Mag-log in(POV: Alexandre)
O vapor do banho ainda nublava o espelho quando saí do banheiro, apenas com a calça do pijama e uma toalha pendurada no pescoço. Passei a mão pelo rosto, sentindo a leve ardência onde a mão de Sophie havia me atingido horas antes. Um sorriso amargo surgiu em meus lábios. O tapa tinha sido merecido, mas o beijo... o beijo tinha sido uma revelação. Sophie lutava contra mim com todas as forças, mas seu corpo, naquele breve segundo de entrega na cozinha, havia dito algo completamente diferente. Eu ainda sentia o gosto dela quando o silêncio da mansão foi estilhaçado. Gritos. Uma discussão acalorada vinda do corredor da ala leste, tornavam-se impossíveis de ignorar. Abri a porta do quarto e dei de cara com dona Helena, que corria pelo corredor com o rosto pálido. — O que está acontecendo, dona Helena? — perguntei, minha voz cortando o ar. — Oh, senhor Alexandre! É o menino Caleb e a menina Sophie... eles estão se matando lá dentro! É horrível, senhor! Caminhei em direção à ala leste sem pressa. No caminho, encontrei Lúcia parada diante da porta do filho. Ela não tentava entrar, apenas observava a porta fechada com uma expressão de derrota e irritação. Lúcia sempre prezou pelas aparências, e ver o castelo de cartas de Caleb desmoronar daquela forma barulhenta parecia ferir seu orgulho tanto quanto a situação em si. Parei a uma distância segura, encostado na parede, agindo apenas como um espectador. De dentro do quarto, a voz de Sophie surgiu rasgada, carregada de um ódio que eu não sabia que ela possuía. — Não encosta em mim! — o grito dela atravessou a madeira da porta. — Nunca mais ouse me tocar com essas mãos sujas! Tudo o que você me disse... cada palavra... era uma mentira maldita! — Sophie, por favor, vamos conversar, eu posso explicar... — a voz de Caleb era um sussurro patético, sufocado pelo pânico. — Explicar o quê? — Sophie rebateu, e o som de algo de vidro se estilhaçando contra a parede pontuou sua fúria. — Que eu sou "ingênua demais"? Que você só precisa "aguentar esse casamento de fachada até garantir sua parte na herança"? Eu li, Caleb! Eu li cada palavra que você mandou para ela. — Amor, você está interpretando tudo errado. — Interpretando errado o quê? Que eu sou um fardo? Uma obrigação para você colocar as mãos no dinheiro do seu avô? Em seguida a porta se escancarou e Sophie saiu como um furacão. Caleb a segurou pelo braço no corredor, bem diante dos meus olhos e do olhar gélido de Lúcia. Ele parecia desfeito, o rosto transfigurado pelo medo de perder o prêmio que ela representava. — Amor, espera! Eu errei, eu admito! — a confissão finalmente veio, ecoando pelo corredor, uma tentativa desesperada de conter o inevitável. — Eu vou terminar com ela. Hoje. Agora mesmo! Ela nunca significou nada, amor, eu juro! Foi só um passatempo… Eu só precisava... É que eu tenho… necessidades. Você sabe que eu sou homem, Sophie, e a gente... a gente não tem tido nada... A palavra “necessidades” me fez querer rir, mas o efeito em Sophie foi devastador. Ela soltou um riso quebrado, ácido. Um som que carregava o fim de qualquer ilusão. — Então a culpa é minha? — ela rebateu, a voz subindo de tom, carregada de uma mágoa que parecia rasgar sua garganta. — Por que eu quis me resguardar para o nosso casamento? Por que eu acreditei que o que tínhamos era especial o suficiente para esperar? Isso te deu a liberdade para me trair? — Não! Não foi isso que eu quis dizer! — Caleb a soltou, recuando ao ver que Lúcia observava tudo em silêncio, sem mover um dedo para defendê-lo. — Me perdoa amor, por favor! Eu te amo! Nós construímos tanta coisa juntos. Três anos! Você vai jogar três anos fora por um impulso? Por algumas mensagens idiotas? Pensa em tudo o que passamos, Sophie... nos nossos planos... Os olhos de Sophie estava cheio de lágrimas, brilhando sob as luzes do corredor, mas a postura dela era de uma firmeza inabalável, apesar do tremor em suas mãos. — Impulso? — ela repetiu, a voz agora num sussurro cortante. — Trair por meses não é impulso, Caleb. Planejar me descartar