MasukPOV RIANE
A bota bateu no último degrau da escada de itaúba com força suficiente pra lascar a madeira. A raiva que tava embolada no meu estômago desde a varanda da cabana de suprimentos virou um nó quente subindo pela garganta, azedo e cheio de ódio. Eu tava vendo claro demais. A biologia podia foder com o meu corpo o quanto quisesse, mas eu não era burra. Eu cresci vendendo na feira da Manaus Moderna. Aprendi a ler a maldade de gente grande antes de aprender a somar troco. Eu não nasci pra prestar continência pra Conselho de lobo, muito menos pra me encolher na sombra enquanto decidiam o meu futuro numa mesa de jantar. Empurrei a porta de cedro do escritório com o peso do corpo inteiro. O baque da madeira pesada contra a parede ecoou seco no andar de cima da casa de comando. Caruã tava de pé do outro lado da prancha de madeira que ele usava de mesa. O mapa da calha do rio tava esticado. O carvão na mão dele parou de riscar. Ele levantou o rosto devagar, o olho castanho escuro cravando em mim. O Araken já tinha saído. O cheiro de fumo de rolo do Conselheiro ainda empesteava o ar do quarto, e a reunião do meio-dia pesava em cima dele como nuvem de chuva que não decide cair. — Você achou que eu ia ficar sentada no terreiro esperando você negociar o meu pescoço? — joguei a palavra na cara dele, cortando a distância da sala com passadas duras até bater o quadril na beirada da mesa. Caruã não piscou. Ele largou o pedaço de carvão em cima do papel pardo. A postura dele não mudou um milímetro com a minha invasão. A camisa verde suada colada no ombro largo evidenciava a tensão do músculo, mas o rosto dele era uma máscara de pedra absoluta. — A reunião com a escolta do Solimões não começou — a voz dele saiu baixa, plana. Insuportavelmente controlada. — Mas a proposta já tá na mesa. E você e os seus velhos já tão fechando a matemática do custo. — O que acontece na mesa do Conselho é estratégia de território. Não é o seu lugar. Soltei uma risada que rasgou o fundo da minha garganta. Seca. Sem pingo de humor. — Vai pro inferno com esse papo de general, Caruã. Isso não é sobre fronteira. Isso é sobre poder. A Yara quer a aliança e quer a minha cabeça de bônus na bandeja de barro. Porque fêmea nenhuma de Alfa aceita concorrência respirando no mesmo mato. Inclinei o corpo pra frente, apoiando as duas mãos na prancha de cedro. — Se você assinar o acordo de casamento com ela, a sua proteção não vale a terra que eu piso. A filha do Solimões vai mandar os batedores dela me afogarem no fundo do igarapé no exato minuto em que ela pisar no terreiro como Luna oficial. O rosto dele escureceu de uma vez. O cheiro de terra molhada e copaíba engrossou no ar, pesado, abafado, fechando a minha garganta. — Ninguém da aldeia vai encostar em você dentro do meu território. — Ela vai. — Bati a mão espalmada na mesa. — Porque a hierarquia doente de vocês dá poder pra ela. E eu sou só a humana intrusa que você puxou do mato porque o seu bicho cismou com o meu cheiro. Apertei a madeira com tanta força que a farpa ameaçou furar a minha pele. A fúria tava tão densa que a minha visão embaçou nas laterais. Eu não tava ali pra discutir sentimento oculto. Eu não tava ali cobrando romance. Eu tava cobrando sobrevivência. — Você me disse que me protegeria. — A frase saiu cortante, cravando no meio da sala. — Naquela noite, na cela debaixo da terra, você deu a palavra. Uma aliança com a Yara acaba com isso. Você escolhe a paz na sua fronteira ou você escolhe a sua palavra. Os dois não dá. O silêncio engoliu o escritório. O zumbido da cigarra lá fora pareceu morrer na mesma hora. Eu esperei a explosão. Esperei ele bater na mesa de volta, usar a voz de comando pra me dobrar, rosnar pra me botar no meu lugar e exigir submissão. Ele não gritou. Ele não cedeu um centímetro de espaço. Caruã contornou a mesa de prancha corrida com a passada lenta e pesada. O atrito da borracha do coturno contra a madeira foi o único som da sala. Ele não tava com fúria nenhuma no rosto. E isso, de longe, era pior. Ele não tava irritado. Ele tava decidido. Os olhos dele tavam castanhos, não dourados. Mas o animal não tava contido ou trancado no fundo da cabeça dele. O lobo tava na superfície, em silêncio de morte. Pela primeira vez desde que a gente se trombou na floresta, a guerra interna tinha acabado. O bicho e o homem tavam de pé, querendo exatamente a mesma coisa com o mesmo nível de certeza silenciosa. Eu