FAZER LOGIN(POV: Sophie)
Subi as escadas correndo, meus pés mal tocando os degraus de madeira da mansão. Eu sentia o meu rosto queimar de raiva e vergonha. O gosto dele ainda estava em minha boca, um lembrete amargo e invasivo de que eu tinha sido enganada da forma mais vil possível. Eu me sentia imunda. Eu tinha traído o Caleb, mesmo que o culpado fosse aquele monstro que agora ria de mim nas sombras da cozinha. Entrei no quarto e fechei a porta, encostando as costas nela enquanto tentava controlar a respiração. O quarto estava na penumbra, mas vi o movimento na cama. — Amor? — A voz de Caleb soou sonolenta. Ele se sentou, esfregando os olhos. — Onde você estava? Acordei e não te vi. — Eu... eu fui buscar um copo de água — menti, minha voz saindo mais trêmula do que eu gostaria. Caleb se levantou e veio até mim. Ele envolveu minha cintura com os braços, puxando-me para um abraço carinhoso. — Você está gelada, meu amor. O que houve? Teve algum pesadelo? A ternura dele era como facas em meu peito. Eu o abracei de volta com força, escondendo o rosto em seu pescoço, tentando desesperadamente sentir o cheiro cítrico dele para apagar o perfume amadeirado de Alexandre da minha mente. Caleb é o homem que eu amo, eu repetia para mim mesma como um mantra. Ele é o meu porto seguro. — Só estou cansada — sussurrei. — Vamos dormir. Voltamos para a cama. Caleb me abraçou por trás, sua respiração logo se tornando pesada e regular. Eu, no entanto, permaneci com os olhos fixos na escuridão, sentindo-me uma farsa. A culpa me corroía. Como eu poderia olhar para ele amanhã sabendo o que aconteceu na cozinha? O tempo passou em um borrão de pensamentos torturantes. Eu devia ter cochilado por alguns minutos quando um som baixo me despertou. Era uma vibração curta, seguida por uma luz fraca que iluminou o teto. O celular de Caleb estava sobre a mesa de cabeceira. Estiquei o braço, com a intenção apenas de silenciá-lo, mas meu olhar caiu sobre a tela. Havia uma mensagem de Evellyn. Senti um nó no estômago, mas tentei me acalmar. É apenas a prima dele, pensei. A filha do Alexandre. Caleb sempre me disse que eles eram próximos por causa da família complicada. Mas algo na hora da mensagem — plena madrugada — me fez pegar o aparelho. O celular não tinha senha. Abri a conversa e o que vi me fez perder o chão. "Ainda não acredito que você está na mesma casa que ela. Quando isso vai acabar, Caleb? Sinto falta do seu toque, daquelas noites no nosso apartamento..." Rolei a tela para cima, meu coração batendo tão forte que parecia que ia explodir. Não eram mensagens entre primos. As palavras eram carregadas de um erotismo e uma intimidade que não deixavam dúvidas. Mas foi a mensagem seguinte que me destruiu por completo: "A Sophie ainda acredita que somos primos? Como ela pode ser tão burra? Você inventou a mentira mais óbvia do mundo e ela caiu como um patinho." A resposta de Caleb veio logo abaixo, enviada horas antes: "Ela acredita em qualquer coisa que eu diga, Evy. A Sophie é ingênua demais. Só preciso aguentar esse casamento de fachada até garantir minha parte na herança. Depois disso, o peso morto vai embora e seremos só nós dois." Uma risada histérica e silenciosa borbulhou em minha garganta. Eu estava me sentindo culpada? Eu estava me sentindo suja por causa de Alexandre, enquanto o homem por quem eu daria a vida estava me usando como um peão, rindo da minha cara com sua amante? Tudo era uma mentira. O amor, o cuidado, a proteção... tudo. A raiva, fria e cortante, substituiu a culpa em um segundo. Levantei-me da cama com um movimento brusco, a adrenalina pulsando em minhas veias. Caleb se mexeu, despertando com o meu movimento repentino. — Soph? O que foi... Eu não respondi com palavras. Com toda a força que o ódio me proporcionava, joguei o celular diretamente no rosto dele. O aparelho atingiu sua bochecha com um estalo seco. — O QUE É ISSO?! — ele gritou, assustado, levando a mão ao rosto enquanto o celular caía sobre o lençol, a tela ainda brilhando com a conversa aberta. — "Peso morto", Caleb? — minha voz saiu como um chicote, gélida e mortal. — É assim que você me chama quando está se deitando com a sua “prima"? Caleb olhou para o celular e depois para mim, a cor fugindo de seu rosto instantaneamente. O teatro havia acabado.(POV: Henrique) Sophie continuou com os olhos fixos em mim. Havia cansaço em seu rosto, porém não o suficiente para diminuir sua atenção. Ela observava cada pausa, cada movimento e cada resposta incompleta. Eu conhecia aquele olhar. Não era apenas curiosidade. Sophie estava me avaliando. Eu sabia que Alexandre havia saído do apartamento para resolver algo relacionado a Danilo. Mas não podia contar isso a ela. Sophie já havia percebido que a história sobre Lyon não passava de uma parte da verdade, e eu nunca fui bom o bastante em mentir. — Você está me olhando como se esperasse que eu confessasse alguma coisa — comentei, tentando manter um tom leve, enquanto minha mão escorregava para dentro do bolso do casaco. Sophie não sorriu. Apenas inclinou a cabeça, mantendo os olhos estreitos sobre mim. — Talvez eu esteja — respondeu, em um tom tranquilo demais para ser casual. — Então vai precisar ser mais específica — retruquei, puxando a cadeira e me sentando diante dela. Cruzei uma per
