LOGINClara Mendes
O cartão queimava entre os meus dedos como se tivesse vida própria. Eu permaneci agachada no beco por mais tempo do que o necessário, os olhos presos naquele retângulo de papel grosso e letras discretas que gritavam dinheiro, poder e um mundo que não combinava em nada com a camiseta preta ensanguentada de Rafael. Escritório de advocacia no Itaim Bibi. Nome elegante. Endereço que eu só conhecia de passagem, de quando ainda acreditava que meu futuro seria em algum hospital particular da Zona Sul e não num posto de saúde no meio da Rocinha. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa demais para o próprio bem, sentia a ansiedade subir pela garganta em ondas quentes. Minha mania antiga de contar coisas voltou com força total. Três segundos olhando o cartão. Quatro respirações curtas. Cinco batidas descompassadas do coração. Eu precisava de números para não gritar. Levantei o rosto devagar. Rafael ainda estava agachado na minha frente, tão perto que eu sentia o calor do corpo dele, o cheiro de sangue seco e sabão barato misturado com algo mais caro que ele tentava esconder. Os olhos escuros não piscavam. Havia uma tensão nova ali, uma dureza calculada, como se ele já estivesse medindo o tamanho do estrago e decidindo qual mentira usar primeiro. Eu odiava mentiras. Sempre odiei. Em casa, quando meus pais fingiam que o casamento deles não estava desmoronando. Na faculdade, quando professores tentavam me convencer de que certos pacientes “não valiam o esforço”. Mentira, para mim, era uma ofensa pessoal. E aquele cartão era a prova física de que o homem que me protegeu duas vezes em menos de vinte e quatro horas estava mentindo com todas as letras. — O que é isso? — perguntei, a voz saindo mais baixa e firme do que eu esperava. Eu me orgulhava disso: da capacidade de parecer controlada mesmo quando por dentro tudo desabava. Rafael estendeu a mão para pegar o cartão. Eu afastei o braço. — Me responde. — É só um cartão, Clara. — De um escritório de advocacia de luxo em São Paulo. No bolso de um homem que se apresenta como mototaxista da Rocinha. Não parece “só um cartão”. Ele se levantou num movimento fluido, a camiseta ainda erguida de um lado, a gaze branca contrastando com a pele morena e o sangue seco. Eu subi junto, porque ficar agachada na frente dele me deixava em desvantagem e eu odiava desvantagens. Minha teimosia era lendária entre as pessoas que me conheciam. Minha mãe dizia que eu tinha nascido com o queixo erguido. Meu pai dizia que um dia aquela teimosia ia me matar. Olhando para Rafael naquele beco, eu começava a achar que os dois estavam certos. — Você não entende — disse ele, a voz rouca, controlada demais. — Então me faz entender. Porque até agora você só me deu silêncio, ordens e um corte no abdômen que eu mesma precisei limpar. O silêncio se esticou. Eu via o conflito passar pelo rosto dele como uma tempestade contida. A mandíbula apertada. O olhar que ia da minha boca para os meus olhos e voltava. Havia desejo ali. Eu não era ingênua. Eu sentia o mesmo desejo queimando baixo na minha barriga desde a noite anterior, quando ele me prendera contra a parede. Mas desejo não apagava perguntas. E eu tinha perguntas demais. — Você precisa ir embora daqui — falou ele por fim. — Hoje. Agora. — Não. — Clara. — Eu não vou embora. E você não vai mudar de assunto. De quem é esse cartão? Por que você carrega isso? Quem é Gael? O nome saiu antes que eu pensasse. Eu tinha ouvido a mulher na porta do barraco. Tinha visto a reação dele. Agora o cartão. As peças começavam a se encaixar de um jeito que me assustava. Rafael deu um passo à frente. Depois outro. Eu recuei por instinto e minhas costas encontraram a parede úmida outra vez. Sempre paredes com ele. Sempre essa sensação de estar encurralada e, ao mesmo tempo, exatamente onde meu corpo queria estar. — Você não faz ideia do que está mexendo — murmurou ele, tão perto que a respiração quente bateu no meu rosto. — E eu não vou te explicar. Não aqui. Não agora. — Então quando? Depois de mais um tiroteio? Depois de você aparecer de novo com sangue que não é só seu? — Vai embora, Clara — ele disse. Tentou virar as costas e ir embora. Mas eu segurei firme o seu braço e olhei no fundo dos seus olhos. — Não. A palavra saiu como um tiro. Eu senti a teimosia se solidificar dentro de mim, misturada com medo, atração e uma raiva crescente. Eu tinha vindo para a Rocinha para salvar vidas, não para me envolver com um homem que coletava segredos como outras pessoas colecionavam cicatrizes. E ainda assim, ali estava eu, presa entre a parede e o corpo dele, o coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele ouvia. Rafael fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo selvagem ali. Algo que fazia meu estômago revirar de um jeito que não era só medo. — Você não sabe calar a boca, né? — ele disse firme. E isso foi o bastante para o meu corpo inteiro estremecer. — Não. Especialmente