recuei um passo por puro instinto. A parede de madeira bateu direto nas minhas costas, fechando a minha rota. Caruã parou a um palmo do meu rosto. A sombra do corpo imenso dele engoliu a luz que entrava pela janela. O calor que irradiava do peito dele chocou contra o frio do suor da minha bochecha. — Eu dei a minha palavra. — O tom dele não era defesa. Era ponto final. — Palavra de Alfa cede pra risco de guerra. A Yara sabe disso. O seu Conselho sabe disso. A mão direita dele subiu. O movimento foi contínuo, calculado, sem rastro de hesitação. Os dedos longos, grossos e cheios de calo de facão fecharam no meu braço esquerdo, logo acima da dobra do cotovelo. Não apertou pra machucar a pele, não tentou esmagar o osso. Mas a trava era firme. O peso da mão dele era a resposta física de quem não solta o que tem nem que o rio seque. — Eu não vou aceitar a Yara. A frase caiu no meio do espaço minúsculo entre nós dois. O meu pulmão esqueceu a mecânica de puxar oxigênio. Pisquei, o choque quebrando a minha linha de raciocínio. — O quê? — Você escutou. — Caruã. — A minha voz saiu num fio rasgado, a confusão atropelando a raiva. — O Solimões tem o triplo de guerreiro. Se você recusar o casamento por causa de uma intrusa, o Araken vai rachar a sua liderança no meio. Você perde a margem. Perde o respeito da matilha inteira. — Eu seguro a margem. — Por quê? — Bati a mão livre no peito dele, um soco seco, curto, que nem moveu o músculo duro dele. — Por que você tá jogando a sua estabilidade política no lixo por mim? O olhar dele desceu pro meu pescoço, acompanhou a linha da clavícula, bateu na minha boca e subiu de volta pro meu olho. A respiração dele bateu morna na minha testa. A resposta tava ali. Eu vi no jeito que a mão dele mantinha a prisão no meu braço sem intenção nenhuma de soltar. Ficamos presos um no outro, respirando o mesmo ar pesado, até a batida oca do tambor de madeira no pátio avisar que o meio-dia tinha chegado. Ele me soltou devagar, o atrito da pele áspera da mão dele queimando a minha até o último milímetro de contato. Deu as costas e cruzou a porta sem olhar pra trás. Quando desci a escada e pisei na varanda lateral da casa de comando, o vento um pouco mais frio do igarapé bateu no meu rosto suado. O terreiro tava quieto, a atenção da aldeia focada na porta principal. Mas na ponta da cerca, perto do caminho pra mata, o Conselheiro Araken tava encostado num tronco grosso de andiroba. O cachimbo apagado, segurado com força bruta. Ele não esperou a reunião do meio-dia pra saber a resposta. Já sabia. Antes do sol rachar o centro do pátio, o velho já sabia. ((🖤 Nota da autora)) Eu: pronto, agora ele vai se transformar, quebrar metade da sala e declarar guerra. Caruã: "Eu não vou aceitar a Yara." Eu: ...ah, então o homem escolheu violência psicológica. 👍 Me contem: vocês também acharam que ele ia explodir ou só eu que fui enganada pelo lobo? 😂👇POV RIANE O vento do Xingu subia pelo barranco carregando lodo e chuva grossa. O sol da tarde despencava atrás das copas das maçarandubas, pintando a água barrenta de um tom acobreado. Eu caminhava em silêncio ao lado de Caruã pela trilha de terra batida que voltava do posto norte. A figura de Zuri, com as cicatrizes no rosto e a dureza seca na voz, tinha ficado para trás, mas as palavras dela pareciam ecoar a cada passo que eu dava no barro. O selo segura o tranco no começo... o metal no seu peito não vai te salvar; vai te derreter de dentro para fora. Caruã percebeu o meu ritmo lento. Ele diminuiu o passo, a mão grande descendo pelo meu ombro até firmar na minha cintura. O olhar castanho dele — limpo, sem o dourado da fera em alerta — desceu para o meu rosto com uma cautela silenciosa. — Você está calada desde que saímos daquele rancho — ele comentou, a voz baixa, o som abafado pelo piado das cigarras na mata. — A velha falou muito sobre a ancoragem. Mas a Zuri vive isolada
POV ZURI Eu reconheci o mormaço da pedra antes mesmo da voadeira encostar na rampa de taquara da enseada norte. O calor que subia do metal da garota era denso, desalinhado, o tipo de energia de ancoragem que arde na pele de quem carrega sangue de linhagem sem saber o peso do que guarda. Já vi essa mesma chama consumir três das minhas antes que a primeira lua cheia de tempestade se erguesse no céu. Duas viraram poeira no leito do rio; a terceira enlouqueceu antes do Fundo ser fechado. Eu estava sentada sobre o tronco caído de uma maçaranduba, afiando a ponta do meu anzol de osso de pirarucu com uma pedra de rio. Usava a túnica curta de couro cru, surrada pelo uso e manchada de resina de breu-preto nas mangas. Meus cabelos grisalhos estavam presos por uma tira de tucum na nuca, e o meu rosto trazia as cicatrizes finas que a mata-cobra de quem sobreviveu à própria queima. A garota saltou do barco com a agilidade de quem aprendeu a se mover na pressa. O moletom escuro estava abert
