INICIAR SESIÓNRafael Costa "Rafa/Gael"
— Eu não deveria ter ficado. Eu repeti pra mim mesmo. Aquela era a primeira regra que eu mesmo tinha criado quando voltei para a Rocinha sete anos atrás: nunca se envolver além do necessário. Nunca deixar que alguém se aproximasse o suficiente para ver as rachaduras. Nunca, sob nenhuma hipótese, permitir que uma mulher de bata branca e olhar determinado me fizesse esquecer quem eu era de verdade. E ainda assim, ali estava eu, encostado na parede úmida do corredor do posto de saúde, braços cruzados sobre o peito, observando Clara Mendes trabalhar como se a vida dela e a daquela criança dependessem exclusivamente daquelas mãos pequenas e competentes. Eu tinha trinta e três anos. Alto demais para os corredores estreitos da favela, ombros largos demais para passar despercebido, e uma cicatriz fina que cortava a sobrancelha esquerda — lembrança de uma briga aos dezesseis que quase me custou o olho. A pele morena pelo sol constante, o cabelo preto curto sempre meio bagunçado porque eu odiava perder tempo com espelho, e as mãos calejadas que contrastavam com o que eu era obrigado a esconder. Eu era Rafael Costa para o morro. Gael Moreira Albuquerque para um mundo que eu tinha enterrado. E naquela noite, pela primeira vez em anos, as duas identidades estavam brigando dentro do meu peito com uma força que me irritava profundamente. Ela não parava. Desde que os tiros cessaram, Clara tinha se movido como uma máquina precisa. Eu observava cada detalhe: a forma como franzia a testa quando a pressão da menina caía, o jeito determinado com que ordenava o enfermeiro sem levantar a voz, a mania que ela tinha de passar a língua no lábio inferior quando estava concentrada. Eu odiava notar essas coisas. Odiava ainda mais o calor que subia pela minha virilha cada vez que ela se inclinava sobre a maca e a bata branca marcava a curva da cintura. Desejo visceral. Sujo. Inconveniente. Eu não me permitia esse tipo de fraqueza desde que aprendi, ainda menino, que querer algo demais era o caminho mais rápido para perder tudo. Jorge, o enfermeiro, passou por mim carregando uma bolsa de sangue. — Ela é boa, Rafa. Muito boa. Não vi médico trabalhar assim aqui desde que o doutor Elias morreu. Eu apenas inclinei a cabeça. Não confiava em palavras demais. Preferia silêncio. Era uma das minhas manias mais antigas: falar pouco e observar tudo. Medo de entregar alguma coisa. Medo de que alguém percebesse que por baixo da camiseta preta barata existia um homem que sabia o gosto de uísque de quinze anos e o peso de um anel de formatura que nunca usara. — Manda dois homens ficarem na porta a noite toda — ordenei baixinho, quando Jorge se aproximou de novo. — Ninguém entra sem a minha autorização. E se alguém se aproximar dela demais, eu quero saber. — E a menina? — Transfere assim que estabilizar. Eu resolvo a viatura. Ele assentiu e desapareceu. Eu continuei ali, imóvel, sentindo o gosto amargo da própria contradição. Eu ordenava proteção porque cada célula do meu corpo gritava para mantê-la segura. Ao mesmo tempo, já planejava a forma mais eficiente de fazê-la ir embora. Uma ameaça velada. Uma transferência forçada. Qualquer coisa que a mandasse de volta para o asfalto antes que o meu mundo a engolisse… ou antes que ela engolisse o pouco de controle que eu ainda tinha. Clara endireitou as costas por um momento, limpou o suor da testa com o antebraço e olhou na minha direção. Nossos olhares se encontraram outra vez. Eu não desviei. Ela também não. Havia algo naquela teimosia silenciosa dela que me provocava. Eu gostava de gente que não baixava a cabeça. Odiava ao mesmo tempo. Porque gente assim era perigosa. Gente assim fazia perguntas. Gente