(POV: Sophie) A primeira manhã no apartamento começou mais tranquila do que eu esperava. Maya dormia no berço ao lado da cama, enrolada em uma manta clara, enquanto a enfermeira permanecia sentada na poltrona próxima à janela. O ambiente ainda parecia novo demais para ser chamado de lar, mas havia algo reconfortante naquele silêncio. Alexandre estava diante do espelho, ajeitando os punhos da camisa. O celular vibrou sobre a cômoda, e ele conferiu a tela antes de atender. — Sim — disse, afastando-se alguns passos. — Eu já vi os documentos. Não vou autorizar nada sem revisar a última versão. Envie para o escritório de Lyon e peça que aguardem a minha assinatura. Ele encerrou a ligação, guardou o celular no bolso e pegou o relógio sobre a cômoda. — Você vai sair? — perguntei, observando-o enquanto ele prendia o relógio no pulso. Alexandre ergueu os olhos para o meu reflexo no espelho. — Preciso resolver uma pendência urgente em Lyon — respondeu, com a tranquilidade de quem já havi
O trajeto até o apartamento foi tranquilo. Maya dormia no bebê-conforto, protegida por uma manta clara, enquanto Sophie a observava a cada poucos minutos. Alexandre dirigia com atenção, mas continuava conferindo os espelhos. Os veículos de segurança seguiam logo atrás, enquanto outro permanecia à frente. Quando chegaram ao edifício, os seguranças se posicionaram antes mesmo de o carro parar completamente. A entrada era discreta, mas havia câmeras nos cantos do teto e homens espalhados pelo saguão. Sophie acompanhou a movimentação pela janela. — Tudo isso é mesmo necessário? Alexandre desligou o motor e olhou para ela. — Para mim, é. — E para mim? Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos. — Principalmente para você. Quem foi sequestrada foi você. Sophie abriu a boca para responder, mas desistiu. Naquele momento, não tinha energia para discutir. Alexandre saiu do carro, pegou o bebê-conforto e esperou que um dos seguranças abrisse a porta para Sophie. O apartamento ocupav
Os sete dias seguintes passaram entre exames, pequenas caminhadas e visitas à UTI neonatal. Sophie recuperava a força aos poucos. Já conseguia andar sem a cadeira de rodas, tomar banho sozinha e se alimentar melhor. Maya também evoluía bem. Havia deixado a incubadora, mantinha o peso estável e começava a mamar com mais facilidade. Alexandre continuava ao lado das duas, mas já não precisava perguntar sobre cada aparelho ou medicamento. A equipe havia se acostumado com sua presença e com a atenção quase excessiva que dedicava a qualquer mudança no estado de Sophie ou da filha. Na manhã da alta, Sophie estava sentada na cama enquanto a médica revisava as últimas orientações com Alexandre. — Ela ainda precisa evitar esforço físico — explicou a médica, entregando uma pasta de documentos. — Nada de carregar peso além da bebê, subir escadas sem necessidade ou fazer atividades mais pesadas. Se tiver febre, sangramento intenso ou uma dor que piore, procure atendimento imediatamente. Sophie
Os dias seguintes trouxeram uma melhora lenta, mas constante. Sophie ainda acordava cansada, com o corpo dolorido e dificuldade para se movimentar. Mas, a cada dia, alguma coisa melhorava. Os médicos reduziram os medicamentos, retiraram alguns acessos e, depois, começaram a incentivá-la a se levantar e caminhar pequenas distâncias. Alexandre acompanhava tudo de perto. Passava boa parte do tempo sentado ao lado da cama ou próximo à janela, sempre atento aos médicos e enfermeiros. Perguntava sobre os medicamentos, os horários, os cuidados e qualquer mudança no estado dela. Não conseguia simplesmente ficar de fora. Naquela manhã, uma enfermeira ajudava Sophie a se levantar. — Devagar — orientou, segurando seu braço. — Primeiro, sente-se na beirada da cama. Não tenha pressa. Sophie obedeceu. Assim que os pés tocaram o chão, uma dor aguda atravessou seu abdômen. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Alexandre se levantou imediatamente. — Quer que eu chame o médico? — perguntou, já se a
(POV: Alexandre) Saí da UTI sem pressa, embora tudo em mim quisesse ficar ao lado de Sophie. A enfermeira havia deixado claro que ela precisava descansar, e eu entendia. Ainda sentia o toque fraco dos dedos dela entre os meus. Sophie tinha finalmente acordado. Tinha falado comigo. Depois de dois dias esperando por aquele momento, ainda parecia difícil acreditar. Ela estava viva. Parei por alguns segundos diante das portas de vidro e olhei para a minha mão. O medo ainda estava ali, mas, pela primeira vez em dias, eu conseguia respirar sem sentir que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Caminhei até a UTI neonatal e pedi autorização para ver minha filha. A enfermeira me reconheceu e permitiu que eu entrasse na área reservada aos familiares. Parei diante da incubadora. Maya dormia enrolada em uma manta, pequena demais para o mundo que a esperava. Os aparelhos continuavam ligados, mas os números nos monitores permaneciam estáveis. Havia menos fios do que antes. Menos si







