tava na varanda da cabana de suprimentos, puxando o nó de uma rede de lona velha pra prender no gancho de ferro. O sol rachava a terra batida do pátio, as cigarras gritavam no mato alto, e o cheiro de tambaqui assando na brasa da fogueira comunitária empesteava o ar parado. Juma parou ao meu lado. Não fez barulho na terra, mas eu conhecia aquele jeito de ficar parada. Vinha problema. Ela estava com a expressão fechada de quem tinha notícia ruim pra entregar. — A balsa do Solimões encostou no igarapé principal — ela soltou, direta, a voz seca. — A Yara tá subindo a trilha com a escolta pessoal. Veio propor casamento político pro Alfa. Pra fechar a fronteira de vez. Dois dias de negociação. Continuei segurando a corda da rede. O peito esquentou na mesma hora. Não era o vínculo. Aquilo veio da frase da Juma. Meu corpo entendeu o problema antes da cabeça. Travei a mandíbula e esperei ela continuar. Larguei a corda. Ela bateu no pilar de madeira com um baque surdo. — E eu com isso? — Saiu mais fraco do que eu queria. Juma não retrucou. Só me olhou de cima a baixo, do jeito que ela lia gente — rápido, sem disfarçar. Ela não precisava de resposta. Virou as costas e saiu andando devagar na direção da casa de comando. A inteligência mandava eu dar meia-volta, descer pro rio, me enfiar na várzea e esperar a poeira baixar. Não aconteceu. Quando percebi, já estava atravessando o terreiro em direção à varanda principal. A bota afundava na terra seca a cada passo. O pátio estava tenso. Os Deltas da aldeia já observavam a escolta de estranhos que vinha subindo do rio. A reunião já tava acontecendo. As portas duplas de cedro maciço da casa de comando tavam escancaradas por causa do calorão. Parei do lado de fora, encostada no pilar de sustentação, engolida pela sombra grossa da cobertura de palha. Yara tava de pé bem no centro da sala. Ela usava uma camisa tática verde-oliva com as mangas dobradas até o cotovelo, calça cargo preta e coturno sujo de lama da beirada do rio. O cabelo liso escorrido tava preso num rabo de cavalo alto. Ela não parecia uma fêmea pedindo favor em terra alheia. Ela era do tipo que não precisa rosnar pra mostrar que tem dente. Caruã estava na cabeceira da mesa. A expressão dele não entregava nada. Quem não conhecia podia chamar aquilo de calma. Eu sabia que não era. Araken estava à direita, atento como um urubu esperando movimento. — O Solimões quer a paz, Caruã — disse Yara. — Nós dividimos a mesma bacia. Mas meu pai já perdeu a paciência com diplomacia. Apertei os dentes. O estômago embrulhou na mesma hora. — Ele exige uma garantia de sangue — Yara continuou, cravando o olho no Alfa. — Uma aliança legítima entre nós dois une as fronteiras, cala os conselheiros rebeldes e resolve o problema dos batedores de uma vez só. O ciúme bateu físico, quente e irracional, fuzilando a linha da minha nuca e descendo espinha abaixo. A vontade cega era entrar naquela sala, enfiar a bota na mesa e mandar a princesa do Solimões voltar pro barco dela. Lá dentro, Caruã travou. Ele tava com o dedo indicador em cima do mapa da fronteira norte, mostrando uma rota. Aí parou. A frase morreu no meio. Caruã ergueu os olhos devagar. Por um segundo, pareceu não ver ninguém ali. O olhar dele atravessou a varanda e veio direto na minha direção. Exatamente pro pilar onde eu tava escondida. Foram dois segundos. O que eu tava sentindo bateu nele antes que eu quisesse. Caruã sentiu o meu ciúme e travou na hora. Na frente da pior pessoa possível pra ver. Ele piscou, desviou o rosto de volta pra mesa, pigarreou grosso e forçou a voz a voltar pro rumo da patrulha. Mas o estrago tava feito. Yara percebeu. O olhar afiado de quem vivia de política acompanhou a reação do Alfa. Ela cruzou as pernas, e o canto da boca subiu quase nada. Tinha