INICIAR SESIÓNClara Mendes
Eu acordei com o cheiro dele grudado na minha pele como uma segunda camada. Por um segundo longo e confuso, não soube onde estava. O colchão era mais firme que o da laje onde eu tinha tentado dormir. O teto de madeira escura tinha marcas de umidade que eu não reconhecia. E o lençol áspero contra as minhas pernas nuas carregava um aroma masculino de sabão, café antigo e algo mais escuro que eu já tinha memorizado contra a minha vontade. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que odiava perder o controle, fiquei perfeitamente imóvel enquanto a memória da madrugada voltava em ondas. Os tiros. A porta arrombada. Rafael me arrancando do quarto como se eu fosse um objeto que ele podia deslocar à força. A noite inteira naquele espaço pequeno, a tensão pesada, o quase que nunca se resolvia. Eu estava usando a camisa dele. Como isso aconteceu? A percepção veio aos poucos. O tecido grosso e macio de tanto uso caía largos nos meus ombros, as mangas ultrapassando as mãos, a barra batendo no meio da coxa. Por baixo, só a calcinha. Meu short e a camiseta de dormir tinham sumido. O coração acelerou. Eu contei mentalmente, uma mania antiga que voltava sempre que o mundo parecia grande demais: três respirações. Quatro batidas do pulso no pescoço. Cinco segundos olhando o teto antes de me sentar. Eu precisava de números. Números não mentiam. Diferente de homens que beijavam como se fossem devorar a alma e depois trancavam a gente em barracos sem explicação. Rafael estava de costas para mim, em frente ao fogãozinho de duas bocas. Sem camisa. A calça jeans baixa no quadril. A gaze branca que eu mesma tinha colocado ainda estava colada na lateral do abdômen, um pouco suja de sangue seco. Os músculos das costas se moviam enquanto ele mexia uma cafeteira velha de alumínio. Eu fiquei olhando. Não conseguia evitar. Havia uma força contida naquele corpo, uma disciplina de quem treina para sobreviver e não para aparecer. A cicatriz fina na sobrancelha. Outra, mais antiga, perto da omoplata. Eu queria perguntar sobre cada uma. Queria também passar a língua nelas. O pensamento me fez corar de um jeito que eu odiei. Ele falou sem se virar, como se tivesse sentido meu olhar na pele. — A cafeteira é ruim. O pó é pior. Mas é o que tem. A voz rouca de quem mal dormiu me atravessou a espinha. Eu puxei a barra da camisa para baixo por instinto, tentando cobrir mais pele, e me sentei na beira da cama. O colchão rangeu. Ele se virou devagar. Os olhos escuros percorreram meu corpo de cima a baixo, demorando na gola aberta da camisa dele no meu peito, nas minhas pernas nuas, no cabelo bagunçado que eu tinha certeza que estava um caos. Havia fome naquele olhar. Contida. Perigosa. Eu senti o mesmo calor baixo na barriga responder como um traidor. — Onde está minha roupa? — perguntei, tentando soar firme. A teimosia era o único escudo que me restava. — Encharcada de sujeira da ladeira. Lavei. Está no varal lá fora. Você veste a minha até secar. — Você poderia ter me acordado. — Você precisava dormir. Estava prestes a desmaiar de pé. — Eu não desmaio. — Claro que não. Você só discute com homens armados no meio da madrugada e acha que isso é normal. O canto da boca dele se ergueu um milímetro. Quase um sorriso. Eu odiava o quanto aquilo me afetava. Odiava ainda mais a forma como o espaço pequeno do barraco parecia encolher com os dois acordados. Eu podia sentir o calor dele mesmo à distância. Podia ver o peito subindo e descendo na respiração controlada. Minha mania de observar detalhes estava em sobrecarga: o jeito como ele segurava a caneca rachada, a tensão permanente nos ombros, a forma como evitava chegar perto demais da cama onde eu estava. Ele serviu o café em duas canecas e veio até mim. Estendeu uma. Os dedos se roçaram no cabo. O contato durou um segundo a mais do que o necessário. O café estava forte, amargo, exatamente como eu imaginava que seria qualquer coisa na vida daquele homem. Eu bebi um gole só para ter o que fazer com a boca. Ele ficou de pé na minha frente, perto demais, olhando para baixo. — Como está a cabeça? — perguntou. — Funcionando. Diferente da sua, aparentemente. — Qual é o significado disso? — Significado que você me beijou para me calar, me arrastou para cá no meio da madrugada, tirou minha roupa enquanto eu dormia e agora serve café como se isso fosse uma manhã qualquer. Eu quero respostas, Rafael. Ou Gael. Ou seja lá qual for o nome que você usa quando não está fingindo ser só mais um homem do morro. O nome saiu afiado. Eu vi o impacto. A mandíbula dele apertou. Os olhos escureceram. Por um momento achei que ele ia me beijar de novo só para calar a boca. Parte de mim queria que ele fizesse exatamente isso. A outra parte, a médica controlada e teimosa, precisava das verdades que ele empurrava para baixo do tapete. — Você não sabe o que está pedindo — disse ele, a voz baixa. — Então me ensina. Porque eu estou sentada na sua cama, vestindo a sua camisa, com o gosto do seu beijo ainda na boca e um cartão de advocacia de luxo queimando na minha memória. Eu não sou idiota. — Eu sei que não é. É exatamente por isso que você deveria ter ido embora ontem. — E é exatamente por isso que eu não fui. O silêncio ficou pesado. Carregado. Sexual. Eu sentia cada centímetro de pele descoberta. Sentia o olhar dele descendo para a minha boca outra vez. O barraco cheirava a café e a ele. Eu cheirava a ele. Era íntimo demais. Perigoso demais. Eu queria puxar aquele corpo sem camisa para baixo e terminar o que o beijo do beco tinha começado. Queria também bater nele por me colocar nessa posição. Rafael se agachou na minha frente. As mãos grandes pousaram nos meus joelhos, abrindo um pouco as minhas pernas para ele ficar entre elas. O gesto foi natural e ao mesmo tempo obsceno. Eu segurei a respiração. Os polegares dele faziam círculos lentos na pele interna da minha coxa, logo acima do joelho. Não subiam. Mas também não paravam. — Você é teimosa demais para o próprio bem — murmurou. — E você é mentiroso demais para o meu. — Talvez. Mas enquanto você estiver nesse morro, você vai fazer o que eu disser. Principalmente depois da recado de ontem. — Que recado? Antes que ele respondesse, batidas firmes soaram na porta de madeira. Rafael se levantou num movimento rápido, o corpo inteiro em alerta. Eu puxei a camisa para baixo, o coração disparado. Ele foi até a porta, olhou pelo vão estreito e abriu só o suficiente. Uma mulher estava do lado de fora. Pele morena, cabelo preso num rabo de cavalo alto, roupa simples mas limpa. Ela não parecia assustada. Parecia... familiarizada. Os olhos dela passaram por Rafael e encontraram os meus por um segundo. Depois voltaram para ele. — Gael — disse ela, a voz clara, sem hesitação. — Precisamos conversar. Agora. O nome ecoou no barraco pequeno como um tiro. Gael. Eu olhei para a nuca de Rafael. Vi os ombros ficarem rígidos. E senti, com uma clareza dolorosa, que a manhã de café e tensão sexual acabara de se transformar em algo muito maior e muito mais perigoso.Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p







