FAZER LOGIN✦POV: Lorraine✦
O salão pareceu sugar todo o ar.
Os convidados, que momentos antes celebravam o noivado de Bruno e Perla, agora se viravam em nossa direção. Sussurros surgiam como ervas daninhas. Olhares curiosos, assustados, invejosos.
Angelo Valenti não parecia se importar.
Sua mão permanecia estendida. Paciente. Como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
E talvez tivesse.
Homens como Angelo Valenti não esperavam por ninguém. O mundo é que esperava por eles.
— Não entendo — disse eu, apertando a rosa com mais força. Os espinhos se aprofundaram. O sangue escorreu mais rápido. A dor era real, boa, uma âncora naquele mar de humilhação.
Angelo inclinou ligeiramente a cabeça.
— Você foi rejeitada publicamente, senhorita De Angelo. Diante de todas as famílias importantes da Sicília. — Sua voz era baixa, mas cada palavra cortava o ar como uma lâmina. — Se sair daqui sozinha, será lembrada para sempre como a mulher que não servia nem para Bruno Ricci.
O golpe foi preciso. Doloroso. Verdadeiro.
— Se sair comigo — continuou ele, dando um passo à frente —, será lembrada como a mulher que conquistou o Don Valenti.
Meu coração disparou.
Olhei para trás. Bruno ainda estava ao lado de Perla, mas agora ele nos observava. Sua expressão havia mudado. O sorriso triunfante dera lugar a algo próximo ao pânico.
Ninguém queria cruzar o caminho de Angelo Valenti.
Nem mesmo o herdeiro Ricci.
— Por que eu? — perguntei, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Sou filha ilegítima. Não tenho dote. Não tenho influência. Sou invisível.
Os olhos escuros de Angelo brilharam. Por um momento, jurei ter visto ouro naquelas íris.
— Você não é invisível, Lorraine. — Meu nome em seus lábios soou diferente. Mais pesado. Mais real. — Você é apenas um diamante que ainda não foi polido.
Outro passo. Agora estávamos próximos demais para o decoro. Eu podia sentir o calor irradiando de seu corpo. O cheiro de couro e madeira e algo selvagem que não sabia nomear.
— O que você quer em troca? — desafiei, levantando o queixo. — Ninguém dá nada de graça. Especialmente não um Valenti.
Pela primeira vez, algo como aprovação brilhou em seus olhos.
— Casamento.
A palavra caiu entre nós como uma pedra em águas paradas.
— Casamento? — repeti, incrédula. — Você está me pedindo em casamento? Agora? Na frente de todo mundo que acabou de me humilhar?
— Estou oferecendo um contrato — corrigiu Angelo, impassível. — Você terá meu nome, minha proteção, meu império. Em troca, terá que ser minha esposa. Nada mais do que isso.
Nada mais do que isso.
A frase ecoou em minha mente. Casamento sem amor. Sem toque. Sem afeto.
O oposto de tudo que Bruno havia me prometido.
Mas Bruno havia mentido.
E Angelo Valenti, pelo que todos diziam, nunca quebrava uma palavra.
— E se eu recusar? — testei.
Ele deu de ombros. Um gesto mínimo, quase imperceptível.
— Então voltará para sua família. Continuará sendo invisível. E daqui a cinco anos, quando Bruno se cansar de Perla, talvez ele olhe para você de novo. Como segunda opção. Como sempre foi.
O golpe foi baixo.
Mas não era mentira.
Respirei fundo. Senti o perfume das rosas, o sangue nos dedos, o peso de todos aqueles olhares sobre mim.
E tomei minha decisão.
— Aceito.
A palavra saiu antes que meu cérebro pudesse processar. Saiu do lugar fundo onde a humilhação havia acendido uma chama. Saiu da parte de mim que estava cansada de ser descartada.
Angelo Valenti sorriu.
Não era um sorriso bonito. Era um sorriso perigoso. O sorriso de quem acabava de ganhar uma partida que ninguém mais sabia que estava jogando.