quando estão mentindo na minha cara — eu disse firme de volta. — Então, eu vou te ensinar — ele respondeu com a voz grave. E isso foi o suficiente. A boca dele desceu sobre a minha com uma urgência brutal, sem aviso, sem delicadeza. Foi um beijo duro, quase punitivo, feito para calar, para dominar, para tirar de mim qualquer pergunta restante. Eu fiquei paralisada por um segundo inteiro, o choque atravessando meu corpo como corrente elétrica. Depois o choque virou fogo. Minhas mãos subiram sozinhas e se agarraram à camiseta preta dele, puxando, exigindo mais. Ele gemeu baixo contra a minha boca — um som rouco e contido que me desmontou por dentro — e aprofundou o beijo, a língua invadindo, o corpo inteiro pressionando o meu contra a parede. Eu nunca tinha sido beijada daquele jeito. Nunca tinha sentido um homem me tomar a boca como se eu fosse ao mesmo tempo um problema e a única solução. O gosto dele era de menta e algo mais forte. As mãos grandes subiram para o meu rosto, segurando com força suficiente para doer um pouco, o ângulo mudando, o beijo ficando mais fundo, mais desesperado. Eu respondia com a mesma fome, a teimosia se transformando em necessidade. Minha mania de controle se desfez por completo. Não havia números. Não havia listas. Só aquele homem, aquele beijo, e o calor que descia rápido demais entre as minhas pernas. Quando ele se afastou, estávamos os dois ofegantes. Os lábios dele vermelhos. Os meus latejavam. Rafael apoiou a testa na minha por um segundo, os olhos fechados, como se precisasse se recompor. — Agora cala a boca — sussurrou, a voz rouca. — Pelo menos por cinco minutos. Eu queria responder. Queria voltar às perguntas. Mas a boca ainda formigava e as pernas estavam moles demais. Ele se afastou de vez, puxou a camiseta para baixo e olhou para os dois lados do beco, já em modo de alerta outra vez. — Eu te levo até o seu quarto. E você tranca a porta. Não abre para ninguém. Nem para mim. Entendeu? — Rafael... Tentei retrucar, mas com ele era quase impossível. — Entendeu, Clara? A forma como ele falou meu nome fez algo se revirar dentro de mim. Eu acenei com a cabeça, ainda sem confiar na própria voz. Ele me levou em silêncio. A tensão entre nós era tão espessa que eu quase conseguia morder. No caminho, eu continuava sentindo o fantasma da boca dele sobre a minha. Continuava vendo o cartão queimando na minha memória. Continuava ouvindo o nome Gael ecoando. O quarto alugado ficava em uma laje um pouco mais abaixo. Era pequeno, paredes finas, uma cama de solteiro e um ventilador barulhento. Rafael parou na porta, olhou para dentro como se estivesse memorizando cada detalhe, e depois cravou os olhos nos meus. — Tranca a porta — ele disse firme. Eu assenti e tranquei. Depois ouvi os passos dele se afastando. Só então encostei a testa na madeira fria da porta e soltei o ar que estava segurando. Meus dedos subiram sozinhos para a boca. Ainda formigava. Ainda queimava. A noite passou devagar. Eu tentei dormir e não consegui. Cada vez que fechava os olhos, via o beijo. Via o cartão. Via o sangue na camiseta preta. Minha mente, sempre rápida demais, tentava encaixar as peças e falhava. Quem era aquele homem? Por que um escritório de advocacia de luxo? Por que a mulher o chamara de Gael? E por que, apesar de tudo, meu corpo inteiro ainda pedia por mais daquele beijo? Essas perguntas ficaram me perseguindo por um longo tempo. Já era madrugada quando eu estava quase conseguindo um sono leve que o primeiro estampido cortou o silêncio. Depois veio o segundo. E o terceiro. Uma rajada completa. Eu me sentei na cama de um pulo, o coração disparado, a respiração presa. Os tiros não eram distantes. Eram próximos. Muito próximos. E vinham exatamente da direção do posto de saúde. Foi então que eu percebi o que estava acontecendo e gritei: — MEU DEUS! A CLÍNICA ESTÁ SENDO METRALHADA.Clara MendesO “sim” ainda queimava na minha língua quando Rafael me puxou de volta para o barraco através da multidão que tinha se formado na ladeira.Eu, Clara Mendes, médica que construí cada pedaço da própria vida em cima de decisões racionais e listas mentais, tinha acabado de aceitar um pedido de casamento no meio da Rocinha, na frente de dezenas de pessoas, feito por um homem que mentia sobre o próprio nome. Meu coração batia tão descompassado que eu sentia o pulso nos ouvidos. A teimosia que sempre me definira brigava com um medo antigo e com um desejo tão visceral que me deixava tonto. Eu contava os passos sem conseguir parar. Onze até a curva. Quatorze até a porta do barraco. Dezessete até ele trancar os dois ferrolhos atrás de nós e o mundo lá fora desaparecer.Ele não falou nada. Apenas me empurrou suavemente contra a porta recém-fechada e beijou minha boca com uma fome que não tinha nada de delicada. Eu retribuí. Porque o corpo já não pedia permissão ao cérebro. Porque o
Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca







