INICIAR SESIÓNClara Mendes
O plantão acabou de forma antoclimática, como se a noite inteira de sangue, adrenalina e aquele homem de olhar escuro tivesse sido apenas um delírio coletivo. Eu estava exausta. Dos pés ao último fio de cabelo que escapava do coque desfeito. Minhas costas doíam de tanto ficar curvada sobre macas, minhas mãos ainda carregavam o cheiro metálico de antisséptico e sangue seco que nenhum sabão barato conseguia tirar por completo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica demais para a própria sanidade, contava os passos entre a sala de emergência e a porta de saída como se aquela mania ridícula pudesse organizar o caos que tinha se instalado dentro de mim desde que Rafael me prendera contra a parede. Vinte e um passos. Eu sempre contava quando o cansaço ameaçava transformar medo em pânico. Era uma mania antiga, de quando eu era adolescente e o elevador do prédio dos meus pais travava. Contar dava a ilusão de controle. E eu precisava desesperadamente de controle naquela manhã. Porque cada vez que fechava os olhos, via o rosto dele. Sentia a respiração quente na minha orelha. Ouvi a voz rouca dizendo que eu tinha assinado uma sentença. Absurdo. Eu mal o conhecia. E ainda assim meu corpo inteiro parecia ter memorizado a dureza daquele peito e o cheiro de sabão barato misturado com pólvora. Jorge me alcançou perto da porta, já trocando o plantão com a equipe da manhã. — Doutora Clara, tem certeza que não quer que eu chame um moto-táxi conhecido? A ladeira tá agitata ainda. — Eu preciso caminhar um pouco — respondi, forçando um sorriso cansado. Mentira. Eu odiava mentir, mesmo as pequenas. Era um dos meus defeitos mais persistentes: a incapacidade quase patológica de engolir a verdade só para facilitar as coisas. — Mas obrigada, Jorge. De verdade. Ele balançou a cabeça, como se quisesse argumentar, mas desistiu. Eu saí. O sol da manhã ainda não tinha força total, mas já batia nas lajes coloridas e fazia o ar cheirar a café fraco e roupa estendida. Eu desci os primeiros degraus de concreto irregular com a bolsa pesada no ombro, o corpo gritando por um banho e uma cama que não existia ainda (meu quarto alugado só ficaria pronto no dia seguinte). Eu tinha vindo com uma mala e uma teimosia do tamanho do morro. Agora a teimosia pesava mais que a mala. Foi então que ouvi o ronco baixo e constante de uma moto. Eu não precisei olhar para saber. Meu corpo soube antes do meu cérebro. Aquele mesmo calor traidor subiu pela nuca. Rafael estava parado na ladeira, uma perna apoiada no chão, mãos firmes no guidão de uma moto preta simples, de placa empoeirada. A camiseta preta de ontem tinha sido trocada por outra igual. O cabelo estava úmido, como se tivesse tomado banho às pressas. E os olhos — aqueles olhos escuros que pareciam enxergar através da minha bata amassada — estavam cravados em mim. — Sobe. Duas palavras. Voz rouca de quem não dormiu. Eu senti a teimosia coçar na garganta. — Bom Dia pra você também. Eu consigo voltar sozinha. Obrigada! — Não consegue. Sobe, Clara. O uso do meu nome me pegou de surpresa. Eu não lembrava de ter falado ele para ele. Talvez Jorge tivesse contado. Ou talvez aquele homem simplesmente soubesse das coisas. Eu fiquei parada, o queixo erguido, o coração batendo rápido demais para uma simples carona. Eu odiava quando me mandavam. Sempre odiei. Em casa, na faculdade, na residência. Eu era a pessoa que discutia com professores quando achava que estavam errados. A que confrontava chefes de clínica. A que tinha vindo para a Rocinha contra a vontade de todo mundo. E ainda assim, naquele momento, parte de mim queria obedecer só para sentir de novo a solidez daquele corpo. — Eu não pedi para ser buscada. Me deixe em paz. — Eu também não pedi para passar a noite em claro, garantindo que ninguém entrasse atirando na clínica. Agora não me irrita. Sobe. O silêncio se esticou entre nós. Eu podia sentir o olhar dele percorrendo meu rosto cansado, a bata amassada, o cabelo que já tinha desistido de qualquer penteado. Havia algo predatório naquela quietude. E havia também uma proteção feroz