visto. E não ia esquecer. A reunião se arrastou por mais meia hora. Meia hora do meu peito latejando, do meu suor grudando a camisa nas costas. Caruã encerrou a sessão levantando da cadeira. O Araken saiu atrás pra checar a escolta lá fora. Eu continuei parada na varanda. Sem conseguir me mexer. Yara saiu por último. Ela cruzou a porta de cedro com a passada firme. Quando passou por mim, na sombra, ela não acelerou o passo. Ela não virou de frente pra comprar briga. Yara simplesmente diminuiu a velocidade, manteve os olhos cravados no rio lá na frente, e falou num sussurro que cortou o abafamento e foi direto pro meu ouvido: — Não ligue pro interesse dele agora, feirante. O Caruã sempre teve um gosto excêntrico por projetos. Virei o pescoço num estalo, a mão fechando em punho, pronta pra rasgar o tecido verde-oliva da camisa dela. Mas a filha do Solimões já tava descendo pro terreiro. Caminhou com a escolta na direção das cabanas de visita, a espinha reta, sem olhar pra trás nenhuma vez. O anzol ficou preso na minha carne. Projetos. A palavra ficou quicando dentro do meu crânio, ecoando com o barulho da água do Rio Negro. Semanas atrás eu tava socando mastruz num pilão quebrado na feira da Manaus Moderna. E agora eu tava ali, queimando por causa de um vínculo que eu nem entendia, enquanto a nobreza dos lobos me olhava como curiosidade de feira. Eu ia precisar exatamente de quarenta e oito horas pra decidir o que fazer com uma raiva doentia que eu não tinha o direito de ter, e com o silêncio de um Alfa que não me defendia de nada que não pudesse ser morto com as mãos.POV RIANEO cheiro de vitória-régia e de água-doce continuava a cobrir a fumaça de breu da casa de conselho do Xingu.Caruã permanecia postado como uma muralha entre o sujeito e mim, o peito nu subindo e descendo num ritmo pesado. As pupilas do meu Alfa queimavam num dourado puro, a mão travada na empunhadura da faca de caça, o rosnado baixo da fera vibrando no ar da sala com uma promessa clara de sangue.O homem de camisa de linho branco deu mais uma risada curta, o som suave como água correndo em leito de pedra. Ele deu um passo para o lado com uma elegância fluida, contornando a projeção dos ombros de Caruã sem demonstrar pressa nem medo.— Você devia afrouxar esse cinto, Alfa do Rio Negro — o sujeito provocou, inclinando a cabeça com um charme preguiçoso. — O ferro do seu peito vai acabar rasgando essa pele bonita antes do anoitecer.Caruã girou o corpo no mesmo milissegundo, a lâmina de aço saindo três dedos da bainha de couro com um estalo seco.— Mais um passo e eu te corto ao
POV RIANE O ar dentro da grande casa de conselho do Xingu cheirava a gordura de capivara queimada na banha. A estrutura inteira era erguida sobre pilares grossos de itaúba, e a fresta entre as tábuas do chão deixava ver a água barrenta do igarapé correndo lá embaixo. Tonho continuava parado diante da mesa de pedra polida, os braços cruzados sobre as cicatrizes do peito. O tom castanho queimado dos olhos dele ainda mantinha o mesmo espanto de quando leu o nome da minha mãe no meu rosto, no trapiche. Ao lado dele, dois Alfas do Conselho do Xingu permaneciam em silêncio, as lanças de osso de arapaima apoiadas nos ombros. — Você disse o nome dela no porto — dei dois passos à frente, batendo a mão no tecido do meu moletom, onde o pingente de pedra preta queimava em silêncio. — Você conhecia a Iracema. O que a minha mãe tinha a ver com o Xingu? Tonho desviou o olhar para a chama da tocha presa no pilar. A mandíbula dele travou, a carne do maxilar enrijecendo. — Conhecer é uma pal
