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4: SANGUE NO ALGODÃO

last update Date de publication: 2026-11-01 06:38:21

Rafael Costa "Rafa/Gael"

O vidro do carro desceu e eu já sabia o que estava por vir. Não precisei ver o rosto. O tipo de carro, a ausência de placa e a forma calculada como parou na esquina… tudo gritaria “ameaça” mesmo para alguém que não tivesse passado a vida inteira lendo perigo no ar. Eu apertei o braço de Clara com força suficiente para deixá-la quieta e, ao mesmo tempo, me posicionar na frente dela. Meu corpo virou escudo antes mesmo que eu pensasse. Era instinto. Um instinto que eu tinha cultivado no morro e depois lapidado no inferno de mármore e mentiras da família Albuquerque. Eu tinha trinta e três anos, cicatrizes demais e uma regra de ouro: nunca deixar que o perigo chegasse perto o suficiente para tocar o que era meu. E naquele momento, mesmo que eu odiasse admitir, aquela médica teimosa já estava sob essa categoria.

— Fica atrás de mim — ordenei baixo, sem tirar os olhos do carro. — E não faz nenhuma pergunta.

— Rafael...

— Nenhuma.

A voz saiu mais dura do que eu pretendia. Eu senti ela enrijecer atrás de mim, aquela teimosia silenciosa que tanto me irritava e excitava ao mesmo tempo. Não tive tempo de analisar a situação, porque o vidro desceu por completo e a boca de um cano preto brilhou na penumbra do interior. Eu já me movia.

Empurrei Clara com força para o beco estreito ao lado, ouvindo o protesto abafado dela, e avancei. O motorista não esperava que eu fosse tão rápido. Nunca esperavam. Eu cresci aprendendo a ser mais rápido, mais sujo e mais decisivo que qualquer um que viesse do asfalto achar que podia ditar regras no meu território. A porta do carro abriu. Eu fechei ela com o corpo do homem. O som do impacto foi abafado. O segundo ocupante tentou reagir. Foi inútil. Em menos de quarenta segundos o carro já estava engatado e subindo a ladeira em direção a um dos meus pontos. Eu não matei. Ainda não. Mas deixei claro, com sangue e dor, que fotografar a mulher que estava sob minha proteção tinha um preço.

Quando voltei para o beco, Clara estava encostada na parede, o rosto pálido e os olhos largos demais. Eu vi o momento exato em que ela notou a mancha escura se espalhando na minha camiseta preta. O sangue não era só dos outros.

— Você está sangrando.

A voz dela saiu firme, profissional, mas havia um fio de algo mais embaixo. Eu ignorei. Precisei ignorar. Porque o desejo sujo que eu sentia por ela desde a noite anterior só piorava quando ela falava daquele jeito: determinada, preocupada, pronta para cuidar de mim mesmo depois de eu ter acabado de fazer coisas que ela nem imaginava.

— É só um corte. Vamos — eu disse.

— Nem pensar. Tira a camisa — ela ordenou.

— Clara — tentei impedir, mas foi inútil. Agora foi a vez dela ditar as regras.

— Agora, Rafael. Ou eu grito por ajuda e transformo isso numa cena.

Eu quase ri. Quase. A ousadia dela era de um tipo que eu raramente encontrava. A maioria das pessoas baixava a cabeça pra mim. Ela erguia o queixo. Eu odiava o quanto isso me atraía. Odiava ainda mais o calor que descia pelo meu estômago quando ela deu um passo à frente e puxou a barra da minha camiseta sem pedir mais permissão.

O tecido subiu. O ar da manhã bateu na pele suada e no corte longo que um dos homens tinha conseguido me dar nas costelas, bem na lateral do abdômen. Não era profundo, mas sangrava com generosidade. Clara chupou o ar entre os dentes. Eu observei o rosto dela enquanto ela avaliava o ferimento com aquela precisão médica que já estava começando a me fascinar de um jeito perigoso. A testa franzida. Os lábios apertados. A mania que ela tinha de morder o canto da boca quando estava concentrada. Eu queria morder aquele canto no lugar dela.

— Isso precisa de limpeza e pontos. Onde fica sua casa? — ele perguntou concentrada no ferimento.

— Eu moro no barraco da ladeira de cima. Não tem condições de ir pra lá — afirmei, tentando evitar que ela soubesse coisas que a fizessem se afastar de mim.

— Então a gente resolve aqui — ela disse sem pensar em nada. Naturalmente. Como se estivéssemos num bairro tranquilo, ao invés de uma ladeira na maior favela do Rio de Janeiro.

Essa mulher é louca? Ou será que eu quem está louco por desejar estar dentro dela?

