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CEO, Mangaká e o Limpador

Autor: BRUNA
last update Fecha de publicación: 2026-08-23 23:23:49

O primeiro dia de trabalho serviu para me ensinar duas coisas sobre Bernardo. A primeira: ele era um maníaco por controle que devorava funcionários no café da manhã. A segunda: quanto mais ele tentava me mandar e me intimidar, mais difícil ficava para mim não olhar para a boca dele e pensar em coisas extremamente inadequadas para o ambiente de trabalho.

Sair do prédio da Apex às oito da noite com o crachá pendurado no pescoço foi uma vitória. Eu tinha um disfarce oficial.

Caminhei até um pequeno bar de luzes quentes e ambiente barulhento a poucas quadras dali. No fundo do estabelecimento, em uma mesa de canto parcialmente escondida pelas sombras, dois rostos familiares me esperavam.

— Olha só, o grande 'Limpador' virou office-boy — debochou Renan, dando um gole em sua cerveja. Ele tinha uma jaqueta de couro gasta e olhos atentos que nunca paravam de vigiar as entradas do bar.

— Ele não é office-boy, Renan, é assistente pessoal — corrigiu Maya, sem tirar os olhos do laptop onde monitorava a frequência das rádios da polícia e das linhas clandestinas da cidade. Ela me encarou, preocupada. — Como foi lá, Lucca? Ninguém te reconheceu?

Tirei o moletom gigante assim que me sentei, revelando a regata preta justa por baixo. Meus ombros largos, o peitoral definido e as cicatrizes traçadas pela minha pele ficaram expostos longe dos olhares dos civis. Suspirei, passando a mão pelos cabelos escuros e bagunçados.

— Foi perfeito. O prédio tem segurança de alto nível, o que me dá uma cobertura excelente. A máfia secundária vai demorar a me achar naquele ninho de corporativos — respondi, pegando um copo de água. — O único problema é o meu chefe.

— O CEO? — Maya ergueu a sobrancelha. — O que tem ele? É muito rígido?

— Ele é arrogante, insuportável, dominador... e absurdamente atraente — confessei, deixando escapar um sorriso de canto. — O sujeito exala poder. Chega a ser irritante o quanto ele é gostoso.

Renan quase engasgou com a cerveja, caindo na gargalhada.

— Você tá de brincadeira. Sair da máfia, ter a cabeça a prêmio por metade dos assassinos da cidade e a sua maior preocupação é a beleza do seu chefe? Lucca, você é maluco.

— Eu não tô preocupado, só fiz uma constatação — retruquei, ajeitando a postura. — E não se esqueçam: se a máfia se aproximar, eu não vou hesitar. Eles sabem do que sou capaz. Eu só quero a minha liberdade.

— A máfia secundária tá desesperada, Lucca — Maya alertou, o tom ficando sério. — Você era o homem de confiança deles. Sabe o nome dos juízes comprados, as rotas de carregamento, tudo. Eles preferem queimar a cidade inteira a deixar você vivo com essas informações. Fique esperto.

Assenti. Eu sabia das regras do jogo. Mas se eles quisessem guerra, teriam.

Na manhã seguinte, cheguei à Apex Entertainment exatamente às sete da manhã, usando outro moletom oversized — desta vez verde-escuro —, jeans folgados e o mesmo olhar tímido e inofensivo.

Quando entrei na sala da presidência para deixar o café preto de Bernardo sobre a mesa, encontrei a porta do escritório privativo dele encostada.

— Sr. Bernardo? — chamei baixo, assumindo a voz doce e hesitante de sempre.

Ninguém respondeu. Dando passos silenciosos, espiei pela fresta da porta.

Bernardo estava de costas para mim, sentado em uma mesa de desenho profissional. O terno estava jogado no sofá; ele vestia apenas a camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e delineados. Ele estava concentrado, rabiscando furiosamente com uma caneta nanquim em uma prancheta digital.

Aprocurando não fazer barulho, dei mais dois passos. Meus olhos de caçador, treinados para notar detalhes imperceptíveis, captaram os traços no ecrã.

Eram desenhos sombrios, viscerais, com traços marcantes e cheios de ação e angústia. Era a arte inconfundível de Kage, o mangaká mais famoso e misterioso do país, cujas obras vendiam milhões e cuja identidade real era guardada a sete chaves pelo mercado editorial.

Meu queixo quase caiu. O CEO frio, arrogante e milionário era a mente por trás daquelas histórias sombrias?

Antes que eu pudesse recuar, um estalo sutil no piso entregou minha presença.

Em um movimento absurdamente rápido, Bernardo cobriu a tela da prancheta e se virou. Seus olhos escuros faiscaram com uma fúria perigosa. Ele se levantou de golpe, a aura dominante tomando conta de todo o ambiente.

— Quem te deu permissão para entrar aqui?! — a voz dele ergueu-se, grave e ameaçadora, enquanto ele caminhava passos largos até mim.

Apanhado de surpresa, engoli em seco. O garoto tímido por dentro tremeu por encenação, mas por fora, o homem em mim sentiu uma onda instantânea de calor ao ver a intensidade de Bernardo tão perto.