depois de me usar para ganhar uma herança não é um erro, é um plano. É por isso que eu estou indo. Eu não merecia isso e você sabe muito bem. Está tudo terminando entre a gente. Caleb congelou. Percebi que os olhos dele começaram a ficar vermelhos e encheram de lágrimas. Ele parecia buscar algum apoio no olhar da mãe, mas Lúcia apenas desviou o rosto, envergonhada pela mediocridade do filho. — Sophie… Amor... Por favor… — a voz dele já não tinha força, era apenas um lamento rouco. — Eu te amo! Me dá só mais uma chance... Para a gente... Eu faço qualquer coisa! Eu mudo, eu juro! Sophie balançou a cabeça devagar, as lágrimas já rolando pelo seu rosto, mas sem qualquer sinal de dúvida. Ela olhou para ele uma última vez, e vi o momento exato em que o amor que ela sentia se transformou em cinzas. — Não existe mais "a gente", Caleb. Ela se virou e começou a descer as escadas em direção ao hall, o som de seus saltos batendo no mármore como uma contagem regressiva. Eu a segui com o olhar, sentindo uma satisfação sombria crescer em meu peito. O noivado estava morto, e Caleb tinha cavado a própria cova. Desci os degraus e a interceptei antes que ela alcançasse a porta principal. — Olhe para você — eu disse, minha voz grave ecoando no hall vasto e silencioso. — Você não pertence a este lugar. Ela parou, soltando um suspiro trêmulo, as lágrimas escorrendo sem controle enquanto me encarava. A vulnerabilidade dela era hipnotizante, uma chama que eu queria proteger e, ao mesmo tempo, possuir. — Agora vá embora — continuei, meu tom gélido e final, ocultando o triunfo que vibrava em minhas veias. — E se você tiver algum instinto de sobrevivência, nunca mais volte. Não disse mais nada. Apenas fiquei ali, observando-a quebrar por mais um segundo sob o peso da minha sentença, antes de me virar e caminhar de volta para dentro da mansão. Enquanto subia as escadas, um sorriso discreto surgiu em meu rosto. Sophie estava livre de Caleb, e agora, o caminho estava finalmente limpo para mim. Ela ainda não sabia, mas nunca sairia realmente do meu alcance. Eu a queria, e agora não havia mais ninguém no meu caminho.(POV: Henrique) Sophie continuou com os olhos fixos em mim. Havia cansaço em seu rosto, porém não o suficiente para diminuir sua atenção. Ela observava cada pausa, cada movimento e cada resposta incompleta. Eu conhecia aquele olhar. Não era apenas curiosidade. Sophie estava me avaliando. Eu sabia que Alexandre havia saído do apartamento para resolver algo relacionado a Danilo. Mas não podia contar isso a ela. Sophie já havia percebido que a história sobre Lyon não passava de uma parte da verdade, e eu nunca fui bom o bastante em mentir. — Você está me olhando como se esperasse que eu confessasse alguma coisa — comentei, tentando manter um tom leve, enquanto minha mão escorregava para dentro do bolso do casaco. Sophie não sorriu. Apenas inclinou a cabeça, mantendo os olhos estreitos sobre mim. — Talvez eu esteja — respondeu, em um tom tranquilo demais para ser casual. — Então vai precisar ser mais específica — retruquei, puxando a cadeira e me sentando diante dela. Cruzei uma per
(POV: Sophie) A primeira manhã no apartamento começou mais tranquila do que eu esperava. Maya dormia no berço ao lado da cama, enrolada em uma manta clara, enquanto a enfermeira permanecia sentada na poltrona próxima à janela. O ambiente ainda parecia novo demais para ser chamado de lar, mas havia algo reconfortante naquele silêncio. Alexandre estava diante do espelho, ajeitando os punhos da camisa. O celular vibrou sobre a cômoda, e ele conferiu a tela antes de atender. — Sim — disse, afastando-se alguns passos. — Eu já vi os documentos. Não vou autorizar nada sem revisar a última versão. Envie para o escritório de Lyon e peça que aguardem a minha assinatura. Ele encerrou a ligação, guardou o celular no bolso e pegou o relógio sobre a cômoda. — Você vai sair? — perguntei, observando-o enquanto ele prendia o relógio no pulso. Alexandre ergueu os olhos para o meu reflexo no espelho. — Preciso resolver uma pendência urgente em Lyon — respondeu, com a tranquilidade de quem já havi