POV RIANEO cheiro de vitória-régia e de água-doce continuava a cobrir a fumaça de breu da casa de conselho do Xingu.Caruã permanecia postado como uma muralha entre o sujeito e mim, o peito nu subindo e descendo num ritmo pesado. As pupilas do meu Alfa queimavam num dourado puro, a mão travada na empunhadura da faca de caça, o rosnado baixo da fera vibrando no ar da sala com uma promessa clara de sangue.O homem de camisa de linho branco deu mais uma risada curta, o som suave como água correndo em leito de pedra. Ele deu um passo para o lado com uma elegância fluida, contornando a projeção dos ombros de Caruã sem demonstrar pressa nem medo.— Você devia afrouxar esse cinto, Alfa do Rio Negro — o sujeito provocou, inclinando a cabeça com um charme preguiçoso. — O ferro do seu peito vai acabar rasgando essa pele bonita antes do anoitecer.Caruã girou o corpo no mesmo milissegundo, a lâmina de aço saindo três dedos da bainha de couro com um estalo seco.— Mais um passo e eu te corto ao
POV RIANE O ar dentro da grande casa de conselho do Xingu cheirava a gordura de capivara queimada na banha. A estrutura inteira era erguida sobre pilares grossos de itaúba, e a fresta entre as tábuas do chão deixava ver a água barrenta do igarapé correndo lá embaixo. Tonho continuava parado diante da mesa de pedra polida, os braços cruzados sobre as cicatrizes do peito. O tom castanho queimado dos olhos dele ainda mantinha o mesmo espanto de quando leu o nome da minha mãe no meu rosto, no trapiche. Ao lado dele, dois Alfas do Conselho do Xingu permaneciam em silêncio, as lanças de osso de arapaima apoiadas nos ombros. — Você disse o nome dela no porto — dei dois passos à frente, batendo a mão no tecido do meu moletom, onde o pingente de pedra preta queimava em silêncio. — Você conhecia a Iracema. O que a minha mãe tinha a ver com o Xingu? Tonho desviou o olhar para a chama da tocha presa no pilar. A mandíbula dele travou, a carne do maxilar enrijecendo. — Conhecer é uma pal
POV CARUÃ O ronco da voadeira diminuía à medida que o canal do rio se estreitava. A água escura do Rio Negro tinha ficado quilômetros atrás, dando lugar a uma correnteza barrenta e mais rápida, cercada por um teto denso de maçarandubas e igapós carregados de musgo. Riane estava sentada na proa, o moletom escuro aberto no peito por causa do mormaço abafado do meio-dia. O vento que vinha da curva do rio balançava os cabelos dela, e os olhos âmbar varriam a margem com atenção afiada. O pingente de pedra preta repousava contra a sua clavícula, emaranhado na corrente. Atrás de nós, na segunda embarcação de apoio, Kauã e dois Deltas de confiança mantinham a distância de escolta. A viagem a dois pelo canal parecia um respiro necessário depois de semanas sufocadas pelo pátio do Rio Negro. Sem o Conselho cobrando respostas e sem os olhares desconfiados dos guerreiros, a tensão entre nós tinha assentado numa proximidade quase silenciosa. O braço dela roçava o meu ombro toda vez que a lanc
POV JUMA A prancheta de madeira na minha mão parecia mais pesada que uma lança de combate. Eu estava parada na curva do galpão de armas, observando a movimentação no pátio central. O sol da manhã cortava a névoa do rio, fazendo a terra batida brilhar com um tom avermelhado. Três voadeiras de madeira pesada estavam atracadas no porto de baixo, carregadas com suprimentos, sacos de farinha e mantas de pirarucu seco. Caruã ajustava a alça do seu colete de couro ao lado do deque. Ao seu lado, Riane conversava com Bira, o moletom escuro dobrado nos cotovelos e o sorriso leve ainda presente no rosto. Eles pareciam mais leves. Depois da conversa no templo no fim da tarde de ontem, quando Tembé decifrou o selo da pedra preta, uma onda de calma tinha se espalhado pela casa de comando. O Alfa e a sua companheira partiam para a missão diplomática no Xingu acreditando que a retaguarda no Rio Negro estava pacificada. Eu sabia que não estava. A folha de pele de veado com as rasuras do ano do ma