Ele me prensou contra a parede ao lado da porta. Uma de suas mãos espalmou ao lado da minha cabeça, o corpo quente dele a centímetros do meu. O cheiro de madeira queimada e café me envolveu por completo.

— Você viu? — ele rosnou, o olhar cravado no meu. — Responda, Lucca. O que você viu?

Pisquei devagar, fingindo susto, embora meus olhos verdes tivessem descido por um segundo para a boca perfeitamente desenhada dele.

— E-Eu... os desenhos, senhor... — gaguejei, a voz falhando de forma fofa. — O senhor... o senhor é o Kage?

A mandíbula de Bernardo travou. A surpresa passou por seu rosto, substituída por um controle rígido. A proximidade entre nós era avassaladora; eu podia sentir o calor do peito dele contra o meu moletom largo.

— Se uma única palavra sobre isso sair da sua boca para qualquer pessoa... — ele baixou a voz, sussurrando perto do meu ouvido, a respiração quente roçando meu pescoço, o que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem — ...eu acabo com a sua vida. Entendeu? Ninguém sabe. Nem a diretoria, nem a imprensa. Apenas meu editor. E agora você.

Senti um arrepio gostoso percorrer minha espinha. A ironia era quase divertida: um CEO me ameaçando de morte sem ter a menor ideia de que a pessoa presa contra a parede já tinha matado dezenas de homens com as próprias mãos.

Ergui o rosto, encarando-o de perto. A essa distância, pude ver a pequena pinta perto do lábio dele.

— O seu segredo está seguro comigo, Sr. Bernardo — murmurei, mantendo o tom suave, mas sem desviar o olhar do dele. — Eu sei guardar segredos muito bem.

Bernardo sustentou meu olhar por longos segundos. A tensão entre nós mudou; a fúria deu lugar a algo denso, pesado e inegavelmente sensual. O olhar dele desceu para meus lábios e depois para a gola larga do meu casaco, que havia escorregado levemente com o impacto contra a parede, revelando a curva do meu ombro.

Ele estreitou os olhos, tocando a ponta dos dedos muito perto da minha pele, onde a borda de uma cicatriz antiga despontava.

— Você é um mistério irritante, Lucca — ele murmurou, a voz rouca, a arrogância cedendo espaço a uma fascinação crua.

Antes que qualquer um de nós pudesse dar mais um passo em direção ao abismo, o som estridente do telefone da mesa dele cortou o ar, quebrando o feitiço.

Bernardo se afastou lentamente, ajeitando a camisa, mas sem tirar os olhos de mim.

— Limpe a mesa e traga meu café — ordenou ele, voltando à postura fria de CEO, embora a respiração estivesse levemente descompassada. — E feche a porta ao sair.

— Sim, senhor — respondi com a cabeça baixa, ocultando o sorriso de canto que surgiu nos meus lábios.

Ele achava que me tinha nas mãos por causa do segredo dele. Mal sabia o meu arrogante chefe que, no momento em que a máfia batesse àquela porta, ele descobriria exatamente quem estava protegendo quem.

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Último capítulo

  • CEO, Mangaká e o Limpador!   CEO, Mangaká e o Limpador

    Seis meses se passaram desde a noite no bunker da baía. O submundo, despojado das peças que mantinham suas engrenagens de medo funcionando, silenciou. Para a Sombra Vermelha e para a Máfia Mãe, o nome do "Limpador nº 1" tornou-se uma lenda encerrada, um arquivo definitivamente arquivado.A manhã de domingo nasceu ensolarada sobre Tóquio. A luz dourava a varanda do duplex de Bernardo, onde o cheiro de café fresco e torradas quentes misturava-se à brisa suave.Bernardo estava sentado à mesa de centro, vestindo apenas uma calça de algodão e a camisa social branca desabotoada, os cabelos escuros caindo suavemente sobre a testa. Em seu colo, o tablet de última geração exibia o esboço de um novo projeto de mangá — não mais uma história sombria e violenta sobre assassinos e conspirações, mas uma trama onde um jovem de olhos intensos finalmente encontrava um refúgio.Eu me aproximei em silêncio, vestindo o meu velho moletom cinza folgado — que agora Bernardo se recusava a deixar eu jogar fora

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    O beijo na diretoria selava uma vitória que parecia absoluta. Durante três dias, a rotina na Apex Entertainment seguiu um ritmo suave, quase irreal. Pela primeira vez em anos, eu dormia oito horas seguidas sem acordar com o sobressalto de um pesadelo ou com o instinto de puxar uma lâmina sob o travesseiro.Mas a paz para um ex-Limpador é sempre uma ilusão temporária.No submundo, a Máfia Mãe podia ser o gigante que dominava as manchetes e o crime organizado de alto escalão, mas não era a única força a operar na escuridão. Antes que eu me tornasse o lendário "Limpador nº 1" do Don Vincenzo, existiam os anos de treinamento. Os anos de formação na Sombra Vermelha — um grupo mercenário independente, internacional e sem código de honra, especializado em execuções invisíveis e sabotagem corporativa.Para eles, a palavra "aposentadoria" simplesmente não constava no dicionário.Era final de tarde de uma sexta-feira. Bernardo estava em uma conferência online com investidores europeus na sala d

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