O trajeto até o apartamento foi tranquilo. Maya dormia no bebê-conforto, protegida por uma manta clara, enquanto Sophie a observava a cada poucos minutos. Alexandre dirigia com atenção, mas continuava conferindo os espelhos. Os veículos de segurança seguiam logo atrás, enquanto outro permanecia à frente. Quando chegaram ao edifício, os seguranças se posicionaram antes mesmo de o carro parar completamente. A entrada era discreta, mas havia câmeras nos cantos do teto e homens espalhados pelo saguão. Sophie acompanhou a movimentação pela janela. — Tudo isso é mesmo necessário? Alexandre desligou o motor e olhou para ela. — Para mim, é. — E para mim? Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos. — Principalmente para você. Quem foi sequestrada foi você. Sophie abriu a boca para responder, mas desistiu. Naquele momento, não tinha energia para discutir. Alexandre saiu do carro, pegou o bebê-conforto e esperou que um dos seguranças abrisse a porta para Sophie. O apartamento ocupav
Os sete dias seguintes passaram entre exames, pequenas caminhadas e visitas à UTI neonatal. Sophie recuperava a força aos poucos. Já conseguia andar sem a cadeira de rodas, tomar banho sozinha e se alimentar melhor. Maya também evoluía bem. Havia deixado a incubadora, mantinha o peso estável e começava a mamar com mais facilidade. Alexandre continuava ao lado das duas, mas já não precisava perguntar sobre cada aparelho ou medicamento. A equipe havia se acostumado com sua presença e com a atenção quase excessiva que dedicava a qualquer mudança no estado de Sophie ou da filha. Na manhã da alta, Sophie estava sentada na cama enquanto a médica revisava as últimas orientações com Alexandre. — Ela ainda precisa evitar esforço físico — explicou a médica, entregando uma pasta de documentos. — Nada de carregar peso além da bebê, subir escadas sem necessidade ou fazer atividades mais pesadas. Se tiver febre, sangramento intenso ou uma dor que piore, procure atendimento imediatamente. Sophie
Os dias seguintes trouxeram uma melhora lenta, mas constante. Sophie ainda acordava cansada, com o corpo dolorido e dificuldade para se movimentar. Mas, a cada dia, alguma coisa melhorava. Os médicos reduziram os medicamentos, retiraram alguns acessos e, depois, começaram a incentivá-la a se levantar e caminhar pequenas distâncias. Alexandre acompanhava tudo de perto. Passava boa parte do tempo sentado ao lado da cama ou próximo à janela, sempre atento aos médicos e enfermeiros. Perguntava sobre os medicamentos, os horários, os cuidados e qualquer mudança no estado dela. Não conseguia simplesmente ficar de fora. Naquela manhã, uma enfermeira ajudava Sophie a se levantar. — Devagar — orientou, segurando seu braço. — Primeiro, sente-se na beirada da cama. Não tenha pressa. Sophie obedeceu. Assim que os pés tocaram o chão, uma dor aguda atravessou seu abdômen. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Alexandre se levantou imediatamente. — Quer que eu chame o médico? — perguntou, já se a
(POV: Alexandre) Saí da UTI sem pressa, embora tudo em mim quisesse ficar ao lado de Sophie. A enfermeira havia deixado claro que ela precisava descansar, e eu entendia. Ainda sentia o toque fraco dos dedos dela entre os meus. Sophie tinha finalmente acordado. Tinha falado comigo. Depois de dois dias esperando por aquele momento, ainda parecia difícil acreditar. Ela estava viva. Parei por alguns segundos diante das portas de vidro e olhei para a minha mão. O medo ainda estava ali, mas, pela primeira vez em dias, eu conseguia respirar sem sentir que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Caminhei até a UTI neonatal e pedi autorização para ver minha filha. A enfermeira me reconheceu e permitiu que eu entrasse na área reservada aos familiares. Parei diante da incubadora. Maya dormia enrolada em uma manta, pequena demais para o mundo que a esperava. Os aparelhos continuavam ligados, mas os números nos monitores permaneciam estáveis. Havia menos fios do que antes. Menos si