POV CARUÃ O ronco da voadeira diminuía à medida que o canal do rio se estreitava. A água escura do Rio Negro tinha ficado quilômetros atrás, dando lugar a uma correnteza barrenta e mais rápida, cercada por um teto denso de maçarandubas e igapós carregados de musgo. Riane estava sentada na proa, o moletom escuro aberto no peito por causa do mormaço abafado do meio-dia. O vento que vinha da curva do rio balançava os cabelos dela, e os olhos âmbar varriam a margem com atenção afiada. O pingente de pedra preta repousava contra a sua clavícula, emaranhado na corrente. Atrás de nós, na segunda embarcação de apoio, Kauã e dois Deltas de confiança mantinham a distância de escolta. A viagem a dois pelo canal parecia um respiro necessário depois de semanas sufocadas pelo pátio do Rio Negro. Sem o Conselho cobrando respostas e sem os olhares desconfiados dos guerreiros, a tensão entre nós tinha assentado numa proximidade quase silenciosa. O braço dela roçava o meu ombro toda vez que a lanc
POV JUMA A prancheta de madeira na minha mão parecia mais pesada que uma lança de combate. Eu estava parada na curva do galpão de armas, observando a movimentação no pátio central. O sol da manhã cortava a névoa do rio, fazendo a terra batida brilhar com um tom avermelhado. Três voadeiras de madeira pesada estavam atracadas no porto de baixo, carregadas com suprimentos, sacos de farinha e mantas de pirarucu seco. Caruã ajustava a alça do seu colete de couro ao lado do deque. Ao seu lado, Riane conversava com Bira, o moletom escuro dobrado nos cotovelos e o sorriso leve ainda presente no rosto. Eles pareciam mais leves. Depois da conversa no templo no fim da tarde de ontem, quando Tembé decifrou o selo da pedra preta, uma onda de calma tinha se espalhado pela casa de comando. O Alfa e a sua companheira partiam para a missão diplomática no Xingu acreditando que a retaguarda no Rio Negro estava pacificada. Eu sabia que não estava. A folha de pele de veado com as rasuras do ano do ma
POV RIANE O rio batia contra o barranco abaixo do templo, num ritmo constante que parecia acompanhar minha respiração. A penumbra do salão circular de itaúba era atravessada pelas últimas faixas de luz da tarde, iluminando as túnicas penduradas nos esteios de madeira de lei. A fumaça do breu-branco queimado permanecia suspensa no ar, misturada ao cheiro das folhas secas de cipó-alho. Mesmo ali, longe do mandiocal, meu corpo ainda não tinha esquecido a luta. Tembé estava curvado sobre a mesa de pedra polida no centro do templo. As mãos enrugadas do Gama seguravam uma haste fina de osso, que ele passava com extrema delicadeza sobre a folha de pele de veado que eu tinha rabiscado no galpão de ferramentas. O velho examinava os contornos com paciência, a luz das lamparinas refletindo nos seus olhos calmos, a barba branca limpa aparada rente ao queixo. Caruã e eu estávamos parados do outro lado do pedestal. A mão do Alfa repousava na minha cintura, os dedos dele quentes contra o meu mole
POV RIANE O pó de carvão sujava as pontas dos meus dedos enquanto eu passava o papel de pele de veado sobre a superfície da pedra preta. Estava sentada no chão do galpão de ferramentas, atrás das pilhas de tábuas de itaúba e redes de pesca dobradas. A luz da manhã entrava fraca pelas frestas da parede de tora, cortando a poeira que flutuava no ar. A fumaça do breu-branco queimado do pátio chegava até ali, misturada ao cheiro de mofo e seiva seca. A pedra esquentava no meu peito a cada decalque que eu tentava tirar da ranhura central. O símbolo não era profundo, mas o contorno na pele de veado começava a revelar uma geometria estranha — linhas finas que se cruzavam como raízes de samaúma, lembrando o mesmo desenho que acendeu no braço de Caruã durante o ataque do mandiocal. Puxei o papel para a luz da fresta. Eu precisava entender o que esse pingente fazia antes que ele me queimasse por dentro. Caruã estava focado na investigação do bilhete interceptado por Bira, dividindo os Delt