assim não aceitava a primeira mentira que eu oferecia. Ela se aproximou depois de terminar de suturar. — Você ainda está aqui. A voz dela era rouca de cansaço. Eu notei o detalhe sem querer. Notei também o fio de cabelo solto que grudava no pescoço suado e a forma como ela apertava as mãos uma na outra — mania nervosa, talvez. Eu tinha as minhas também. Eu apertava a mandíbula até doer quando precisava me controlar. Naquele momento, a mandíbula doía. — Alguém precisa garantir que ninguém entre atirando de novo. — Você poderia ter ido embora. A menina está estável. — Poderia. Silêncio. Eu via o cansaço nos ombros dela, a determinação teimosa que ainda a mantinha de pé. Eu queria empurrá-la contra a parede outra vez. Queria sentir o cheiro do cabelo dela misturado com antisséptico. Queria descobrir se ela gemia baixo ou alto quando perdia o controle. Eu odiei o pensamento no mesmo segundo em que ele nasceu. Meu celular vibrou no bolso. Eu ignorei na primeira vez. Na segunda, tirei o aparelho sem tirar os olhos dela. A mensagem era de um número que só cinco pessoas no mundo tinham. Curta. Direta. Do tipo que fazia o sangue gelar mesmo em quem já tinha visto demais: "Seu pai está pior. Tempo esgotando. Eles vão usar a mulher se você não aparecer." Eu travei a tela com o polegar. O rosto permaneceu impassível. Era uma das minhas melhores habilidades: não deixar nada transparecer. Por dentro, porém, algo antigo e sujo se mexeu. O menino que tinha sido arrancado do morro aos doze anos e jogado num mundo de mármore e hipocrisia ainda existia em algum lugar. E ele odiava ser lembrado. Clara notou a mudança. Claro que notou. Aquela mulher parecia ter um radar para rachaduras. — Notícia ruim? — Nada que diga respeito a você. A resposta saiu mais dura do que eu pretendia. Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora. Eu quase sorri. Quase. — Tudo que acontece dentro dessa clínica diz respeito a mim enquanto eu estiver de plantão. — Então talvez você não devesse estar de plantão aqui. As palavras saíram baixas, perigosas. Eu dei um passo na direção dela. O corredor era estreito. De repente estávamos perto demais outra vez. Eu via os poros do rosto dela, o leve tremor na respiração, a forma como a garganta se movia quando ela engolia. O desejo bateu forte, sujo, imediato. Eu queria empurrá-la contra a parede, abrir as pernas dela com o joelho e fazer ela esquecer qualquer pergunta inteligente. — Você não pertence a esse lugar, doutora. — E você pertence? A pergunta dela me acertou em cheio. Eu não respondi. Em vez disso, incline-me um pouco mais, o suficiente para que ela sentisse o calor do meu corpo. — Vá embora enquanto ainda pode. Eu não vou pedir de novo. Ela sustentou o olhar. Teimosa. Corajosa. Idiota. Exatamente o tipo de mulher que eu não podia ter. Foi então que Dudu, um dos meus homens mais antigos, apareceu na porta do corredor, ofegante. — Rafa. Preciso falar. Agora. Eu me afastei de Clara com um esforço consciente. Virei o corpo inteiro para ele, o rosto já fechado. — Fala. Dudu lançou um olhar rápido para a médica e baixou a voz. — Alguém fotografou ela saindo da clínica mais cedo. Antes do tiroteio. Tirou várias fotos do ângulo certo. E elas já estão circulando em alguns grupos. O sangue em minhas veias esfriou. Eu virei a cabeça devagar e olhei para Clara outra vez. Ela ainda estava ali, observando, sem entender completamente o peso daquelas palavras. Mas eu entendi. Para a minha desgraça eu entendia demais. Alguém tinha colocado a mulher que eu acabei de proteger na mira. E eu, que planejava fazê-la ir embora, agora sabia que já era tarde demais para isso.Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p







