INICIAR SESIÓNRafael Costa "Rafa/Gael"
O primeiro estampido me tirou do lugar onde eu estava encostado, dois andares abaixo do quarto dela, fumando o segundo cigarro da madrugada sem realmente fumar. Eu só precisava da brasa e do gesto. Era uma mania antiga, de quando ainda era menino e o barulho de tiro significava que alguém ia morrer antes do amanhecer. Agora, aos trinta e três, o barulho ainda fazia o mesmo efeito: o corpo inteiro entrava em modo de guerra antes mesmo do cérebro processar. A rajada veio logo em seguida. Longa. Pesada. Direcionada. Eu já sabia de onde vinha antes de virar o rosto na direção do posto de saúde. A clínica. Eu corri. Subir a ladeira em disparada, pulando degraus irregulares, o corte nas costelas puxando a cada movimento, foi quase automático. Eu não pensava em mim. Pensava nela. Na teimosia daquela mulher que eu tinha beijado horas antes para calar perguntas que eu não podia responder. Na forma como ela tinha correspondido ao beijo com a mesma fome. No cartão que ela tinha visto. Em tudo que eu ainda não tinha dito. Eu odiava correr por causa de alguém. Odiava ainda mais a certeza fria de que, se algo tivesse acontecido com Clara Mendes naquela madrugada, eu ia queimar o morro inteiro e depois partir para São Paulo para terminar o serviço. O posto estava em caos quando cheguei. Vidros estilhaçados. Marcas de tiro na fachada. Jorge e dois auxiliares tentando proteger o pouco que restava lá dentro. Não havia mortos. Ainda. Mas a mensagem estava clara. Alguém queria que eu visse. Alguém queria que eu entendesse que a clínica — e a médica que eu tinha colocado sob minha sombra — agora faziam parte do jogo. Não perdi tempo ali. Gritei ordens rápidas, vi que ninguém estava gravemente ferido e virei na direção da laje onde ela estava. A porta do quarto dela cedeu no segundo chute. Eu não tinha paciência para bater. Clara estava de pé no meio do cômodo pequeno, ainda de camiseta e short de dormir, o cabelo castanho solto e bagunçado, os olhos largos demais no rosto pálido. Quando me viu, algo entre alívio e raiva cruzou a expressão dela. Eu não dei tempo para nenhuma das duas. — Vamos. Agora. — O que aconteceu? Eu ouvi os tiros. A clínica... Clara tentou entender o que estava acontecendo, mas o que eu menos tinha naquele momento era tempo e paciência para explicar alguma coisa. — Foi metralhada. Você não fica aqui. Sobe na minha frente e anda — ordenei, como era o meu costume. — Rafael, eu preciso ir até lá. Pode ter feridos... Novamente ela tentou falar, mas eu cruzei o quarto em duas passadas e peguei o braço dela. O contato foi elétrico, como sempre. Eu senti a pele quente, o tremor leve que ela tentava esconder, a forma como o corpo dela resistiu por instinto. Minha paciência estava no fim. O medo que eu senti subindo a ladeira tinha se transformado numa raiva fria e protetora que eu conhecia bem demais. Eu não pedia. Eu tirava. — Você não vai para a clínica. Você vem comigo. Ou eu te carrego — falei. — Você não tem o direito... — Clara tentou falar, mas não dei tempo pra isso. — Eu tenho todos os direitos que eu decido ter nessa porra de morro. Agora anda, Clara. Ou eu juro que te coloco no ombro como se fosse um saco de barata. Ela deve ter visto algo no meu rosto. Algo que não admitia discussão. Porque a resistência nos ombros dela cedeu um pouco. Só um pouco. Eu soltei o braço, mas fiquei perto o suficiente para sentir o cheiro do cabelo dela — shampoo e o resquício do beijo de horas antes. Ela pegou a bolsa médica e uma jaqueta. Eu peguei o resto. Em menos de um minuto estávamos descendo a laje sob o olhar curioso de quem já tinha acordado com os tiros. O caminho até o meu barraco foi feito em silêncio tenso. Eu andava na frente, o corpo inteiro alerta, os ouvidos captando cada som. Ela vinha atrás, teimosa até no passo, como se cada metro fosse uma concessão que ela me fazia e não uma necessidade. Eu conhecia aquele tipo de orgulho. Tinha o mesmo. Era por isso que a gente ia se