Ele se virou para os convidados.
Sua voz, quando falou, preencheu cada centímetro do salão.
— Senhoras e senhores — anunciou, sem nunca tirar os olhos de mim —, tenho o prazer de informar que Lorraine De Angelo aceitou meu pedido de casamento.
O silêncio foi absoluto.
Por um segundo. Dois. Três.
Então o caos.
Bruno largou a mão de Perla. Sua expressão alternava entre choque e fúria. Minha madrasta derrubou a taça de champanhe. Meu pai, Giulio, ficou branco como a porcelana do serviço de jantar.
E eu?
Eu fiquei ali. No centro do furacão. Com uma rosa ensanguentada na mão e o homem mais temido da Sicília ao meu lado.
Pela primeira vez na vida, não era invisível.
Pela primeira vez na vida, todos olhavam para mim.
Não com pena.
Não com desprezo.
Com medo.
E aquilo, pensei enquanto Angelo Valenti enlaçava meus dedos sangrentos entre os seus, era ainda melhor do que amor.
Rafael falou por uma hora.Sobre o passado. Sobre o presente. Sobre o futuro. Sobre como a máfia precisava mudar. Sobre como as famílias precisavam se unir. Sobre como os Valenti estavam fracos.— O Don está doente — disse ele, com um sorriso. — Todos sabem. Ele não aparece. Não fala. Não lidera.— O Don está vivo — respondi, com a voz calma. — E está liderando. Através de mim.— Através de você? — Rafael riu. — Uma mulher? Uma humana?— Uma mulher que construiu um império. — Ergui o queixo. — Uma mulher que destruiu o próprio pai. Uma mulher que transformou a família Valenti em um conglomerado legítimo.— Legítimo? — Rafael olhou para os outros capos. — Vocês ouvem isso? Ela está transformando a máfia em... empresa.— Estou transformando a máfia em algo melhor. — Levantei-me. — Algo que pode sobreviver. Algo que pode dar futuro aos nossos filhos.— Nossos filhos? — Rafael riu. — Você não tem filhos.— Ainda não.— E nunca terá. — Ele caminhou até mim. — Porque o Alfa não pode te marc
POV LORRAINEAs três semanas passaram devagar.Angelo começou a se preparar de uma forma que eu nunca tinha visto.Ele se trancava no escritório por horas. Não para trabalhar. Para meditar. Para controlar o lobo. Para garantir que, quando chegasse a hora, ele não perderia o controle.— Ele está mais calmo — observou Vittorio, uma tarde, enquanto caminhávamos pelos jardins. — Mais centrado.— Ele está com medo.— Medo é bom. Medo mantém o lobo na coleira.— E se a coleira quebrar?— Aí a senhora vai precisar ser mais forte do que ele. — Vittorio me olhou. — A senhora é forte o suficiente?— Vou ser.Ele assentiu.— A senhora sabe que pode morrer.— Sei.— E mesmo assim quer?— Quero.— Por quê?— Porque eu amo ele. — Olhei para as rosas vermelhas. — E porque eu prefiro morrer ao lado dele do que viver sem ele.Vittorio ficou em silêncio por um longo momento.— A senhora é mais corajosa do que qualquer um de nós.— Não é coragem. É amor.Ele saiu.Fiquei sozinha com as rosas e o vento e
✦✦ POV: Lorraine✦✦Na manhã seguinte, Angelo não estava na cama.Acordei com o sol entrando pelas cortinas e o espaço ao meu lado vazio. O travesseiro ainda tinha o formato da cabeça dele. As cobertas ainda estavam mornas.Mas ele não estava ali.Por um momento, o pânico me tomou. Será que ele havia fugido? Será que, depois da noite que passamos juntos, ele havia decidido que era demais? Será que eu havia me entregado demais e perdido tudo?Levantei-me. Vista o roupão.Desci as escadas.Encontrei-o no escritório.Estava sentado atrás da escrivaninha. Não estava lendo. Não estava trabalhando. Estava olhando para o vazio. As mãos cruzadas sobre a mesa. Os olhos vermelhos como se não tivesse dormido.— Angelo?Ele ergueu os olhos.— Bom dia.— O que aconteceu? — Caminhei até ele. — Por que não está na cama?— Eu não consegui dormir.— Por quê?— Por você. — Ele estendeu a mão. Pegou a minha. — Por nós. Pelo que aconteceu ontem à noite.— Foi ruim?— Foi a melhor noite da minha vida. — El
