Clara Mendes Eu nunca tinha sentido o cheiro da morte tão de perto quanto naquele fim de tarde na Rocinha. O ar era pesado, misturado com fumaça de pneu queimado, esgoto a céu aberto e o medo ácido que parecia suar das próprias paredes dos barracos. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica formada há pouco mais de um ano, estava ali porque escolhi estar. Porque um dia, ainda na faculdade, jurei que não ia me esconder atrás de consultórios climatizados da Zona Sul enquanto gente morria sem atendimento a poucos quilômetros de distância. Minha mãe chamava isso de teimosia suicida. Meu pai chamava de idealismo idiota. Eu chamava de propósito. E agora, com a mala de roupa ainda no porta-malas do Uber que me abandonou na entrada da favela, eu estava prestes a descobrir se o propósito ia me matar antes do primeiro plantão terminar. O posto de saúde era pequeno, paredes descascadas, ventiladores barulhentos tentando empurrar o calor úmido de outubro. Eu tinha chegado havia menos de uma h
Last Updated : 2026-11-01 Read more