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CAPÍTULO 28 — YARA

Autor: A.C. Borges
last update Fecha de publicación: 2026-06-18 09:02:51

POV RIANE

O mormaço do meio-dia no território da alcateia não era nada perto do embrulho que senti no estômago quando Juma abriu a boca.

Eu tava na varanda da cabana de suprimentos, puxando o nó de uma rede de lona velha pra prender no gancho de ferro. O sol rachava a terra batida do pátio, as cigarras gritavam no mato alto, e o cheiro de tambaqui assando na brasa da fogueira comunitária empesteava o ar parado.

Juma parou ao meu lado. Não fez barulho na terra, mas eu conhecia aquele jeito de ficar parada.

Vinha problema.

Ela estava com a expressão fechada de quem tinha notícia ruim pra entregar.

— A balsa do Solimões encostou no igarapé principal — ela soltou, direta, a voz seca. — A Yara tá subindo a trilha com a escolta pessoal. Veio propor casamento político pro Alfa. Pra fechar a fronteira de vez. Dois dias de negociação.

Continuei segurando a corda da rede.

O peito esquentou na mesma hora.

Não era o vínculo.

Aquilo veio da frase da Juma.

Meu corpo entendeu o problema antes da cabeça.

Travei a mandíbula e esperei ela continuar.

Larguei a corda. Ela bateu no pilar de madeira com um baque surdo.

— E eu com isso? — Saiu mais fraco do que eu queria.

Juma não retrucou. Só me olhou de cima a baixo, do jeito que ela lia gente — rápido, sem disfarçar. Ela não precisava de resposta. Virou as costas e saiu andando devagar na direção da casa de comando.

A inteligência mandava eu dar meia-volta, descer pro rio, me enfiar na várzea e esperar a poeira baixar.

Não aconteceu.

Quando percebi, já estava atravessando o terreiro em direção à varanda principal.

A bota afundava na terra seca a cada passo.

O pátio estava tenso.

Os Deltas da aldeia já observavam a escolta de estranhos que vinha subindo do rio.

A reunião já tava acontecendo. As portas duplas de cedro maciço da casa de comando tavam escancaradas por causa do calorão. Parei do lado de fora, encostada no pilar de sustentação, engolida pela sombra grossa da cobertura de palha.

Yara tava de pé bem no centro da sala.

Ela usava uma camisa tática verde-oliva com as mangas dobradas até o cotovelo, calça cargo preta e coturno sujo de lama da beirada do rio. O cabelo liso escorrido tava preso num rabo de cavalo alto. Ela não parecia uma fêmea pedindo favor em terra alheia. Ela era do tipo que não precisa rosnar pra mostrar que tem dente.

Caruã estava na cabeceira da mesa.

A expressão dele não entregava nada.

Quem não conhecia podia chamar aquilo de calma.

Eu sabia que não era.

Araken estava à direita, atento como um urubu esperando movimento.

— O Solimões quer a paz, Caruã — disse Yara.

— Nós dividimos a mesma bacia. Mas meu pai já perdeu a paciência com diplomacia.

Apertei os dentes.

O estômago embrulhou na mesma hora.

— Ele exige uma garantia de sangue — Yara continuou, cravando o olho no Alfa. — Uma aliança legítima entre nós dois une as fronteiras, cala os conselheiros rebeldes e resolve o problema dos batedores de uma vez só.

O ciúme bateu físico, quente e irracional, fuzilando a linha da minha nuca e descendo espinha abaixo. A vontade cega era entrar naquela sala, enfiar a bota na mesa e mandar a princesa do Solimões voltar pro barco dela.

Lá dentro, Caruã travou.

Ele tava com o dedo indicador em cima do mapa da fronteira norte, mostrando uma rota.

Aí parou.

A frase morreu no meio.

Caruã ergueu os olhos devagar.

Por um segundo, pareceu não ver ninguém ali.

O olhar dele atravessou a varanda e veio direto na minha direção.

Exatamente pro pilar onde eu tava escondida.

Foram dois segundos.

O que eu tava sentindo bateu nele antes que eu quisesse. Caruã sentiu o meu ciúme e travou na hora. Na frente da pior pessoa possível pra ver. Ele piscou, desviou o rosto de volta pra mesa, pigarreou grosso e forçou a voz a voltar pro rumo da patrulha.

Mas o estrago tava feito.

Yara percebeu. O olhar afiado de quem vivia de política acompanhou a reação do Alfa. Ela cruzou as pernas, e o canto da boca subiu quase nada.

Tinha visto.

E não ia esquecer.

A reunião se arrastou por mais meia hora. Meia hora do meu peito latejando, do meu suor grudando a camisa nas costas. Caruã encerrou a sessão levantando da cadeira. O Araken saiu atrás pra checar a escolta lá fora.

Eu continuei parada na varanda.

Sem conseguir me mexer.

Yara saiu por último. Ela cruzou a porta de cedro com a passada firme. Quando passou por mim, na sombra, ela não acelerou o passo. Ela não virou de frente pra comprar briga. Yara simplesmente diminuiu a velocidade, manteve os olhos cravados no rio lá na frente, e falou num sussurro que cortou o abafamento e foi direto pro meu ouvido:

— Não ligue pro interesse dele agora, feirante. O Caruã sempre teve um gosto excêntrico por projetos.

Virei o pescoço num estalo, a mão fechando em punho, pronta pra rasgar o tecido verde-oliva da camisa dela. Mas a filha do Solimões já tava descendo pro terreiro. Caminhou com a escolta na direção das cabanas de visita, a espinha reta, sem olhar pra trás nenhuma vez.

O anzol ficou preso na minha carne.

Projetos.

A palavra ficou quicando dentro do meu crânio, ecoando com o barulho da água do Rio Negro. Semanas atrás eu tava socando mastruz num pilão quebrado na feira da Manaus Moderna. E agora eu tava ali, queimando por causa de um vínculo que eu nem entendia, enquanto a nobreza dos lobos me olhava como curiosidade de feira.

Eu ia precisar exatamente de quarenta e oito horas pra decidir o que fazer com uma raiva doentia que eu não tinha o direito de ter, e com o silêncio de um Alfa que não me defendia de nada que não pudesse ser morto com as mãos.

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