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Nevoeiro Que Não Passa

Autor: Crisfer
last update Data de publicação: 2026-03-07 07:26:34

Analu

Os dias depois da notícia viram um nevoeiro grosso, daqueles que você mal vê a mão na frente do rosto. Tudo fica cinza, lento, pesado. A polícia confirma o que a gente já sabia no fundo do peito: Gabi foi assassinada. Execução. Tiro na cabeça, calibre 9mm, à queima-roupa. Sem testemunhas. Sem impressões digitais. Sem nada que aponte direto pro Humberto. Ele tem o álibi perfeito — jantar com sócios, câmeras do restaurante, nota fiscal, gente jurando que ele tava lá a noite toda.

Eu sinto
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  • CORAÇÕES MARCADOS    Capítulo Final

    O Que o Amor FezCayoO sol da manhã entra pela janela do nosso quarto, mas não é mais aquela luz laranja do poste de gasolina. Agora é sol de verdade, entrando pelas cortinas de linho que a Analu escolheu, iluminando os móveis planejados, o closet enorme dela, a varanda que virou nosso refúgio.Dezesseis anos. Dezesseis anos desde que a Zaya nasceu e bagunçou tudo de novo. Ela tem dezesseis agora. Uma mocinha. Linda igual a mãe: loira, alta, os mesmos olhos azuis que me perderam desde o começo. E isso me dá um desespero danado.— Pai, você vai me levar na escola hoje? — ela aparece na porta do quarto, já de uniforme, a mochila pendurada num ombro.— Claro, princesa. Só deixa eu acordar direito.— Já são sete horas!— E daí?Ela ri, aquele riso que é a cara da Analu, e sai correndo. Escuto os passos dela descendo as escadas, os latidos do Bolt (mais fracos agora, mas ainda latidos), a voz do Zyon reclamando de alguma coisa na cozinha.O Zyon. Meu Deus, o Zyon. Vinte e dois anos. Um ho

  • CORAÇÕES MARCADOS    Irmãos, Brigas e Risadas

    Analu A tarde começou calma. Dessas que a gente até desconfia. O Zyon tava no quarto dele, montando um quebra-cabeça novo que ganhou da vovó. A Zaya tava na sala, vendo desenho no sofá, o Bolt deitado aos pés dela, roncando baixinho. Eu tava na cozinha, tentando adiantar o jantar, quando ouvi o primeiro grito. — ZYON! ME EMPRESTA O CARRINHO! — NÃO! É MEU! VOCÊ QUEBRA TUDO! Larguei a panela na hora. Quando cheguei na sala, a cena já tava armada: o Zyon no corredor, segurando o carrinho vermelho contra o peito, a Zaya na frente dele, os olhos cheios de lágrimas, as mãozinhas fechadas de raiva. — Você nunca me empresta nada! — ela gritou, a voz falhando. — É sempre SEU, SEU, SEU! — Porque é MEU! — ele gritou de volta, mais alto. — Você ganhou presente ontem, Zaya! Ontem! E já quer o meu? — Mas eu quero brincar com o seu, AGORA! — VAI BRINCAR COM SUAS BONECAS! — BONECA É CHATO! — O CARRINHO É MEU! A Zaya começou a chorar. Não aquele choro de manha, mas um choro de verdade, solu

  • CORAÇÕES MARCADOS    Noites Que Ainda Pertencem a Nós

    Cayo A casa tava silenciosa. Não aquele silêncio pesado de esperar o pior, mas um silêncio gostoso, daqueles que a gente aprendeu a valorizar depois de tanto tempo. As crianças tinham ido dormir na casa da minha mãe. Ela ligou mais cedo, insistindo: — Cayo, deixa os meus netos passarem a noite aqui. O Paulo alugou um filme novo na tv, vou fazer pipoca, eles merecem se divertir um pouco com a vovó. — Mãe, a senhora não cansa? — Dos meus netos? Nunca, meu filho. Manda eles pra cá e vocês dois aproveitam a noite livre. Se é que você me entende. Assim quem sabe eu tenha mais netinhos. Eu ri, passei a mão no rosto. — Tá bom, mãe. Vou levar. A Analu, do meu lado, arregalou os olhos. — Eles vão dormir lá, Cayo? — Vão. A vovó quer os netos. — A noite inteira? — A noite inteira. Ela ficou em silêncio por um segundo, depois um sorriso lento apareceu no rosto dela. Aquele sorriso que eu conheço bem. O sorriso que diz que a noite ia ser boa. — Arrumei as crianças, levei elas pra