POV: Lorraine✦✦O beijo foi diferente.Não era o beijo contido dos últimos anos. Não era o beijo educado de quem tem medo de se perder.Era um beijo de fome. De desejo. De alguém que finalmente decidiu parar de lutar.— Lorraine... — sussurrou ele contra meus lábios.— Shhh.— Eu quero...— Eu sei.— Não posso.— Pode.— Vou me perder.— Então se perca.Ele parou.Recuou.Os olhos estavam dourados. Brilhando.— Não — disse ele, a voz rouca. — Ainda não.— Angelo...— Você não sabe o que está pedindo. — Ele tocou meu rosto. — A marca. A ligação. A possessão. É permanente.— Eu sei.— Você pode morrer.— Eu sei.— Lorraine...— Escute. — Segurei o rosto dele. — Eu não quero viver para sempre, Angelo. Eu quero viver agora. Com você. Seja por um ano. Seja por um dia. Seja por uma hora. Eu quero viver.Ele me olhou por um longo momento.— Você está falando sério.— Estou.— Você quer a marca?— Quero você.O silêncio foi ensurdecedor.— Amanhã — disse ele, finalmente. — Amanhã à noite. Se
POV: Lorraine✦✦Três anos.Foi quanto tempo levei para construir um império.Não exagero. Não estou sendo poética. É um fato.Em três anos, a família Valenti deixou de ser uma organização criminosa para se tornar um conglomerado empresarial legítimo. Hotéis de luxo em Palermo, Catânia e Siracusa. Cassinos legalizados na costa amalfitana. Uma rede de transporte que operava em toda a Sicília. Participações em vinícolas, olivais, imobiliárias.Tudo limpo.Tudo legal.Tudo meu.Não porque Angelo tivesse me dado. Porque eu conquistei.Trabalhei dezoito horas por dia. Negociei com banqueiros que me subestimavam. Enfrentei capos que se recusavam a obedecer a uma mulher. Destruí concorrentes que tentaram me sabotar.E, a cada vitória, a cada contrato assinado, a cada inimigo derrotado, eu me tornava mais forte.Mais fria.Mais sozinha.— A senhora está diferente — observou Vittorio, uma manhã, enquanto eu revisava relatórios no escritório.— Estou a mesma.— Não está. — Ele sentou-se na poltr
POV LORRAINEOs dias seguintes foram diferentes.Angelo passou a me tratar não como aliada, mas como parceira. Não como esposa, mas como igual. Levava-me às reuniões, ouvia minhas opiniões até o fim e, quando eu apontava um risco que os outros haviam deixado passar, assentia devagar e mudava o plano sem discutir. Numa delas, um capo tentou me interromper; Angelo apenas o encarou até o homem calar e me devolveu a palavra com um aceno.E, a cada dia, eu me sentia mais forte.Numa tarde de chuva fina, Vittorio me encontrou na biblioteca. Eu fingia ler, mas fazia vinte minutos que não virava a página.— A senhora está mudando o Don — observou ele, sentando-se na poltrona diante da minha.— Estou?— Está. Ele anda mais leve. Menos carrancudo. Menos sozinho.— Ele sempre foi sozinho.— Foi. Mas agora tem a senhora.— Isso muda alguma coisa?— Muda tudo. — Ele se inclinou, apoiando os antebraços nos joelhos. — A senhora é a primeira pessoa que ele deixou entrar. A primeira que ele deixou ver.