destruir. Meu barraco ficava numa parte mais alta, discreta, com vista para boa parte da favela e rotas de fuga que só eu e dois homens conheciam. Não era luxo. Era funcional. Parede de madeira reforçada, teto de laje, uma cama de casal que eu quase nunca usava para dormir, um fogão pequeno e uma mesa com marcas de uso. Quando abri a porta e a empurrei para dentro, o espaço pareceu ainda menor com os dois ali. — Você vai ficar aqui até eu resolver isso — falei, trancando a porta atrás de mim com dois ferrolhos pesados. — Não discute. Clara se virou no meio do cômodo, os braços cruzados, o queixo erguido daquele jeito que já estava começando a me deixar louco. — Você não pode simplesmente me arrancar da minha cama e me trazer para cá como se eu fosse um saco de arroz. — Posso. Acabei de fazer. — Rafael... — Senta. Ou deita. Faz o que quiser. Mas você não sai dessa porta até o sol nascer e eu ter certeza de que a próxima rajada não vem com o seu nome. Ela ficou me encarando por um longo segundo. Eu vi a luta interna. A médica que queria correr para o posto. A mulher teimosa que odiava receber ordens. A pessoa cansada que ainda sentia o gosto do meu beijo na boca. Por fim, ela se deixou cair na beira da cama, os ombros pesados. Eu soltei o ar sem perceber que estava segurando. O resto da noite foi uma tortura de proximidade forçada. Eu não podia sair. Não com ela ali. Não sabendo que alguém tinha mandado uma mensagem tão clara. Então fiquei. Sentei na única cadeira do cômodo, de frente para a porta, a arma ao alcance da mão, o corpo inteiro ligado. Clara tentou ficar acordada. Conversou. Perguntou. Eu respondi o mínimo possível. — Quem foi? — perguntou ela, a voz baixa na escuridão apenas cortada pela luz amarela de um abajur velho. — Ainda não sei. — Mentira. — É a mentira que você vai ter que engolir por enquanto. — Você beijou minha boca horas atrás e agora me trata como um problema logístico. Eu virei o rosto para ela. A cama ficava a menos de dois metros. Ela estava sentada com as costas na parede, os joelhos puxados contra o peito, a camiseta larga demais escorregando num ombro. Eu queria ir até lá e morder aquele ombro. Queria abrir as pernas dela e terminar o que o beijo tinha começado. Em vez disso, apertei a mandíbula até doer. — Você é um problema. Desde o segundo em que entrou na minha clínica carregando uma criança. — A clínica não é sua. — Tudo que eu decido proteger se torna meu. Inclusive você. Principalmente você. O silêncio que se seguiu foi carregado. Eu ouvia a respiração dela. Ouvia o próprio sangue batendo nos ouvidos. O corte nas costelas pulava. O desejo pulava mais. Ficar naquele espaço pequeno com Clara Mendes era uma forma sofisticada de tortura. Cada movimento dela eu sentia. Cada vez que ela se mexia na cama, o colchão rangia e meu corpo reagia. Eu contava os minutos. Depois as horas. Uma mania antiga de medir o tempo quando o controle ameaçava escapar. Por volta das quatro da manhã ela desabou de cansaço. Adormeceu sentada, a cabeça tombando para o lado. Eu fiquei olhando. Observando a forma como o rosto dela amolecia no sono, a boca entreaberta, a expressão de teimosia finalmente descansando. Eu me levantei devagar, peguei o único cobertor limpo que tinha e joguei sobre ela. Meus dedos roçaram o braço nu. Ela murmurou alguma coisa. Eu me afastei como se tivesse me queimado. Foi quase cinco e meia quando o celular vibrou. Mensagem de Dudu. "Foi recado. Direto. Albuquerque. Falaram seu nome verdadeiro. Falaram dela." Eu li duas vezes. Depois uma terceira. O sangue esfriou e depois ferveu. A família. Meu pai. Ou o que restava daqueles filhos da puta que achavam que podiam me puxar de volta pela coleira. Eles tinham mandado a rajada. Tinham escolhido a clínica. Tinham colocado Clara na mira de propósito. Eu olhei para a mulher dormindo na minha cama. E soube que o jogo que eu vinha jogando sozinho há anos acabou de mudar de nível.Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p