  • CORAÇÕES MARCADOS    A Notícia que Fecha o Ciclo

    Analu A noite era comum. Daquelas que a gente aprendeu a valorizar depois de tanta luta. A mesa posta, o cheiro da comida caseira, as crianças rindo e brigando ao mesmo tempo. O tipo de noite que, anos atrás, antes da Zaya, parecia um sonho distante. A Zaya tava no colo do Cayo — ele que acostumou ela a comer assim — pegando a coxa de frango com a mão, sujando tudo. O Zyon, do meu lado, contava animado sobre o campeonato de futebol da escola. — Mãe, a gente ganhou de seis a zero! E eu fiz dois gols! — Meu craque! — passei a mão no cabelo dele, que já tá crescendo, caindo nos olhos, igual ao pai. — Tô orgulhosa. — Pai, você vai no próximo jogo? — ele perguntou pro Cayo. — Vou, campeão. Pode deixar. Vou levar a Zaya também, ela vai ser sua fã número um. — NÚMERO UM! — a Zaya repetiu, batendo palma, toda orgulhosa. O Bolt tava deitado no canto da sala, dormindo, mas de olho aberto, como sempre. Velho, cansado, mas atento. Guarda-costas até o fim. A TV da sala tava ligada no jorn

  • CORAÇÕES MARCADOS    Corações Marcados

    AnaluO sol entra pela janela do quarto como faz toda manhã, mas hoje ele parece mais brilhante. Acordo com o silêncio — um silêncio diferente, daqueles que só existem quando as crianças tão longe. Mas não tão longe assim. Escuto os passos no corredor, os risos abafados, e sei que tão aí. Tão sempre aí.Cinco anos. Cinco anos desde que a Zaya nasceu e mudou tudo de novo. Ela tem cinco agora. Cinco anos de uma personalidade que é puro Cayo: teimosa, brava, mas com um coração enorme. E o Zyon, meu Deus, o Zyon tem onze anos. Onze anos. Tá quase na minha altura, a voz começando a engrossar, um mini adolescente que ainda corre pra me abraçar quando chega da escola (e eu espero que isso nunca mude).— MÃE! — a voz da Zaya corta o silêncio. — O Zyon não deixa eu pegar o meu tênis!— Porque você quer pegar o MEU tênis! — o Zyon responde, rindo.— É ROSA! Eu gosto de ROSA!— É meu, Zaya! E ele é salmão, não é rosa.Levanto da cama, arrasto o Cayo que ainda tenta dormir mais cinco minutos, e v

  • CORAÇÕES MARCADOS    A Família que Escolhemos

    Analu O sol da manhã entra pela janela do quarto e eu acordo com o barulho que virou a trilha sonora da minha vida: os pés do Zyon correndo pelo corredor, a risada da Zaya no quarto ao lado, e o latido do Bolt, sempre atrás dos dois. Dois anos. A Zaya fez dois anos mês passado. Parece que foi ontem que eu segurava ela no colo pela primeira vez, e hoje ela já corre pela casa, fala palavras soltas e tem uma opinião forte sobre tudo. Principalmente sobre comida. — MAMÃO! — ela grita da cozinha, e eu sei que é o Zyon que ela quer. O Zyon, com oito anos, já é o protetor oficial da irmã. Acorda antes da gente, prepara o café dela (com ajuda, claro), e leva ela pra tomar na sala enquanto vê desenho. Hoje não é diferente. Quando chego na cozinha, ele tá cortando banana em pedaços pequenos, com uma concentração de cirurgião. A Zaya do lado, no banquinho, batendo as mãos na mesa. — Rápido, mamão! — ela exige. — Calma, Zaya. Tá saindo. Ela me vê e abre um sorriso enorme. — Mamãe! Ma

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