que me confundia. Cansada e sem forças para discutir, acabei cedendo e subi na garupa da moto.. O espaço na garupa era ridiculamente pequeno. No segundo em que me acomodei, minhas coxas se abriram em volta do quadril dele e meu peito colou nas costas largas. O capacete que ele me passou cheirava a couro barato e a ele. Eu coloquei sem reclamar, porque a alternativa era discutir enquanto o corpo inteiro gritava com a proximidade. Quando a moto se moveu, o motor vibrou entre as minhas pernas de uma forma obscena. Eu engoli seco. Descer a Rocinha de moto com Rafael foi uma tortura sensorial. Cada curva fazia meu corpo escorregar mais contra o dele. Eu tentava me afastar, manter uma distância mínima de dignidade, mas a ladeira não permitia. As mãos dele no guidão eram firmes, as veias marcadas, e eu me peguei olhando demais. Minha mania de observar detalhes estava me traindo. Eu notei a cicatriz fina na sobrancelha, o jeito como a mandíbula se contraía quando passávamos por certos becos, a tensão constante nos ombros. Ele dirigia como alguém que conhecia cada buraco, cada olhar, cada perigo possível. — Segura mais firme ou vai cair — ordenou ele quando a moto embicou numa descida mais íngreme. — Quanta gentileza — resmunguei. Percebi um movimento no rosto dele, com certeza era um sorriso de satisfação. Inferno. Mal conheço esse sujeito e ele já me irrita muito. No final, para variar, eu obedeci. Meus braços se fecharam em volta da cintura dele. A camiseta preta estava quente. Por baixo do tecido eu sentia músculos rígidos e a respiração controlada. O cheiro de sabão barato subiu outra vez, misturado agora com vento e sol da manhã. Eu fechei os olhos por um segundo e odiei o quanto aquele cheiro já tinha se tornado familiar. Eu, que tinha mania de criar listas mentais para tudo, comecei a fazer uma nova: motivos para não me envolver com um homem do morro que aparecia do nada carregando crianças baleadas e falava em sentenças. A lista estava ficando curta demais. A moto parou duas ruas abaixo do ponto de ônibus que eu pretendia pegar. Um lugar discreto, com uma parede descascada e um beco estreito ao lado. Rafael desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu tirei o capacete com as mãos um pouco trêmulas e desci. Minhas pernas ainda vibravam. Ele também desceu, tirando o próprio capacete com um gesto fluido. Pela primeira vez desde a clínica, ficamos frente a frente sob a luz do dia. Eu podia ver as olheiras, a barba por fazer, a intensidade crua daquele olhar. — Obrigada pela carona — disse eu, a voz saindo mais baixa do que eu gostaria. Ele não respondeu imediatamente. Deu um passo à frente. Depois outro. Eu recuei por instinto e minhas costas encontraram a parede. De novo. Sempre paredes com ele. O corpo grande e quente se aproximou até quase me tocar. Quase. A distância entre nós era uma ofensa. Eu sentia o calor irradiando dele. Via o pulso batendo no pescoço. Meu próprio pulso respondia descompassado. Eu, que tinha medo de perder o controle desde a adolescência, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Rafael inclinou a cabeça. O movimento foi lento, deliberado. Os olhos desceram para a minha boca. Eu parei de respirar. O quase-beijo ficou suspenso no ar entre nós, quente e inevitável. Eu já sentia o fantasma da pressão daqueles lábios. Já sabia que ia ser duro. Que ia me desmontar. Meus dedos se cerraram ao lado do corpo, combatendo a vontade de puxar a camiseta dele. Foi quando o som de um motor baixo cortou o momento. Um carro preto, sem placa aparente, parou na esquina exatamente à nossa frente. Os vidros estavam escuros. Por um segundo longo demais, ninguém se moveu. Depois o vidro do passageiro desceu com uma lentidão calculada. Eu não consegui ver o rosto de quem estava dentro. Só a sombra. E a forma como Rafael, ao meu lado, endureceu por completo, o corpo inteiro se transformando em alerta puro. A mão dele encontrou meu braço, apertando com força suficiente para doer. — Não olha — murmurou, a voz baixa e perigosa. — E não se mexe.Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p