Ela abriu a bolsa médica que ainda carregava e tirou gaze, antisséptico, esparadrapo. Eu fiquei parado, a camiseta erguida, as costas na parede úmida do beco, enquanto aquela mulher se ajoelhava na minha frente como se fosse a coisa mais natural do mundo. O contraste era obsceno. Eu, coberto de sangue que não era só meu. Ela, com as mãos pequenas e competentes tocando minha pele como se eu fosse só mais um paciente. Mas eu não era. E o meu corpo sabia.

Quando os dedos dela deslizaram perto do corte, limpando o sangue com algodão embebido em antisséptico, um arrepio bruto subiu pela minha espinha. Eu contraí o abdômen por reflexo. Clara levantou os olhos. Estávamos perto demais. A boca dela ficou alinhada com a minha cintura. O cabelo castanho-escuro caía em mechas soltas sobre o ombro. Eu podia sentir o calor da respiração dela contra a minha pele. O corte ardia. O desejo ardia mais.

— Fica quieto — murmurou ela, a voz um pouco rouca. — Você é um paciente terrível.

— E você é uma médica teimosa demais para o próprio bem.

— Alguém precisa ser. Você claramente não se importa se vive ou morre.

A frase me acertou mais fundo do que o corte. Eu olhei para baixo, para o topo da cabeça dela, e senti aquela velha raiva fria se misturar com o desejo. Eu me importava demais com o morro, com as crianças que carregava para fora de tiroteios e com a mentira elaborada que eu sustentava há anos para que a família Albuquerque nunca colocasse as garras de volta no que era meu. E agora, perigosamente, eu estava começando a me importar com uma médica que cheirava a antisséptico e teimosia.

Os dedos dela continuaram o trabalho. Cada toque era uma tortura calculada. Ela limpava, pressionava, avaliava. Eu sentia a textura dos dedos, o leve tremor que ela tentava esconder, a forma como a respiração dela mudava quando a mão escorregava um pouco mais abaixo do necessário. O silêncio entre nós ficou pesado, carregado. Eu podia ter afastado a mão dela. Podia ter puxado a camiseta para baixo e encerrado aquilo. Em vez disso, fiquei imóvel, deixando que ela me tocasse, deixando que o fogo se espalhasse.

— Por que você ficou ontem na clínica a noite toda? — perguntou ela de repente, sem levantar a cabeça.

— Porque alguém precisava — respondo tentando manter o tom neutro da voz.

— Mentira. Você tem homens. Eu vi.

Ela me olhou rapidamente. Senti um nó na garganta.

— Mentira é o que você vai me contar se eu perguntar por que ainda não pegou um táxi e voltou para a Zona Sul.

Ela parou. Os dedos ficaram pressionados contra a minha pele, bem ao lado do corte. Quando levantou o rosto, os olhos estavam desafiadores e algo mais. Algo que fazia meu sangue bombear direto para baixo.

— Eu não corro.

— Eu sei. É exatamente esse o problema.

O quase ficou suspenso outra vez. Eu podia sentir o cheiro dela agora: antisséptico, suor leve da noite em claro e um toque de shampoo barato. Eu queria puxá-la pela nuca e beijá-la até que a teimosia derretesse. Queria virar os papéis, colocá-la contra a parede e descobrir quantos gemidos eu conseguia tirar dela antes que alguém aparecesse no beco. Em vez disso, forcei a voz a sair controlada.

— Termina logo.

Ela obedeceu em silêncio. Colocou a última gaze, fixou com esparadrapo, as mãos demorando um segundo a mais do que o necessário sobre a minha pele. Quando finalmente se levantou, estávamos de novo perto demais. O peito dela quase tocava o meu. Eu vi o momento em que ela engoliu seco.

Foi então que a bolsa dela escorregou do ombro. Eu me agachei por instinto para pegar. Alguns itens rolaram no chão irregular: um tubo de hidratante labial, um bloco de anotações, e… um cartão que não era dela.

Eu reconheci antes mesmo dela se mexer. O cartão de visita que eu carregava no bolso de trás da calça. O cartão que um dos advogados do meu pai tinha me entregado na última vez que tentaram me arrastar de volta para São Paulo. Papel grosso, letras discretas, endereço no Itaim Bibi. Um pedaço da minha outra vida que eu tinha sido estúpido o suficiente para não destruir.

Clara se agachou ao mesmo tempo. Os dedos dela alcançaram o cartão um segundo antes dos meus.

Ela leu.

O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer tiro.

Quando ela levantou os olhos para mim, havia uma pergunta perigosa neles. E eu soube, com uma clareza fria, que o jogo que eu estava jogando acabou de ficar muito mais complicado.

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